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Sobre discussões inúteis

13906802_1223097617742730_2624281627383198225_nTexto de Jacob Boehme

"Um verdadeiro Cristão, que nasceu novamente do espírito de Cristo, encontra-se na simplicidade de Cristo, e não tem discussões ou brigas com nenhum homem por causa de religião. Ele tem discussões suficientes dentro de si mesmo, com seu próprio sangue e carne bestiais. Ele pensa ser um pecador continuamente e teme à Deus; Mas, o amor de Cristo penetra pouco a pouco, expulsando o medo, assim como o dia engole a noite.

Digo portanto, qualquer um que brigue e discuta sobre o que está escrito, é de todo Babel. As letras da palavra procedem e permanecem em uma raiz, que é o espírito de Deus; assim como as várias flores permanecem na terra e crescem uma do lado da outra. Elas não lutam entre si por causa das diferentes cores, perfumes e sabores, mas fazem com que a terra, o sol, a chuva, o vento, o calor e o frio realizem com elas o que quiserem; ainda assim, cada uma cresce em sua essência e propriedade particular.

O mesmo ocorre com os filhos de Deus, eles possuem vários dons e graus de conhecimento, ainda que todos sejam de um mesmo espírito. Todos se regozijam diante das grandes maravilhas de Deus, e dão graças ao Altíssimo em Sua sabedoria. Por que então discutiriam por causa Dele, em quem vivem e tem o seu ser, e a quem pertence a própria substância

Esta é a grande insensatez que há em Babel, brigar por causa de religião, como o demônio conseguiu com que o mundo fizesse; e eles discutem veementemente opiniões da mesma matriz, ou seja, sobre a letra; enquanto que o reino de Deus não consiste de opinião alguma, mas do poder e do amor.

Como disse o Cristo a seus discípulos, deixando a eles estas palavras como sendo as últimas: “Ame uns aos outros como eu vos amei, pois assim os homens saberão que são meus discípulos”.

Ora, se não discutirmos sobre nossos diferentes frutos, dons, tipos e graus de conhecimento, mas de fato os reconhecermos uns nos outros, como filhos do espírito de Deus, o que nos condenaria? Pois, o reino de Deus não consiste do nosso conhecimento e suposição, mas no poder.

Se não soubéssemos o bastante, mas fossemos como crianças, com uma mente voltada para a irmandade, uma boa vontade um para com o outro, e vivêssemos como filhos de uma mesma mãe, como galhos de uma mesma árvore, tomando nossa seiva de uma mesma raiz, com certeza seríamos muito mais santos do que somos.

O conhecimento só serve para um fim, ou seja, saber que perdemos o poder divino, em Adão, estando agora totalmente inclinados ao pecado; para saber que temos propriedades más em nós, e que fazendo o mal não agradamos à Deus; então, com o nosso conhecimento, devemos aprender a fazer o certo. Ora, se temos o poder de Deus em nós, e desejamos, de todo coração, agir e viver corretamente, então o conhecimento passa a ser o nosso suporte, uma questão de prazer, com o qual nos regozijamos.

Pois, o verdadeiro conhecimento é a manifestação do espírito de Deus, através da eterna sabedoria. Ele sabe o que quer de Seus filhos; Ele mostrou Sua sabedoria e suas maravilhas através de seus filhos, na medida em que a terra brotava suas diferentes flores.

Se habitássemos juntos, como filhos humildes, no espírito de Cristo, cada um alegrando-se com o dom e o conhecimento do outro, quem nos julgaria ou nos condenaria? Quem julga ou condena os pássaros da floresta, que louvam ao Senhor de todos os seres com várias vozes, cada um em sua própria essência? O espírito de Deus os reprova, por não trazerem suas vozes a uma só harmonia? Suas melodias procedem todas de Seu poder, e eles não se exibem diante Dele.

Portanto, aqueles homens que lutam e estão famintos por conhecimento e vontade de Deus, e por causa disso desprezam uns aos outros, são mais tolos que os pássaros da floresta, são como bestas selvagens que não possuem a verdadeira compreensão. Eles são menos valiosos aos olhos do santo Deus, do que as flores dos campos, que se encontram numa silenciosa submissão ao espírito de Deus, fazendo-O manifestar através delas a sabedoria e o poder divino. Sim, tais homens são piores do que o cardo e os espinhos que crescem entre as belas flores, pois eles pelo menos estão quietos, enquanto que aqueles selvagens são como bestas raivosas e aves de rapina, que assustam os outros pássaros, impedindo-os de cantar e louvar à Deus."

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