Plantas Sagradas

12666544_1092935504092276_1619374639_n

Se pesquisarmos detidamente a história da espiritualidade humana, veremos que em todos os continentes do Planeta, em determinado momento da história de cada um dos povos que aqui habitam, houve um período no qual as vivências espirituais, místicas, mágicas e medicinais, estiveram de certa forma entrelaçadas à Natureza.

O contato com a Mãe Natureza em seus mais diversos elementos era - e em muitos casos contemporâneos ainda é - a via mais importante para a integração do indivíduo e do coletivo com o Todo.

Genericamente podemos dizer que durante a segunda etapa da Pré-história - fase conhecida como Neolítico, também chamada Idade da Pedra Polida e Nova Idade da Pedra - à medida que abandonava o nomadismo e desenvolvia a agricultura através de contatos cada vez mais íntimos com sementes, raízes, folhas e frutos de plantas diversas, proto-sacerdotisas conheciam com crescente profundidade os mistérios dos vegetais com os quais lidavam.

Eis o momento singular a partir do qual nasceram todas as tradições atualmente chamadas "xamânicas". Uma das características mais fortes do xamanismo universal é a conexão do homem, da mulher, com o Universo material-espiritual, através do auxílio de uma ou mais de uma "planta de poder".

007. Jurema Juazeiro2Pinturas rupestres presentes em rochas e cavernas do Nordeste brasileiro indicam que em diversos sítios, os ancestrais de nossos índios reverenciavam ou cultuavam determinadas plantas - que os arqueólogos acreditam terem sido a Jurema e o Juazeiro, uma vez que o culto a essas plantas permanece forte em nossos dias.

Entre os séculos XVI e XVIII, os primeiros etnógrafos europeus que visitaram o Nordeste tomaram nota de cerimônias realizadas por nativos das nações Potiguara, Tarairiú e Chuminy (os antigos Kariri) - rituais nos quais evocavam espíritos, afirmavam visitar mundos incríveis, celebravam matrimônios, se preparavam para as guerras, curavam doentes, recebiam notícias de pessoas distantes e fertilizavam o solo - em que era comum o uso de fumaça de Tabaco (Petum, Petym, Petema, Betim - em Tupi Antigo; Badzé - em Kariri) e a ingestão de um chá produzido à base de Jurema (Y'urema ou Iurema - em Tupi Antigo) e de sementes da aparentemente desconhecida Corpamba.

Entretanto, o olhar do europeu colonizador, assim como suas interpretações da espiritualidade ameríndia, sempre foi bastante limitado. Interessado em dominar e explorar a terra e sua população, considerando-se superior às tribos autóctones - além de tudo observar tendo como padrão a cultura européia - nada mais que ritos bárbaros foram enxergados. Escreveram aquilo que interessava ser combatido pelo processo de catequese e evangelização, classificando as divindades nativas e os espíritos da floresta como seres diabólicos.

Portugueses e franceses, por exemplo, foram incapazes, naquele momento, de perceber que para os chamados "índios" toda a Natureza é Sagrada; e que cada planta, por menor que pareça ser, possui uma Ciência que os pajés manipulavam com sabedoria.

Hoje, no Catimbó-Jurema, conforme o legado cultural dos antigos pajés e mestres juremeiros, há reverência a diversos vegetais (dentre os quais muito se cita, além da Jurema, que é o principal e que por isso consideramos Rainha; o Angico, o Jucá, o Manacá e o Catucá). Acreditamos que nos seres do mundo vegetal habitam entidades espirituais com as quais interagimos, evocamos e invocamos, sempre que há necessidade de cura ou orientação para determinados fins.

Publicado em Categorias Religiões, Voz dos AncestraisTags , ,

Sobre Rômulo Angélico

Professor de História na rede estadual de ensino; autor de cinco livros sobre sobre Catimbó-Jurema (quatro dos quais foram publicados com recursos próprios e de modo semi-artesanal); Sacerdote Juremeiro responsável pelo Centro Cultural e Espiritualista Casa Sol Nascente do Rei Malunguinho (localizado entre Parnamirim e Macaíba); Mestre Menor da Ordem de Jurupari (sociedade iniciática que tem como um de seus principais objetivos resgatar e preservar as Tradições ancestrais ameríndias).

Deixe uma resposta