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Sistema de Pontuação para as Avaliações das Ordens Rosacruzes

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Coluna com traduções dos textos do blog do Sam Robinson. Esta é uma tradução do artigo "Scoring System Reviews Rosicrucian Orders" realizada por Lucas Moraes.

Este post fornece o que eu chamo de 'Pilares da Tradição Rosacruz', que representam as marcas de nossa tradição mística, oferecendo-nos qualidades referenciais que podemos usar para DEFINIR a corrente Rosacruz.

Uma coisa importante mencionar aqui é que esses pilares não são como marcas na pedra, mas constituem conceitos que estão em curso em evolução, em constante desenvolvimento, e serão expandidos aqui à medida que mais informações forem se desenrolando neste blog.

Mas em primeiro lugar, por que tentar definir a tradição Rosacruz?

Eu acredito que diversas ordens que clamam hoje serem "Rosacruzes" estão muito longe de incorporarem a verdadeira beleza que é esta tradição. Além disso, algumas ordens parecem ter se desviado com relação a determinados elementos. Esta série de posts poderá ajudar os buscadores rosacruzes a se realinharem à nossa rica herança.

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Além disso estes Pilares servem para permitir a realização de uma adequada avaliação de cada uma das Ordens Rosacruzes. Eles devem servir como parâmetros pelos quais cada Ordem poderá ser julgada, ranqueada, comentada e classificada, demonstrando-se assim suas qualidades e benefícios próprios para seus potenciais estudantes.

É por isso que antes de ler minhas Avaliações das Ordens Rosacruzes eu recomendo aos leitores que dediquem algum tempo a esses pilares e conheçam mais sobre o método por trás das avaliações, como elas foram feitas e que tipo de parâmetros foram firmados aqui antes dos exames serem concluídos.

Note-se; Estes Pilares foram cuidadosamente selecionados como distintivos da tradição Rosacruz baseados em uma pesquisa histórica combinados com impulsos intuitivos de meu próprio trabalho místico de aprofundamento no Elo Rosacruz de Iniciação que me foi concedido. Assim, junto a esses insights intuitivos uma pesada observação dos documentos fundadores também foi considerada durante a formulação dos Pilares, a fim de provar e apoiar a sua formulação. Seis documentos foram selecionados para consideração.

  • A Reforma Universal de Todo o Mundo pela Ordem de Apollo - 1614
  • O Fama Fraternitatis - 1614
  • O Confessio Fraternitatis - 1615
  • O Casamento Alquímico de Christian Rosenkreuz - 1616
  • Speculum Sophicum Rhodostauroticum (“O Espelho da Sabedoria da Rosa-Cruz”) - 1618
  • Pegasus do Firmamento (Pansofia da Venerável Sociedade da R.C) - 1618 Joseph Stellatus

Todos esses cinco documentos estabelecem princípios muito importantes, doutrinas, elementos e formas de misticismo que podem ser observadas como compreendendo a tradição Rosacruz original, de acordo com aqueles que a conceberam e botaram esta tradição mística em movimento.

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Na elaboração destas ideologias originais começaremos também a ver o quão alinhadas as diferentes ordens estão com relação a tradição original.

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Primeiro Pilar: Cristianismo

Qualquer Ordem que se autodenomine Rosacruz precisa fazer referência ao símbolo de Cristo. Ponto final.

Algumas ordens serão vistas como citando os ensinamentos de Cristo em diferentes níveis. No mínimo exponho aqui a necessidade de se apresentar Jesus como um símbolo central de regeneração.

Falhas na representação desses símbolos e ensinamentos irão desqualificar inteiramente qualquer ordem. É por isso que eu gravo este Pilar na pedra: Sem Cristo = Sem Ordem Rosacruz. Agora, qual é o tipo de imagem de Cristo que a Ordem representa é uma questão pertinente a ela, seja ele representado como filho de deus, como mestre interior, como um Cristo solar, ou como uma divindade ressurreta universal que remonta à tradição de Osíris. Não importa COMO Cristo é concebido. O que importa é que Cristo está presente nos ensinamentos Rosacruzes.

Como vimos também no meu post sobre os elementos Herméticos da Ordem, existem também alguns símbolos conflitantes que certamente NÃO são Cristãos. Apollo e Vênus parecem estar fortemente conectados aos documentos dos manifestos Rosacruzes originais. Tais símbolos certamente não são Cristãos e, portanto, o que estamos procurando em particular ao rever as Ordens é uma forma de Cristianismo que é flexível, adaptável aos símbolos herméticos e certamente não dogmática.

Pontos adicionais serão concedidos para a expressão de uma forma sincrética de Cristianismo conforme retratado nos documentos Rosacruzes originais. E formas dogmáticas do Cristianismo que utilizam o símbolo de Cristo com a exclusão de outros símbolos realmente vão na contramão da tradição original, e perderão mérito.

Isto também vale para Ordens que empregam Gnosticismo para a seu estilo particular de Cristianismo Rosacruz. Como vimos no meu post Os Rosacruzes são Gnósticos?', foi demonstrado que o Gnosticismo segue via oposta à cosmologia Rosacruz. Apenas para recapitular esses pontos: gnósticos eram odiadores da Natureza, viam a natureza como uma prisão e desprezavam existência material, chamando-a de armadilha e diversão. Por outro lado, seguindo a linha de pensamento Hermética, os Rosacruzes viam a Natureza como 'Deus se revelando’, viam a natureza como um professor divino, de modo que para os Rosacruzes existem dois livros; o Evangelho e o Livro da Natureza.

Gnosticismo também corre em sentido inverso da ordem Rosacruz de Reintegração universal. Gnosticismo parece um pouco anti-feminino aqui, porque no universo gnóstico é a fêmea Sophia que sofreu a queda. Como um ser caído ela vagueia até que seja glorificada em seu casamento com Cristo no céu. Contrariamente a isto, nos tempos dos manifestos Rosacruzes muitos Alemães, incluindo Andreas que escreveu os manifestos, acreditavam na existência de um poder feminino redentor. Sophia iria resgatar o Adão caído, diziam, razão pela qual Vênus aparece em uma belíssima visão no manifesto do Casamento Alquímico. A ideia de uma redentora feminina na Sabedoria sob forma de Sophia era comum entre os Teósofos Alemães, e esta fêmea divina, esta deusa que nos salva e nos renasce, é oposta à Sophia dos Gnósticos, que falhou e sofreu a queda.

Portanto Ordens que afirmam serem Rosacruz ainda usando doutrinas Gnósticas perderão pontos, infelizmente, porque demonstraram serem muito negligentes por não averiguarem por trás das ideologias subjacentes. Só porque "essa tem Sophia e Cristo, e AQUELA também tem Sophia e Cristo” não significa que elas funcionem bem juntas.

Símbolo de Cristo: Possíveis dez pontos.

Cristianismo Sincrético: Mais dez pontos.

Cristianismo Gnóstico: Menos dez pontos.

 

Pilar Dois: Trinosophia - Cabala, Alquimia, Magia

O segundo fator que determina o quão verdadeira é uma Ordem para com suas origens é encontrado na presença dos atuais ensinamentos da Ordem. Uma Ordem Rosacruz deve ter Cabala, Alquimia e Magia, a fim de clamar-se 'Rosacruz’. Agora, antes de sair eliminando cada Ordem existente só porque elas não ensinam a alquimia laboratorial, permita-me fazer a colocação que, tal como em minha abordagem acima para consideração do cristianismo, cada uma destas três práticas também são bastante abertas à interpretação, bem como dependentes de pontos de vista.

Enquanto símbolos alquímicos estiverem presentes em alguma medida, e enquanto alguma forma de Cabala estiver sendo ensinada, e enquanto houver verdadeiras práticas mágicas, então É ROSACRUZ.

Como expliquei no meu post, ‘a magia da Ordem Rosacruz não é uma forma materialista da arte, mas sim uma Magia Divina, o que é visivelmente claro considerando os materiais e influências que levaram à formulação dos documentos Rosacruzes. Em particular, Khunrath descreve as mesmas três palavras em suas obras, bem como mostrando uma Rosa Cruz e um cidade de face sétupla semelhante à cidade de Andreas.

Estas três disciplinas: Cabala, Alquimia e Magia se combinam para criar o termo Trinosophia, que significa ‘As Três Artes da Sabedoria', e a falha em representá-las em qualquer grau irá resultar em penas severas nas avaliações das Ordens Rosacruzes. Embora Trinosophia seja um termo que só posteriormente foi atribuído a estas artes por Cagliostro, vou aplicá-lo aqui por uma questão de simplicidade, tal como fez Manly P. Hall. Estas três artes são explicitamente mencionadas nos manifestos e fornecem o modelo para a verdadeira prática Rosacruz.

Cada uma dessas artes também carrega um objetivo específico.

  • Cabala: Reconciliação
  • Magia: Reintegração
  • Alquimia: Regeneração

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Qualquer uma única dessas práticas exige uma vida inteira de estudos. Alcançar todas as três demanda dedicação excepcional, recursos e orientação divina. Quem ousaria clamar tal domínio?

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Deve-se notar aqui que os exercícios místicos relacionadas com "poder da mente", tal como retirados do ‘movimento do novo pensamento’ não compreendem uma verdadeira arte de magia. Eu acredito que isso é algo muito raso e simplista para justificar uma verdadeira tradição mágica. Práticas de Alquimia Mental também são algo demasiadamente insosso, na melhor das hipóteses. Muitas vezes descrito como 'Alquimia Interior', estas formas de mudança interior e auto-desenvolvimento estão muito longe da prática alquímica real tal como fora planejado pelos nossos Rosacruzes inspiradores. Dito isto, existem, entretanto, algumas formas internas de alquimia que seguem os verdadeiros processos da Arte Real que trabalham a reconciliação das forças solares e lunares internos e que pertenceram à história Rosacruz por um bom tempo. A Arcana Arcanorum, por exemplo, ensina uma alquimia interna que espelha a prática hermética.

Cabala: Dez pontos.

Alquimia: Dez pontos.

Magia: Dez pontos para Magia Divina.

 

Pilar Três: Pansophia - Utopianismo & Esquema Universal Unificado

Pansophia é uma palavra relativamente nova para muitos porque recentemente houve um retorno do termo no cenário Rosacruz através dos esforços de meus amigos e deste blog. Meu primeiro post sobre este assunto mostrou que a tradição Rosacruz está firmemente ligada à noção de Pansophia conforme descrita no manifesto Rosacruz final. Caso você não tenha acompanhado, Pansophia abraça algumas das seguintes ideias.

A primeira ideia que ela ensina é a ideia de Reforma, que é uma continuação dos outros manifestos Rosacruzes. No entanto, onde Pansophia difere é que aqui a Reforma deixa de ser apenas uma ideia, vendo que através da Pansophia a visão de reforma agora assume um formato, uma forma. O meu segundo post sobre Pansophia mostrou que os Rosacruzes tinham a intenção de reformar o mundo através da educação, na medida em que, ensinando a todos, os adultos resultantes estariam preparados para receberem as ideias mais elevadas da Divindade.

A direção desta humanidade altamente instruída, no entanto, tem uma luz guia distante. Pansophia implica também uma visão para uma sociedade utópica na qual a própria arquitetura dessas cidades divinamente inspiradas serviria para lembrar-nos das formas e princípios divinos. As cidades imaginadas seriam também veículos educacionais que ajudariam os moradores a sempre estarem aprendendo apenas ao olharem suas paredes, assim como teriam em seu coração um templo sagrado. Como a Távola Redonda do Rei Arthur, não há divisões de classes, mas ao invés disso tal cidade seguiria um padrão geométrico sagrado de sete lados, quadrada ou circular; ela é a Cidade do Sol.

É no reino da Pansophia que muitas Ordens Rosacruzes perderam suas raízes. Algumas ordens hoje descrevem uma verdadeira Reforma e regeneração cultural da humanidade. Quase nenhuma delas têm uma visão utópica para a humanidade. Portanto, não se surpreenda se as Ordens pontuarem baixo nesse fator.

O terceiro aspecto da Pansophia é o ‘esquema universal’. Eu não fiz nenhum post descrevendo o assunto em si, não apenas porque a tarefa é difícil, mas também porque leva anos para aprendê-la e compreendê-la. Vários sistemas como a cabala tem um quadro, um equema universal para tudo. Não é isso que eu estou falando aqui, mas é PARTE disso. A Pansophia não apenas tem um tal quadro, como também tem um ciclo mítico para o caminho da criação e o caminho para o retorno. Novamente, escolas de cabala parecem conter isso. Mas ainda não é disso o que eu estou falando também. Para além do quadro e do ciclo mítico há também certos marcos no ciclo mítico que categorizam alguns mitos como Pansóphicos e outros como não, portanto é neste ponto que a revisão irá eliminar algumas falhas.

Além de tudo isso a Ordem em si também deve espelhar não somente o quadro universal dos céus e da terra, mas também o ciclo mítico. O quarto aspecto é que os esquemas Pansóphicos implica também uma prática mística que espelha os esquemas da própria Ordem em si. A Ordem tem um sistema de três camadas e disto temos a Reconciliação, Reintegração e Regeneração, que por sua vez reflete um universo de três camadas. Desta forma, o caminho para a regeneração é um espelho de tudo e a Ordem em si é um veículo de ensino revelando pistas simbólicas em direção à oculta arte Rosacruz.

A este respeito também vemos a ligação entre a cidade solar de Andreas e sua fraternidade solar de Rosacruzes. Os monges do claustro são uma manifestação geradora rumo a civilização utópica.

Quanto a questão da Pansophia estou na metade de um livro onde escrevo explicando melhor a imagem geral.

Por enquanto, então, as pessoas terão o meu blog como referência para o aspecto Utópico e o aspecto de Reforma da Pansophia, e precisarão segurar firme para juntarem as peças finais e mais importantes.

Busca por uma Reforma: Dez pontos.

Visão Utópica: Dez pontos.

Esquema Universal: Dez pontos.

 

Os vinte pontos “curingas”

Até agora, os Três Pilares acima potencialmente concedem até 80 pontos de 100. Sobram então os 20.

Agora, algumas pessoas vão resmungar enquanto sua amada Ordem é confrontada com este sistema. Mas você tem que ter em mente que esse avaliação inicial é feita a partir de uma linha de base tradicionalista. Eu estou comparando estas ordens modernas contra o que antigamente fora definido como o projeto para a Ordem Rosacruz.

Todos os documentos de referência podem ser revistos e examinados. Cabe agora a nós, como membros e buscadores, sermos honestos e levantarmos o nosso jogo aonde ficamos aquém de incorporar essa bela herança.

Enquanto algumas Ordens se sairão mal nestas análises vou afirmar aqui: NÃO SE PREOCUPE! Relax.

Uma segunda série de comentários está chegando onde eu farei uma revisão de cada ordem por uma abordagem completamente diferente; sendo feito a partir da perspectiva de uma pessoa que apenas queira aprender espiritualidade. Ok 🙂

Espiritualidade e realizações é tudo o que interessa, no final das contas. Então por que não considerar essas ordens sobre esses méritos também? A final de contas algumas Ordens podem se sair muito bem no que diz respeito ao tradicionalismo, mas, ao mesmo tempo serem um veículo irrisório em termos de prestação de orientação espiritual real e de comunidade.

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Exatamente aqui, então, entrarão os últimos vinte pontos. Os últimos vinte pontos serão os pontos “curingas”.

Qualquer Ordem tem a chance de redimir-se contra a baixa pontuação em tradição.

Até 20 pontos podem ser concedidos em reconhecimento de outras qualidades. Estes pontos finais podem ser concedidos por quaisquer méritos que parecem ser uma excelente qualidade daquela Ordem em questão.

Um exemplo poderia ser: dez pontos poderiam ser dados por fornecer uma abordagem séria para a “Via Cardíaca” e outros dez para outra qualidade que está implícita nos manifestos. Em ambos os casos, os pontos “curingas” foram premiados porque a Ordem está destacando um outro aspecto da tradição.

Como você pode imaginar esses pontos finais também podem indicar o fator de performance de uma determinada Ordem na segunda série comentários que virá. Após a segunda série de comentários você terminará com um conjunto de valores para a pontuação da Ordem no aspecto tradicional e um outro conjunto de valores para a sua pontuação no aspecto de orientação espiritual.

Lado a lado, estes valores são bastante reveladores e podemos esbarrar contrastes gritantes, assim como compromissos felizes para os estudantes, dependendo de quais são seus interesses.

Apesar de tudo, estou disposto a ser bem justo com cada Ordem. Convido todos a participarem e comentarem em nosso grupo no facebook ‘Rosicrucian Tradition’ aqui. Sinta-se livre para compartilhar suas opiniões e participar nestes comentários.

Muito obrigado pela leitura, hora do meu café de avelã.

Samuel Robinson

Grande Hierofante da Mystica Aeterna

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Veja mais textos do Sam Robinson no Mystica Aeterna (em inglês).

Sugestões de melhorias na tradução, enviar através de contato@oalvorecer.com.br

20 comentários sobre “Sistema de Pontuação para as Avaliações das Ordens Rosacruzes

  1. Francisco Cabral de Medeiros

    qual a opinão do autor sobre a Astrum Argentum thelemica? faz pontos no que concerne a Cabala, Alquimia e Magia, mas no resto, nem de longe é uma Ordem R+C, embora a ordem interna quando se chega ao grau de Adeptus Interno, supostamente se chega a essa ordem e/ou ao estágio de um Rosacruz

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    1. Jeff Alves

      Ele está fazendo as publicações de cada ordem rosacruz existente e pontuando-as. Em breve ele estará fazendo um post sobre (em inglês). Vai demorar um pouco a sair a tradução porque nossa equipe está traduzindo os textos mais antigos inicialmente. Já há algumas escolas iniciáticas avaliadas, a propósito, no blog dele.

      Responder
    2. Sam Robinson

      Bem, a A.A. é interessante, ela tem a parte de magia e de cabala, mas seus ensinamentos alquímicos são pobres, apenas baseados na magia, e também ela não tem nenhuma noção de Pansofia, por isto não posso colocá-la com uma alta pontuação no sistema em que eu uso, especialmente porque não há Cristo.

      Responder
  2. Alan Ramos

    Obrigado por partilhar. Observações muito importantes.
    Muitas ordens seriam reprovadas, caso não houvesse os 20 pontos finais.
    20 pontos para Grifinória !!! rsrsrsrsrsrs

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  3. Acauã Silva

    Acho muito acertado colocar os gnósticos deste modo. No entanto, creio que sua visão de gnóstico é do gnosticismo antigo, dos séculos I à IV. Hoje podemos já fazer uma distinção destes gnósticos como os neo-gnósticos, ou neoplatonistas (mesmo período que surge os manifestos Rosacruzes), que não possuem essa visão pessimista do mundo.

    Permita transcrever um texto que escrevi para melhor lucidar a questão.

    Gnosticismo Otimista
    Hermetismo e Neoplatonismo há uma gradação na escala do ser e não uma separação total, uma monista (gnose) e outra dualista (maniqueista). Essas visões, apesar de dispares, se ajustaram e passaram a fazer parte de um conjunto de saberes, assim “com ou sem demiurgo a interpor-se entre e eles e o Pleroma, qualquer que fosse a natureza dos males e sofrimento dos quais queriam livrar-se - mundanos ou cósmicos, ilusórios ou materiais -, interessava-lhes ascender e reencontrar a Unidade”, na qual Claudio Willer chama de Neoplatonismo Renascentista (WILLER, 2007 apud: FERNANDES, 2010, p. 25). Esse sincretismo é ampliado na visão de Christian Hermann Weisse (1837), na qual diz que o gnosticismo representou uma tentativa de uma filosofia do cristianismo e que em virtude da enorme amplitude, se aproxima do misticismo, magia e teosofia. Essa união se deu com a mediação da tradição pitagórica-platônica, a cabala, a teosofia de Jacob Bohme, o rosacrucianismo e o martinismo. O Rosacrucianismo moderno advém dos plafetos de Johann Valenin Andreae (1586-1654). O primeiro manifesto, Fama Fraternitatis Rosae Crucis, aparecem alternadas confissões de fé monista (hermética) e dualista (gnóstico), "sem dar atenção à contradição" (WILLER, 2007 apud: FERNANDES, 2010, p. 47). Cornelius Agrippa von Nettsheim (1486-1535), em Da Incertitude e Vaidade das Ciências e das Artes" foi o primeiro autor a falar das conexões entre a cabala e o gnosticismo, "propondo uma influência da primeira sobre "ofitas, gnósticos e heréticos valentinianos"" (FERNANDES, 2010, p. 48). Aproxima-se, então, a várias escolas filosófico-religiosas antigas, que a micro-existência é sempre feliz, na medida em que se harmoniza, pelo conhecimento, com a realidade macrocósmica do Universo (REALE, 2003 apud DOS SANTOS). O próprio gnosticismo cristão é a união de várias facetas de sistemas esotéricos, religiões orientais, judaísmo e cristianismo. "Por Gnose aqui se deve entender o Conhecimento tradicional que constitui o fundo comum de todas as iniciações, cujas doutrinas e símbolos foram transmitidos, desde a mais remota antiguidade até nossos dias, através de todas as Confraternidades secretas, cuja longa corrente jamais foi interrompida" (GUÉNON, in Études sur la Franc Maçonnerie et le Compagnonage, 1993 apud: FEDELI, 2014).

    O Hermetismo "strito sensu", no dizer de Doresse, é um gnosticismo otimista (2002, apud: FERNANDES, 2010, p. 104). Entre semelhanças e diferenças, como conclusões otimistas e negativa total em considerar como mau ao Demiurgo e o mundo terreno. O autor recorre a Frances Yates em Giordano Bruno e a Tradição Hermética, na qual classificou o Corpus Hermeticum como pertencentes a dois tipos de gnose, uma pessimista (Hermetismo gnosticizado) e outra otimista (Hermetismo strictu sensu). A gnose pessimista ou dualista, o mundo material é mau por si mesmo, e é preciso escapar dele. A gnose otimista, a matéria é impregnada daquilo que é divino, o sol brilha com poder divino e não há parte da natureza que não seja boa. Willer diz que as duas, embora apartadas, se confundem ou interpenetram. Nisso a biblioteca de Nag Hammadi dispõe de escritos que se aproximam da gnose otimista, pois não são dualistas e não se fala de demiurgo ou arcontes.

    A dualidade é uma separação de forças na unidade, embora a posição de Valentino representa uma posição relativamente não-dualista. "Para ele, a criação do mundo resulta não do eterno confronto entre duas potências arquetípicas, como se dá para um pensador maniqueista, mas de uma queda que ocorre dentro da moldura de um sistema previamente perfeito. A natureza dessa queda é um mistério que todo sistema monista tem de encarar" (DILLON, 1996 apud FERNANDES, 2010, p. 207).

    GUÉNON, Réne. O Demiurgo, 1909. Disponível em: . Acesso em: 14/01/2014.

    FERNANDES, Edrisi de Araújo. Antecedentes históricos-filosóficos da problemática do tempo e do mal no Freiheitsschrift de Schelling, Natal, RN, 2010.

    NEVES, Joaquim Carreira das. Gnosis - Gnosticismo. Uma Introdução, Portugal, 2011.

    SANTOS, David G. Plotino e Irineu de Lyon contra os gnósticos: uma proposta paralela? Diferenças e paralelismos do contra-gnosticismo de Ireneu e de Plontino, Portugal, 2010.

    DOS SANTOS, Pedro Paulo. Cristianismo e Gnosticismo: A Recepção de Elementos do Helenismo Religioso, UNESA.

    Responder
    1. Jeff Alves

      Ótimo comentário, Acauã. O autor tem até outro texto no qual diferencia o Gnosticismo da Gnose, mais ou menos na mesma linha de pensamento que você enfatizou e demonstrando a aplicação disto no Rosacrucianismo tradicional. Iremos abrir uma coluna com posts feitos pelos leitores e gostaria de saber se poderia estreá-la utilizando este seu texto. No mais, obrigado pelo comentário.

      Responder
      1. Acauã Silva

        Olá, pode utilizar, mas por favor também coloque a bibliografia. Outra autora importante é a Francis Yates, em seu livro Iluminismo Rosa-cruz ela aborda bem o movimento político-religioso em torno do Rosacrucianismo e os protestantes (e seus governantes), contra o Jesuítas e os Católicos (principalmente os Habsburgos). E fala também dos outros manuscritos utópicos da época, como Nova Atlantis de Francis Bacon, A Cidade do Sol de Campanella. Ou seja, o rosacrucianismo também foi um movimento histórico-político de uma época, na qual, hoje os seus herdeiros buscam uma espiritualidade inerente ao contexto europeu.

        Responder
        1. Jeff Alves

          É uma pena que o que as pessoas geralmente conhecem como Rosacrucianismo é apenas a modelagem moderna deste movimento. Poucos buscam as origens deste movimento, tanto de uma base tradicional/iniciática quanto de uma abordagem histórica. E, no que diz respeito a isto, Yates realmente é muito bom.

          Responder
  4. Frater Soltys

    Para falar a verdade todas as ordens que conheci até agora ganham ou perdem pontos específicos, mesmo daquelas que falei no artigo sobre o tema. Em verdade as ordens se atualizaram ao nosso tempo e acrescentaram a gnose, bem como progressos da filosofia moderna etc. Sobre a paranormalidade, ela se refere ao nosso tempo e não pode ser deixada de lado. Quanto a cabala, acho que só a Aurora Dourada a estuda de forma mais intensa. Outras ordens tem Igreja ou grupo gnóstico, e vemos que possuímos uma tradição, mesmo com versões mais atuais da Ordem, em suas manifestações externas. Já a RC é eterna, essa englobando esses saberes e todos os pontos.

    Responder
    1. Jeff Alves

      A questão é que as ordens visíveis vão mais para um Rosacrucianismo moderno que para um Rosacrucianismo tradicional. Fica a pergunta vaga: e nas ordens invisíveis, será que o rosacrucianismo continua tradicional?

      Responder
      1. Frater Soltys

        Para mim as ordens invisíveis acabam em um ponto comum: A Grande Fraternidade Branca. Tomando nisso nomes diferentes, pouco importa. Mas tudo parece evoluir, e o tradicional apenas acontece em alguns pontos, estes citados nesse artigo, e outros talvez não citados. Mas s Rosacruz eterna e invisível completa todos os pontos sugeridos. E a ordem sempre foi diversificada em religiões, não apenas cristã. abraço

        Responder
        1. Jeff Alves

          É uma discussão de conceitos. Se pegarmos do ponto de vista acadêmico, o melhor conceito de Rosacrucianismo é aquele atribuído por Yates. Fica complicado utilizando tais conceitos, por exemplo, dissociar este movimento do protestantismo, de um ponto de vista histórico, ou da figura de um Cristo, sendo ele o filho de Deus ou mesmo Apolo, de um ponto de vista filosófico. A questão aqui abordada não é que uma Ordem Rosacruz moderna tenha que possuir tais pontos e sim se elas seguem a estrutura do Rosacrucianismo tradicional. Ser moderna ou tradicional não modifica em nada o contexto evolutivo dela. São abordagens diferentes que podem levar ao mesmo fim.

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          1. Frater Soltys

            Devemos contudo pensar que a Rosacruz por definição não é dogmática. E nem era a seu tempo de fundação. Estudando gnose, magia, alquimia, cabala e outros saberes, não se poderia ser um carola ou fundamentalista cristão. Claro que a figura de Cristo presente em algumas ordens é a do Cristo Cósmico, que pode se diferenciar de um conceito religioso. Ademais, a Ordem foi condenada e perseguida, e seus membros acusados de pacto dom o Demônio, superpoderes e outras confusões. Pra mim quem bem definiu a RC foi Frater Vicente Velado, apesar de alguns o condenarem também. Farei artigo sobre temas correlacionados. Não acho que pontuações mostrem a realidade, assim como não acredito em estatísticas, estando muitas movidas por motivos políticos. P. P

  5. Acauã Silva

    Vou fazer uma pontuação se a Fraternitas Rosicruciana Antiqua. Sendo somente a visão de um membro, não corresponde a posição oficial da FRA.

    1º Pilar: Cristianismo.
    "A Fraternitas Rosicruciama Antiqua (FRA) é uma instituição espiritualista, mística, eclética e cristã" (http://www.fra.org.br/quem_somos.php)

    Cristianismo Gnóstico: Menos dez pontos. Por causa da Igreja Gnóstica do Brasil, na qual a FRA é mantenedora. Podendo ser classificada como Neognostica, por causa do livro Pistis Sophia. Também como Barbelo-gnósticos.

    Cristianismo Sincrético: Mais dez pontos. Por que o cristianismo pregado por Arnold Krumm-Heller se mescla com o Cristianismo esotérico e monista da Teosofia, muito similar com o cristianismo de Rudolf Steiner.

    2º Pilar: Trinosophia

    Cabala: Dez pontos. O Dr. Krumm-Heller possui um curso chamado de Curso Esotérico de Cabala ou Cabala Ariosófica (Ario-Egípcia). "Para aqueles que estão acostumados com a Cabala Hebraica, este curso surpreenderá, pelo foco dado à reinterpretação dos Arcanos Maiores, referendadas ao Futhark Rúnico, com toda sua riqueza de simbolismo e magia. A prática deste curso está toda voltada para o pleno desenvolvimento da intuição. Krumm-Heller nos diz: “Um curso superior (...) na qual, encerra todas as chaves e arcanos da Cabala Prática. Como a chave da Cabala e do Tarot, é o objeto desse curso ensinar a ler cada um das suas lâminas, que constituem as páginas do livro mais antigo do mundo, onde guardam os mistérios da vida”.

    Alquimia interna não vale, então não tem Alquimia.

    Magia: Dez pontos para Magia nos Rituais internos.

    3º Pilar: Pansophia

    Por esses critérios do Rosacrucianismo antigo a FRA não ganha ponto em uma Busca por uma Reforma, uma Visão utópica ou Esquema Universal. Como se liga muito à Thelema, a cosmovisão da FRA se relaciona muito com a visão de mundo da Thelema como filosofia.

    Coringa: acho que o ponto fora da curva seria a filosofia da Thelema e o fato que agregou diversos autores posteriormente, no Brasil, por exemplo, Jorge Adoum (Mago Jefa) teve seus ensinamentos agregados ao currículo da FRA.

    Responder
  6. Edimar Pereria

    Análises perfeitas. Existiram, e existem, várias rosacruzes com as mais variadas finalidades. Alquimia, Cabala, Hermetismo, pseudo cristianismo, influências árabes, vale tudo! Especificamente no caso da AMORC a coisa é diferente. Nesta ordem encontramos uma fortíssima influência teosófica, desde os mesmos mestres até a mesma sequência de assuntos, passando por experimentos idênticos, que demonstram a influência de Helena Blavtsky sobre H. Spencer Lewis. Naturalmente devemos ver a origem dessa influência na presença dos primeiros associados de Lewis, muitos teosofistas avessos ao rumo que Annie Besant havia dado a Sociedade.

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