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Se pesquisarmos detidamente a história da espiritualidade humana, veremos que em todos os continentes do Planeta, em determinado momento da história de cada um dos povos que aqui habitam, houve um período no qual as vivências espirituais, místicas, mágicas e medicinais, estiveram de certa forma entrelaçadas à Natureza.

O contato com a Mãe Natureza em seus mais diversos elementos era - e em muitos casos contemporâneos ainda é - a via mais importante para a integração do indivíduo e do coletivo com o Todo.

Genericamente podemos dizer que durante a segunda etapa da Pré-história - fase conhecida como Neolítico, também chamada Idade da Pedra Polida e Nova Idade da Pedra - à medida que abandonava o nomadismo e desenvolvia a agricultura através de contatos cada vez mais íntimos com sementes, raízes, folhas e frutos de plantas diversas, proto-sacerdotisas conheciam com crescente profundidade os mistérios dos vegetais com os quais lidavam.

Eis o momento singular a partir do qual nasceram todas as tradições atualmente chamadas "xamânicas". Uma das características mais fortes do xamanismo universal é a conexão do homem, da mulher, com o Universo material-espiritual, através do auxílio de uma ou mais de uma "planta de poder".

007. Jurema Juazeiro2Pinturas rupestres presentes em rochas e cavernas do Nordeste brasileiro indicam que em diversos sítios, os ancestrais de nossos índios reverenciavam ou cultuavam determinadas plantas - que os arqueólogos acreditam terem sido a Jurema e o Juazeiro, uma vez que o culto a essas plantas permanece forte em nossos dias.

Entre os séculos XVI e XVIII, os primeiros etnógrafos europeus que visitaram o Nordeste tomaram nota de cerimônias realizadas por nativos das nações Potiguara, Tarairiú e Chuminy (os antigos Kariri) - rituais nos quais evocavam espíritos, afirmavam visitar mundos incríveis, celebravam matrimônios, se preparavam para as guerras, curavam doentes, recebiam notícias de pessoas distantes e fertilizavam o solo - em que era comum o uso de fumaça de Tabaco (Petum, Petym, Petema, Betim - em Tupi Antigo; Badzé - em Kariri) e a ingestão de um chá produzido à base de Jurema (Y'urema ou Iurema - em Tupi Antigo) e de sementes da aparentemente desconhecida Corpamba.

Entretanto, o olhar do europeu colonizador, assim como suas interpretações da espiritualidade ameríndia, sempre foi bastante limitado. Interessado em dominar e explorar a terra e sua população, considerando-se superior às tribos autóctones - além de tudo observar tendo como padrão a cultura européia - nada mais que ritos bárbaros foram enxergados. Escreveram aquilo que interessava ser combatido pelo processo de catequese e evangelização, classificando as divindades nativas e os espíritos da floresta como seres diabólicos.

Portugueses e franceses, por exemplo, foram incapazes, naquele momento, de perceber que para os chamados "índios" toda a Natureza é Sagrada; e que cada planta, por menor que pareça ser, possui uma Ciência que os pajés manipulavam com sabedoria.

Hoje, no Catimbó-Jurema, conforme o legado cultural dos antigos pajés e mestres juremeiros, há reverência a diversos vegetais (dentre os quais muito se cita, além da Jurema, que é o principal e que por isso consideramos Rainha; o Angico, o Jucá, o Manacá e o Catucá). Acreditamos que nos seres do mundo vegetal habitam entidades espirituais com as quais interagimos, evocamos e invocamos, sempre que há necessidade de cura ou orientação para determinados fins.

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Espero que meus textos estejam de algum modo sendo útil aos amigos e amigas leitores deste sítio. Peço-lhes perdão por não produzi-los de modo melhor, eliminando possíveis erros gramaticais. Estou aproveitando o curto espaço de tempo livre que tenho, entre um trabalho e outro, para posta-los e de algum modo não deixar que o Sagrado do Nordeste brasileiro seja de todo perdido. Afinal, muita coisa nova vem chegando nos últimos anos e temos o triste costume de olhar sempre para fora, esquecendo o que temos e somos dentro.

Sigamos com mais um breve estudo.

Nós, catimbó-juremeiros, acreditamos que existem realidades sutis (áreas de frequências astrais, mentais e espirituais, "universos paralelos", em conexão com o plano de expressão mais grosseiro no qual nos expressamos a maior parte do tempo - o Plano Material) com as quais  discípulos e mestres, uma vez preparados, passam a manter contatos mais íntimos.

Tradicionalmente essas realidades são chamadas "Reinos", "Cidades" e "Aldeias". É desses lugares que vêm os espíritos de Mestres, Índios e Encantados quando, em uma sessão de Catimbó, nós os invocamos ou evocamos para o trabalho (a cura, o desmanche de feitiços, a orientação, a instrução, a proteção). A grande maioria das sessões de Jurema são marcadas pela manifestação dessas entidades, que se expressam através de um ou mais médiuns - mas não exclusivamente por eles.

Chamamos "abrir a mesa" o iniciar da sessão. Abrimos a mesa orando, nos concentrando, pedindo licença e quase sempre cantando as linhas (ou pontos) de abertura. Nesse momento, a conexão entre a nossa e as outras realidades é firmada. A ponte é projetada e os Mestres vêm. Encerramos a sessão "fechando a mesa", também cantando as linhas adequadas.

Entretanto, essa não é a única forma de interação existente. Em determinado momento de sua vida na Tradição, um discípulo pode visitar a Cidade de um Mestre, ou uma Aldeia - ocasião em que ocorre o movimento inverso - ao invés de uma entidade "descer" para atuar em nosso meio, somos nós que "subimos" para conhecer e aprender os Bons Saberes, receber energias, resolver problemas de foro íntimo, etc.

Vejamos um trecho do Meleagro de Luís da Câmara Cascudo, em que ele trata do tema desta postagem:

O Mundo do Além é dividido em Reinados ou Reinos. A unidade é a aldeia. Cada aldeia tem três "mestres". Doze aldeias fazem um Reino, com trinte e seis "mestres". No Reino há cidades, serras, florestas, rios. [São] Sete, segundo uns. Vajucá, Tigre, Canindé, Urubá, Juremal, Fundo do Mar e Josafá. Ou cinco, ensinam outros. Vajucá, Juremal, Tanema, Urubá e Josafá. Um reino compreende dimensões, com topografia, população e cidades cuja forma, algarismo e disposição ainda não foram fixados pelos "mestres" terrestres. [segunda edição, página 54].

Outros pesquisadores indicam um número distinto de Reinos e alguns ainda afirmam que Juremal é como se chama o complexo que reúne todos os reinos e localidades da Jurema.

Se prestarmos atenção às linhas que os Mestres cantam quando estão se manifestando em nosso mundo, veremos que alguns deles indicam o local de onde estão vindo. Por exemplo, o Mestre Tertuliano, assim canta:

Oh que cidade é aquela

De longe eu estou avistando...

É a Cidade de Tanema

Do Mestre Tertuliano...

Sou de Tanema, sou de Tanema

Tertuliano leva os contras pra Jurema...

E assim vai. Grande abraço para todos e todas, na Luz do Juremá. Até breve!