O Manuscrito Halliwell ou Poema Regius

regius1Compilação de textos sobre o tema contendo o Poema Regius de forma integral e mais dois artigos incluídos integralmente os quais foram publicados originalmente no Fraternidade Farroupilha e no Conselho de Veneráveis do Triângulo.

O Poema Régio (Regius Poem), também conhecido como Manuscrito Halliwell, é o mais antigo documento maçônico de que se tem conhecimento, embora esta posição seja contestada por alguns autores em favor da Carta de Bolonha.

O texto original foi gravado em inglês arcaico, com letras góticas, sobre pele de carneiro. É composto por 64 páginas, contendo 794 versos. A data de sua produção, segundo especialistas, estima-se como sendo situada na década de 1390, apesar de que, supõe-se que tenha sido copiado de um documento mais antigo. O autor é desconhecido e o local de origem, segundo o historiador maçônico Wilhem Begemann, é a cidade inglesa de Worcester (fundada em 407 DC).

Desde a sua redação até ser descoberto como documento maçônico, o trajeto percorrido pelo manuscrito é um tanto incerto.

Aparentemente, ele foi propriedade de vários antiquários e colecionadores, tendo sido adquirido pelo Rei Carlos II, passando a pertencer à biblioteca real (Royal Library), a qual, em 1757, foi doada pelo Rei George II ao Museu Britânico. Atualmente, o documento original está guardado na Biblioteca Britânica (British Library) e faz parte da Coleção Real de Manuscritos (Royal Manuscript Collection). Para aqueles que gostariam de lê-lo em inglês é possível adquirir uma cópia por download no site da livraria virtual Amazon.com.

Do que trata o documento?

Durante muito tempo, o Poema Régio foi descrito como um poema sobre obrigações morais, até que, em 1840, um antiquário inglês de nome James Orchard Halliwell-Phillips (que não era maçom) o estudou e descobriu sua essência: um documento relativo à maçonaria operativa.

O documento é composto de várias partes que contêm lendas, episódios bíblicos, descrições de artes e normas. A sua leitura faz-nos concluir que o seu objectivo principal é transmitir as normas, regulamentos ou estatutos do ofício de franco-maçom e da corporação. O texto cita o Rei Athelstan (924-939) como o estimulador da criação dessas normas, referindo que ele convocou um encontro de maçons para que fossem estudadas e definidas as leis, regras e preços do ofício. Nele, a Maçonaria é mencionada como Geometria.

Uma interpretação adjacente sobre o texto, feita por alguns estudiosos, vê nele como tema recorrente ou motivo central a apresentação do Oficio de Construtor como uma atividade nobre, ligada à realeza e à aristocracia. Por isso, seria atribuído à Maçonaria o título de Arte Real.

Nome

No original, o documento não tem um nome específico, pelo que acabou tendo mais de um: Manuscrito de Halliwell, como referência ao seu descobridor e/ou intérprete, James Orchard Halliwell-Phillips; e Poema Régio ou Manuscrito Régio, pelo facto de ter pertencido à coleção de livros e manuscritos da Biblioteca Real Inglesa.

Partes

É composto de 9 partes:

I. História lendária do Ofício de Construtor, cujas origens estariam na Geometria de Euclides ( 3 ); trazido à Inglaterra sob o rei Athelstan (925-940), Este teria convocado uma Assembléia de Mestres do Ofício, senhores e notáveis, com o objetivo de elaborar os estatutos da Corporação;

II. Os estatutos, divididos em quinze artigos;

III. Quinze pontos complementares aos estatutos;

IV. Outras disposições referentes ao Ofício. Decisão de se reunirem a intervalos regulares. Em Grandes Assembleias dos pedreiros da construção; veja nota ( 1 )

V. Lenda do martírio dos Quatuor Coronati, santos patronos do ofício; ( 4 )

VI. Narrativa do episódio bíblico da Torre de Babel, segundo Gênesis 11,1-9 e Flávio Josefo ( 5 )- Antiguidades Judaicas 1,4.

VII. Exposição sobre as Sete Artes Liberais ( 6 ), definidas e instituídas por Euclides para proporcionar aos futuros construtores uma instrução completa;

VIII. Exortação à assiduidade à missa e à estrita observância do culto religioso católico;

IX. Um tratado de boas maneiras a serem observadas em sociedade.

Algumas considerações sobre o Manuscrito

regiusO que mais caracteriza o Manuscrito um leitmotiv que perpassa por todo o poema é a apresentação do Ofício de Construtor como uma atividade nobre, ligada à realeza e à aristocracia. Por isso se atribui à Maçonaria o titulo de Arte Real.

Segundo o pesquisador maçônico francês contemporâneo Patrick Négrier, vários temas apresentados no "Regius" com essa intenção se inspiram, entre outras fontes, na História dos Reis da Bretanha de Geoffroy de Mommouth que faleceu em 1155, cujo propósito era justificar, através de antecedentes nobiliárquicos inatacáveis. Todos conhecidos, pela legitimidade histórica e política dos Bretões.

Essa preocupação com o enobrecimento da Arquitetura já se acha presente nos primeiros versos do poema, como veremos a seguir:

"Hic incipiunt constituciones artis Gemetriae secundum Eucyldem" ("Aqui principiam as Constituições da Arte da Geometria, segundo Euclides")

Aquele que deseja boa leitura e que busca conhecimento pode encontrar num velho livro escrito Sobre grandes senhores e gentis damas Que tinham muitos filhos mui sábios.

Mas não dispunham de renda para mantê-los. Nem na cidade, nem nos campos ou nos bosques. Reuniram-se em conselho, por causa deles, Para decidir, em benefício de seus filhos, Como eles poderiam melhor ganhar a vida sem grande desconforto, cuidado ou angústia, Sem contar a multidão de filhos Que viriam depois deles virarem cinzas.

Mandaram procurar grandes clérigos Que para isso lhes ensinassem bons ofícios: "Nós lhes rogamos, por amor a Nosso Senhor, Que nossos filhos façam bons trabalhos.

De forma a bem poderem ganhar a vida Com facilidade, e também com toda a honestidade e segurança".

Nessa época, graças à boa geometria, Este honesto ofício da boa maçonaria Foi organizada, elaborada em seu método E concebido pelos clérigos reunidos.

Em virtude das súplicas dos conceberam a geometria, Dando-lhe o nome de maçonaria, Para fazer o mais honesto dos ofícios.

Esses filhos dos senhores foram ao clérigo Para aprender o ofício da geometria No qual ele se mostrou pleno de cuidado.

Por causa da súplica dos pais, bem como das mães, Ele os introduziu nesse ofício honesto. Aquele que melhor aprendia e se mostrava honesto Também suplantava os companheiros em habilidade.

Caso nesse ofício ele se superasse, Teria mais direito à honra do que o derradeiro.

O nome desse grande clérigo era Euclides.

Seu nome se difundiu amplamente. Além disso, esse grande clérigo ordenou ainda Que aquele que estivesse num grau mais elevado Deveria instruir o que menos soubesse Para o aperfeiçoar nesse honesto ofício; Assim devem eles se instruir mutuamente E se amarem juntos como irmã e irmão.

Além disso, ordenou ele ainda Que o mais adiantado fosse chamado mestre; Para que ele fosse o mais honrado, Deveria ele assim ser chamado. Todavia, um maçom jamais deveria querer chamar um outro No ofício, diante de todos os demais, De servo ou servidor, mas sim de "meu caro irmão".

Mesmo não sendo ele tão perfeito como um outro, Cada um por amor deveria chamar o outro de companheiro, Já que são nascidos de nobre estirpe.

O ofício da maçonaria iniciou-se primeiro Quando o clérigo Euclides, em sua sabedoria, instituiu Esse ofício da geometria na terra do Egito.

No Egito com vigor ministrou seus ensinamentos Difundidos em várias terras, por toda parte.

Já nesses versos iniciais do "Regius" afloram numerosos problemas a desafiar a argúcia do historiador. Só podemos abordar, de maneira bastante superficial, três das questões mais importantes:

a- o background sócio-econômico do texto; b- Euclides como pai da Maçonaria; c- as origens egípcias da Arte Real. Do qual não trataremos aqui

a) Os elementos que constituem a base sócio-econômico da situação podem ser delineados pelos versos iniciais do poema. Descrevem uma situação de crise econômico-social em que a Arquitetura teria se desenvolvido para proporcionar meios de subsistência a um excedente populacional.

Para Patrick Négrier trata-se de um reflexo da crise européia do fim do séc. XIV e início do séc. XV ligada à Guerra dos Cem Anos e à Peste Negra, a qual teria provocado o fechamento dos grandes canteiros de obras de catedrais e o desemprego de muitos trabalhadores do setor.

Nós pelo contrário, veríamos nesses versos um reflexo da situação sócio-econômico dos séculos XI e XII em que o progresso das técnicas agrícolas e a exploração de novas terras acarretaram o crescimento demográfico e uma corrida às cidades dos excedentes da população rural em busca de colocação nos canteiros de obras.

Esse quadro social que vê nascer a Maçonaria Operativa responsável pela construção das grandes catedrais está admiravelmente descrito nas linhas abaixo extraídas do admirável trabalho do historiador e arquiteto Roland Bechmann Les Racines des Cathédrales:

A explosão demográfica, conseqüência de uma melhoria indiscutível da condição rural, ligada ao mesmo tempo a uma cessação das invasões e dos conflitos mais danosos aos camponeses, a um período climático favorável e a um progresso das práticas rurais, colocava problemas.

O desbravamento das novas terras, que de resto se defrontou rapidamente com fatores limitadores - terras muito difíceis de se trabalhar e insuficientemente férteis e medidas de defesa do capital florestal - não era mais suficiente. O excesso das populações dos campos deveria, portanto encontrar outras saídas.

Para fazer frente à superpopulação, ao desemprego e à miséria que são os seus corolários, as soluções ou as diversões a que em diferentes épocas da história se buscou recurso foram freqüentemente a guerra de conquista, o trabalho forçado ou as frentes de trabalho: podemos citar de forma notadamente desordenada: os templos e os grandes trabalhos dos Romanos e dos Incas, as grandes invasões, as guerras napoleônicas, as oficinas nacionais de 1848, os canteiros de obras e as guerras coloniais do século XIX, os trabalhos de saneamento dos Pântanos Pontinos e as guerras coloniais sob o regime fascista, as auto-estradas alemãs e a guerra de expansão pelo Labensraum dos nazistas...

E nessas cidades que às vezes dobravam sua população em menos de cem anos, a construção de habitações, o artesanato e o comércio eram ativos.

Mas possivelmente isso não teria sido suficiente para todos esses trabalhadores em busca de empregos se não tivessem sido abertos esses grandes canteiros públicos que foram as catedrais...

O desenvolvimento das cidades e o impulso das trocas intimamente ligado ao mesmo criaram para os trabalhadores das construções novos mercados.. Esses trabalhadores, nas grandes cidades, organizavam-se pouco a pouco em agrupamento de defesa de seus interesses, privilégios e procedimentos as corporações - e em associações de solidariedade trabalhadora mais ou menos secreta, dando origem aos francos-maçons e às associações de companheiros.

b) Euclides coo pai da Maçonaria Euclides, o pai da Geometria, é aqui apresentado, travestido de clérigo cristão, como o pai da Maçonaria Operativa.

Na medida em que a Geometria era considerada uma das Sete Artes Liberais, disciplinas vistas como dignas de serem estudadas por nobres, ao passo que o ofício do construtor era estigmatizado como um viril trabalho próprio das classes tidas por inferiores, trata-se de um artifício literário destinado a enobrecer a profissão de arquiteto.

O fato de Euclides ter vivido em Alexandria, por sua vez, nos remete ao tema das origens egípcias da Arquitetura

Dos textos, a seguir inferem-se princípios e tradições presentes na Maçonaria Moderna, alguns como Landmarks. Por sua importância para nós Filosóficos, tão ávidos de conhecimentos do período Operativo, vejamos os Versos 57 a 86 do Poema, que se referem aos estatutos formados por 15 artigos e mais os 15 pontos complementares a esses estatutos, pertinentes à boa geometria.

1° Seja o Mestre prestimoso, leal e verdadeiro. Mantenha-se com a retidão de um juiz. Pague aos seus obreiros o justo e conforme as exigências da manutenção. Não ocupe nenhum obreiro senão no que ele possa fazer e ser útil. Jamais o utilize em seu benefício próprio. Não aceite suborno de ninguém e ainda menos de patrão ou de companheiro.

2° Todo Mestre deve comparecer a Assembléia Geral, desde que avisado com razoável antecedência, salvo por motivo escusável, por doença impeditiva ou por falsa, ou errada informação.

3° O Mestre não deve admitir aprendiz não disposto a preparar-se durante sete anos, a fim de bem aprender o ofício e tornar-se hábil.

4° O Mestre não deve admitir aprendiz sujeito à servidão, para que o seu senhor não venha a reclamá-lo quando quiser. Deve o Mestre procurar aprendiz de boa, livre e honrada estirpe, ou pertencente à nobreza.

5° Que seja o aprendiz de legítima filiação. Seja ele válido e hígido, por não convir ao ofício um aleijado, um coxo, um mutilado ou um homem fisicamente imperfeito, diante de uma profissão destinada a criaturas forte.

6° O Mestre não deve causar qualquer prejuízo ao senhor (proprietário da obra), do qual nada poderá tirar para o aprendiz, nem mesmo o que receber em nome dos companheiros, visto que esses são de maior habilidade. Nem seria razoável que aprendiz recebesse pagamento igual ao dos companheiros. Todavia pode o Mestre comunicar ao aprendiz um aumento de salário conforme a melhoria de trabalho, até alcançar uma boa diária.

7° O Mestre é proibido de auxiliar, por favor ou por medo, a ladrões, assassinos e pessoas de má reputação.

8° Pode o Mestre substituir o obreiro menos habilitado por outro mais competente.

9° Nunca se encarregue o Mestre de qualquer obra que não possa terminá-la e completá-la a tempo, com solidez e fortaleza desde os alicerces, de modo a satisfazer ao proprietário e à Fraternidade.

10° A nenhum Mestre é dado suplantar o outro, sob pena não inferior a dez libras, salvo se o primeiro encarregado for culpado.

11° O Mestre não deve trabalhar à noite, salvo para desenvolver o seu talento.

12° É vedado ao Mestre desmerecer de seu Irmão.

13° Ensine o Mestre o seu aprendiz, bem e completamente.

14° O Mestre não deve admitir aprendiz, a não ser quando se empenhe em obras diversas, sobre as quais deverá instituir o aprendiz.

15° Nunca se permita ao aprendiz proferir ou sustentar mentiras, ou apoiá-las. A ninguém é dado consentimento de mentir ou jurar falsamente.

Os 15 pontos complementares a esses estatutos (traduzido do francês por tsmaia)

1º ponto - Todo o Mestre deve amar a Deus sobre tudo. A sua Igreja e aos seus companheiros de trabalho.

2º ponto - Os pedreiros devem ser pagos em dia.

3° ponto - Os Aprendizes devem manter sigilo de tudo que assimilar dos seus Mestres de tudo o que ouve e vê, em Loja.

4º ponto - O Aprendiz não deve causar nenhum transtorno para o serviço que executa ou para a profissão, nem para o seu mestre, ou para seu companheiro sujeitos as mesmas leis

5º ponto - O pedreiro deve receber o salário de seu mestre que deve dispensa-lo antes do meio dia se não houver atribuição para eles

6º ponto - As desavenças entre os pedreiros devem ser ajustadas de modo amigável, após a jornada de trabalho ou em hora de folga.

7º ponto - Um pedreiro não deve se deitar com a mulher de um mestre, nem com a de um companheiro

8º ponto - Um Mestre pode nomear um companheiro a posto de responsabilidade intermediária, entre a sua e a dos demais membros.

9º ponto - Os companheiros devem se servir à mesa, obter provisões e prestar contas de suas despesas.

10º ponto - Os companheiros não devem dar apoio aos que persistem nas faltas sob pena de se convocados à assembléia e dispensados.

11º ponto - Um pedreiro deve corrigir com amabilidade trabalhos defeituosos.

12º ponto - Em Assembléia, os Mestres, os companheiro, os comanditários e dignitários deverão estar de acordo para fazer respeitar as leis do trabalho.

13º ponto - O pedreiro não deve roubar ou ser cúmplice de um ladrão.

14º ponto - Um pedreiro deve jurar fidelidade ao seu Mestre, aos demais companheiros e ao seu Rei

15º ponto - Os transgressores desses Estatutos serão convocados diante de uma Assembléia. Se persistirem, na falta, serão impedidos de exercer a profissão, postos em prisão e verão seus bens confiscados.

Um ponto polêmico no Manuscrito

O Manuscrito é utilizado como argumento de alguns historiadores maçônicos para afirmar que em sua data não se cogitava a não aceitação da mulher na Maçonaria Operativa, dando, ao contrário, notícias de que ela era normalmente aceita, ou pelo menos colaborava com a Maçonaria, pois seu Artigo 10, nos versos 203 e 204, diz que nenhum Mestre suplante outro, senão que procedam entre si como irmão e irmã. O Poema (ou Manuscrito) prescreve apenas a não aceitação de escravos (servos) e inválidos.

Abaixo segue o Manuscrito completo:

O Manuscrito Halliwell ou Poema Regius II

Aqui começam os Estatutos da Arte da Geometria segundo Euclides

Aquele que quiser ler e pesquisar
Pode encontrar, contada em um livro antigo,
A história de grandes senhores e belas damas
Que tinham um grande número de filhos muito sensatos,
Mas nenhum dinheiro para criá-los,
Na cidade, nos campos e na floresta,
Fizeram uma assembleia.
Por amor a seus filhos para decidir
Como ganhariam a vida
Sem preocupação nem angústia com o futuro
De seus numerosos descendentes
Que iriam nascer quando eles mesmos fossem apenas cinzas.
Eles iriam buscar os grandes sábios
Para que lhes fossem ensinados bons ofícios.

Nós rezamos, por amor a nosso Senhor,
Para que nossos filhos façam belos e bons trabalhos
Para ganharem a vida,
Sem dificuldade, mas sim com honestidade e sem medo do dia de amanhã.
Naquele tempo, por meio da geometria,
Esse honesto ofício que é a maçonaria
Foi concebido
E organizado por uma nobre assembleia de sábios.
Esses sábios, conforme o desejo dos senhores, inventaram a geometria
E a denominaram maçonaria
Para que ela se tornasse o mais belo dos ofícios.
Os filhos dos senhores foram para junto do sábio
Para que ele lhes ensinasse o ofício da geometria.
Tarefa que desempenhou muito bem.

Respondendo às súplicas dos pais e mães,
Ele os iniciou no ofício.
Quem aprendia melhor o ofício que os outros
E se mostrava honesto
Tinha mais direito à consideração.
Euclides era o nome do grande sábio.
Célebre ele se tornou.
Ele fez com que aquele que soubesse muito
Instruísse aquele que sabia menos
Para que todos fossem perfeitos no ofício.
Sim, eles deviam instruir uns aos outros
E amar-se como se amam Irmãos e irmãs.

Ele disse que aquele que fosse mais bem formado
Seria chamado Mestre.
Para que fosse reverenciado
É assim que devia ser chamado.
Um maçom nunca deveria chamar
Alguém do ofício
A não ser de Irmão,
Mesmo que ele não seja muito hábil.
Entre os maçons deve reinar o amor,
Pois todos são de nobre linhagem.
O ofício da maçonaria teve seu início
Quando o sábio Euclides em sua grande sabedoria
Fundou o ofício nas terras do Egito.

Foi em terras do Egito que ele transmitiu
Seu ensinamento.
Isso durou um longo tempo
Até que o ofício viesse para nosso país.
O ofício chegou na Inglaterra
Quando reinava o rei Athelstan.
Ele mandou construir castelos e edificações,
Altos templos extraordinários
Para deleitar-se, de dia ou à noite,
E para reverenciar Deus com toda a sua alma.
O bom senhor amava o ofício
E empenhava-se em fortalecê-lo,
Pois ele havia observado uma certa fraqueza.
Ele ordenou, portanto, que se buscasse no país

Os maçons de ofício
Que foram até ele
Para corrigir essas imperfeições de seus conselhos.
Reuniram-se homens de diferentes classes,
Duques, condes, barões,
Cavaleiros, escudeiros e muitos outros,
Do mesmo modo, os burgueses da cidade.
Todos estavam lá, conforme sua classe,
Para definir os estatutos dos maçons.
Eles uniram seus espíritos
E desempenharam bem sua tarefa.
Anunciaram quinze artigos
E determinaram quinze pontos.

ARTIGO PRIMEIRO

O primeiro artigo da geometria:
Podemos confiar em um Mestre maçom
Pois ele é firme, sincero e verdadeiro.
Ele não será contestado
Se pagar os Companheiros após a refeição
Conforme o valor habitual.
Ele deverá remunerá-los equitativamente segundo a boa-fé
E os méritos deles
Sem nunca levar vantagem.
Eles gastarão o que ganharem
E não economizarão por avareza ou por medo da falta.
Eles não terão mais
De um senhor ou de um companheiro.
Deles não tome nada
Seja como um juiz, aja dentro da justiça,
Assim você dará a cada um de acordo com seu mérito.
Faça isso da melhor forma que puder
Para sua honra e seu proveito.

ARTIGO SEGUNDO

O segundo artigo da boa maçonaria
é característico.
Todo MESTRE maçom
Deve comparecer às assembleias gerais.
Ele deve portanto dizer
Onde a assembleia será realizada.
A essa reunião ele assistirá
Excepto em caso de justificativa válida,
Sob pena de ser reputado rebelde ao ofício
E sem honra.
Se uma doença vier a se apoderar dele
E ele não puder vir
Isso será uma justificativa válida
Que a assembleia aceitará como tal, se ela for verdadeira.

ARTIGO TERCEIRO

O artigo terceiro, em verdade,
É que o MESTRE não aceitará nenhum Aprendiz
Que ele não tenha certeza de empregar durante ao menos
Sete anos.
Duração que não pode ser inferior.
Ela não poderá ser de nenhum proveito para o senhor
Nem para ele próprio.
Isso se compreende facilmente
Por menos que se raciocine a respeito.

ARTIGO QUARTO

O quarto artigo é
Que o MESTRE não poderá
Tomar um servo como Aprendiz
Ou empregá-lo como engodo do lucro,
Pois seu senhor poderá buscar o Aprendiz
Onde quer que vá.
Se ele fosse recrutado na LOJA,
Poderia haver desordem.
Um caso desses prejudicaria a todos.
Todos os maçons seriam atingidos.
Se tal homem assumisse o ofício
Muitas desordens ocorreriam.
Para a paz e a harmonia,
Admitam um Aprendiz de boa condição.
Antigamente, é o que estava escrito,
O Aprendiz deveria ser de alta linhagem.
Assim, filhos de grandes senhores
Aprenderam a geometria, fonte de benefícios.

ARTIGO QUINTO

O quinto artigo é deliciosamente bom.
O Aprendiz não pode ser bastardo.
O MESTRE nunca admitirá
Como Aprendiz uma cabeça perturbada.
Assim vocês compreendem
Que ele deve ter os membros em bom estado.
O ofício padeceria
Se entrasse um amputado, um coxo,
Pois um homem enfraquecido
Não poderia cumprir sua tarefa.
Cada um de vocês compreenderá
Que o ofício demanda homens fortes.
Um homem mutilado não tem força suficiente.
Isso vocês sabem há muito tempo.

ARTIGO SEXTO

Ninguém deve esquecer o artigo sexto
Que diz que o M.1, não pode prejudicar o senhor,
Solicitando ao senhor para seu Aprendiz
O que ele dá aos Companheiros,
Pois estes são formados,
Enquanto o outro ainda não é.
Seria contrário à razão
Dar-lhe o salário dos Companheiros.
Este artigo diz que o Aprendiz deve solicitar
Menos que os Companheiros, que conhecem o ofício.
Em muitas disciplinas, é preciso que se saiba,
O MESTRE pode instruir seu Aprendiz
Para que seu salário possa ser aumentado.
Quando ele tiver cumprido seu tempo,
Seu salário será aumentado.

ARTIGO SÉTIMO

Eis agora o artigo sétimo
Que diz claramente, Companheiros,
Que nenhum MESTRE, por favor ou medo,
Deverá vestir ou alimentar um ladrão.
Ele nunca acolherá um ladrão,
Nem um assassino,
Nem alguém com reputação duvidosa,
Pois isso envergonharia o ofício

ARTIGO OITAVO

O artigo oitavo lhes mostra aqui
O que o MESTRE deve fazer
Se ele tiver diante de si um homem do ofício
Que não tenha capacidade suficiente.
Ele pode substituí-lo
E colocar em seu lugar alguém mais competente.
Pois um homem que tenha fraquezas
Pode prejudicar o oficio.

ARTIGO NONO

É claro,
O MESTRE deve ser ao mesmo tempo escutado e temido.
Ele não iniciará nenhum trabalho
Se não estiver certo de conduzi-lo bem.
Isso para o benefício do senhor
E do ofício.
Ele verificará as fundações
E zelará para que não oscilem nem desabem

ARTIGO DÉCIMO

O artigo décimo ensina a vocês,
Que estão no alto ou debaixo na escala do ofício,
Que nenhum MESTRE deve sobrepujar um outro,
Mas construir em conjunto
Sob a direção do MESTRE.
Ele não intrigará um Companheiro
Que tiver realizado um trabalho.
Se isso ocorrer,
Ele pagará uma multa de dez libras,
Excepto se aquele que chefiava a obra
For julgado culpado.
Nenhum maçom poderá assumir o trabalho de um outro,
Excepto se este ameaçar a obra.
Um maçom pode então assumir a obra
Para o benefício do senhor.
Nesse caso,
Nenhum maçom poderá se opor.
É verdade que, aquele que escavou as fundações,
Se for um verdadeiro maçom,
Certamente conduzirá a obra a bom termo.

ARTIGO DÉCIMO PRIMEIRO

O artigo décimo primeiro,
eu lhes digo,
É justo e sem rodeios.
Ele diz com vigor
Que nenhum maçom deve trabalhar durante a noite,
Excepto para dedicar-se ao estudo
Pelo qual poderá aperfeiçoar-se.

ARTIGO DÉCIMO SEGUNDO

O artigo décimo segundo diz que todo maçom
Deve ser honesto.
Ele nunca deve criticar o trabalho dos Companheiros
Se quiser manter sua honra.
Seu comentário será honesto.
Pois o saber vem de Deus.
Todos os Companheiros devem trabalhar juntos
Para aperfeiçoar o ofício.

ARTIGO DÉCIMO TERCEIRO

O artigo décimo terceiro, que Deus me guarde,
Diz que, se o MESTRE admitir um Aprendiz,
Ele o instruirá da melhor forma que puder,
Transmitindo-lhe seu saber.
Assim ele conhecerá o oficio e poderá
Trabalhar, não importa em que lugar da terra.

ARTIGO DÉCIMO QUARTO

O artigo décimo quarto diz com razão
Como deve se comportar o MESTRE.
Ele não admitirá um Aprendiz
Se não tiver utilidade para ele.
Durante o aprendizado,
Ele lhe ensinará os diferentes pontos.

ARTIGO DÉCIMO QUINTO

O artigo décimo quinto, o último,
Diz que o MESTRE não deve ter para com os outros homens
Um comportamento hipócrita,
Nem seguir os Companheiros no caminho do erro,
Qualquer que seja o benefício que possa ter.
Ele nunca deverá fazer um falso juramento e
Com amor deverá preocupar-se com sua alma,
Sob pena de trazer para o ofício a vergonha
E para si a repreensão.

PRIMEIRO PONTO

Nesta assembleia, grandes senhores e MESTRES
Adotaram diversos pontos.
Quem quiser aprender o ofício e abraçá-lo
Deverá amar a Deus e a Santa Igreja.
Seu MESTRE também,
E igualmente seus Companheiros
É o que deseja o ofício.

SEGUNDO PONTO

O segundo ponto diz
Que o maçom trabalhará nos dias úteis
Da melhor forma possível,
A fim de merecer seu salário e os dias de repouso.
Pois quem tiver feito bem seu trabalho
Merecerá grande reconforto.

TERCEIRO PONTO

O terceiro ponto é muito claro
Com relação ao Aprendiz, saibam bem.
De boa vontade ele deverá guardar segredo sobre os ensinamentos
De seu MESTRE e de seus Companheiros.
Ele nunca trairá as decisões da câmara
Nem o que se faz na Loja
O que quer que possa ser dito ou feito,
Nada será dito.
Tudo o que você ouvir, na Loja, ou na floresta,
Guarde para si, honradamente,
Sem o que, você mereceria uma repreensão
E grande vergonha abater-se-ia sobre o ofício.

QUARTO PONTO

O quarto ponto nos diz
Que ninguém deve mostrar-se pérfido para com o ofício.
Se cometer um erro que possa prejudicar o ofício,
Ele deverá cessar.
Ele não fará nenhum dano
Ao MESTRE ou aos Companheiros.
O Aprendiz com respeito
Obedecerá às mesmas leis.

QUINTO PONTO

O quinto ponto não é contestável.
Quando o maçom receber seu salário
Do MESTRE, como foi acertado,
Ele o receberá humildemente.
Mas o Mestre terá um grande cuidado
Em avisá-lo antes do meio-dia
Se não quiser mais empregá-lo,
Como tinha o costume de fazer.
Assim, se a ordem for respeitada,
As coisas irão bem.

SEXTO PONTO

O sexto ponto será conhecido por todos
Do mais alto ao mais baixo degrau da escala.
Pode acontecer
Que alguns maçons, por inveja ou ira,
Deixem surgir uma disputa.
O MESTRE, se isso estiver em seu poder,
Deverá lhes fixar uma data, após a jornada de trabalho,
Para que possam se explicar.
Eles só tentarão fazer as pazes
Após o término de sua jornada de trabalho.
Durante os dias de licença, vocês poderão
Usar o tempo livre para se reconciliar.
Se vocês marcarem a conciliação fora de um dia de licença,
Isso acabará por perturbar o trabalho.
Façam de modo com que eles cheguem a um acordo
Para que permaneçam sob a lei de Deus.

SÉTIMO PONTO

O sétimo ponto ensina como manter honesta
A vida que Deus nos dá.
Assim como Ele ordena,
Você não dormirá com a mulher de seu MESTRE
Nem de seus Companheiros, não é digno de um homem.
Isso prejudicaria o ofício.
Nem com a concubina de seus Companheiros,
Pois você não gostaria que fizessem o mesmo com a sua.
A punição para essa falta
Será permanecer Aprendiz durante sete anos completos.
Quem esquecer um desses pontos
Será duramente castigado,
Pois a infelicidade poderia resultar
De tal pecado mortal

OITAVO PONTO

O oitavo ponto não deixa nenhuma dúvida.
Se você receber uma tarefa, qualquer que seja ela,
Ao MESTRE permaneça fiel.
Você nunca será desiludido.
Seja um leal intermediário
Entre o Mestre e os Companheiros
Aja equitativamente tanto com um quanto com os outros.
Isso será uma boa coisa.

NONO PONTO

O nono ponto refere-se
Ao intendente da casa.
Se vocês dois estiverem em casa,
Um deverá servir o outro com moderação e dedicação.
Companheiros, vocês devem saber
Que na sua vez vocês serão intendentes,
Não há nenhuma dúvida.
Ser intendente
É servir os outros
Como irmãs e Irmãos
Nunca tente
Escapar dessa tarefa.
Todos devem exercê-la
Como se deve.
Não se esqueça de pagar convenientemente
Quem lhe vendeu provisões
Para que não possam ter queixas contra você
Nem contra seus Companheiros, homem ou mulher.
Deverão ser pagos de acordo com seus méritos.
Além disso, você dará ao companheiro
O detalhe do seu salário,
A fim de evitar qualquer confusão.
Assim você não será repreendido.
Por sua vez, ele deverá manter controle exato
Dos bens que tiver recebido,
Das despesas feitas para os Companheiros,
Das quais você prestará contas
Quando os Companheiros lhe solicitarem.

DÉCIMO PONTO

O décimo ponto explica como viver bem
Sem confusão nem discussão.
Se algum dia um maçom for colocado em posição difícil,
Se ele cometer um engano em sua obra
E inventar desculpas,
Ele não hesitará em desonrar seus Companheiros.
Por causa de tais infâmias
O ofício poderá ser censurado.
Se ele aviltar o oficio
Não lhe poupem de nada
E tentem afastá-lo do vício,
Sob pena de verem nascer guerras e conflitos.
Não lhe permitam nenhum repouso. Até que o tenham convencido
A comparecer diante de vocês
De boa ou má vontade.
Durante a assembleia, ele comparecerá
Diante de todos os seus Companheiros reunidos.
Se ele se recusar,
Ele será excluído do oficio
E castigado de acordo com o código de nossos anciãos.

DÉCIMO PRIMEIRO PONTO

O décimo primeiro ponto recorre à discrição.
Com razão vocês podem compreendê-lo.
Um maçom que conhece o oficio,
Que vê seu companheiro talhar uma pedra
E ameaçar desperdiçá-la,
Deve corrigi-lo se puder
E ensiná-lo como realizar o talhe
Para que não seja maltratada a obra do Senhor.
Mostre-lhe como terminá-la
Com palavras calorosas que Deus lhe dá.
Por amor por Aquele que está lá no alto,
Por meio de palavras cultive a amizade.

DÉCIMO SEGUNDO PONTO

O décimo segundo ponto não pode ser mais realista.
No local onde será realizada a assembleia
Haverá Mestres, Companheiros,
Grandes senhores.
Haverá também o xerife,
O prefeito da cidade,
Cavaleiros e escudeiros
E almotacéis.
Todas as ordens dadas por eles
Serão respeitadas ao pé da letra
Pelos homens do oficio.
Se ocorrer alguma contestação,
Eles têm poder de decisão.

DÉCIMO TERCEIRO PONTO

O décimo terceiro ponto é muito útil.
Um maçom nunca deve roubar
Nem auxiliar um ladrão
Com o objectivo de receber uma parte do roubo.
Ao cometer esse pecado, ele prejudicaria
A si e a sua família.

DÉCIMO QUARTO PONTO

O décimo quarto ponto é boa lei
Para aquele que tem medo.
Ele deve prestar juramento
Diante de seu MESTRE e seus Companheiros.
Ele obedecerá com zelo
Às ordens,
A seu senhor, ao rei,
Aos quais será fiel.
Todos os pontos que acabamos de enumerar
Você deve respeitar
E prestar juramento, queira ou não.
Todos os pontos
Foram ditados pela razão.
É preciso saber que será verificado
Que os Companheiros os coloquem em prática.
Se alguém vier a esquecê-los,
Qualquer que seja sua posição,
Ele será detido
E conduzido diante desta assembleia.

DÉCIMO QUINTO PONTO

O décimo quinto ponto é de grande proveito
Para aqueles que prestaram juramento.
Esta ordem é obra
Dos senhores e Mestres citados acima.
Ela foi redigida para impedir que se prejudique
Aqueles que recusarem esta constituição
E seus artigos escritos
Pelos senhores e maçons.
Se suas faltas forem provadas
Diante desta assembleia,
E eles não quiserem emendar-se,
Deverão renunciar ao ofício
E jurar abandoná-lo.
A menos que reconheçam sua culpa,
Eles não farão mais parte do oficio.
E se recusarem-se a obedecer
O xerife os deterá imediatamente
E os lançará em uma escura prisão.
Seus bens e seu gado serão confiscados
Pelo tempo que aprouver ao rei.

Um outro regulamento da Arte da Geometria

Ordenou-se que anualmente
Uma assembleia seja realizada
Para verificar e retificar os erros
Do ofício no país.
Todos os anos ou a cada três anos,
Conforme o caso, será assim
No local por eles escolhido.
Data e local serão fixados, assim como
A localização exata.
Todos os homens do ofício assistirão a ela
Assim como os senhores
Para corrigir os erros do ofício.
Todos aqueles que pertençam ao ofício
Deverão jurar manter puros
Os estatutos do ofício
Tal como foram redigidos pelo rei Athelstan.
Esses estatutos, por mim encontrados,
Devem ser respeitados no território,
Fiéis à realeza que devo a minha
Dignidade.
Em cada assembleia,
Venham sentar-se junto de seu rei,
A fim de encontrar nele a graça
Para que ela permaneça em vocês.
Eu confirmo os estatutos do rei Athelstan
Que os ditou para o ofício.
A arte dos Quatro Coroados.

Supliquemos a Deus Todo-Poderoso
E à Virgem Maria
Para que sejam protegidos esses artigos
E esses pontos,
Como esses quatro mártires
Que no ofício foram considerados com grande honra
Eles eram os melhores maçons da Terra,
Escultores em madeira, fabricantes de imagens.
O imperador que tinha alta estima
Por esses nobres operários
Ordenou-lhes que criassem uma estátua à sua imagem
Que seria venerada.
Ele queria assim desviar
O povo da lei de Cristo.
Esses homens tinham fé na lei de Cristo
E em seu ofício, que não desejavam desonrar.
Eles adoravam Deus e seu ensinamento,
E desejavam permanecer a seu serviço.
Eles eram homens puros e sinceros
Que viviam segundo a lei divina,
Não queriam de forma alguma criar ídolos,
Apesar do beneficio que podiam obter com isso.
Recusaram-se a criar uma imitação de Deus.
Não queriam renunciar a sua fé
E se perder nos caminhos de uma falsa lei.
O imperador irado ordenou que fossem detidos
E mantidos em um profundo calabouço.
Quanto mais ele os detinha prisioneiros,
Mais eles viviam na graça do Cristo.
Quando o rei viu que era impotente,
Ele ordenou que os matassem.
Se vocês quiserem saber mais
Vocês encontrarão no livro
Da Lenda dos santos.
Os nomes dos Quatro Coroados
São conhecidos por todos.
Sua festa ocorre no oitavo dia após
O Dia de Todos os Santos.
Escutem agora o que pude ler.
Bem depois que o Dilúvio de Noé,
Que angustiou todos, secasse,
Os homens construíram a torre da Babilônia,
De cal e pedra, de uma tal altura
Que nenhum homem havia visto antes disso.
O edifício era tão comprido e tão grande
Que fazia com sua altura uma sombra de sete milhas.
O rei Nabucodonosor o fez robusto
Para que, se um outro dilúvio acontecesse,
Não destruísse a obra.
Os homens tinham tanto orgulho
E faziam tanto alvoroço
Que a obra foi destruída
Quando um anjo a atingiu.
O anjo diversificou tanto as línguas
Que os homens não se compreendiam mais.
Depois de muitos anos, o bom sábio Euclides
Andou pelo mundo para ensinar geometria.
E ele fez outras coisas,
Diferentes ofícios, em grande número.
Pela graça do Cristo nos Céus
Ele fundou as sete ciências.
Gramática é a primeira, se não me engano.
Dialéctica é a segunda, sejamos abençoados.
Retórica é a terceira, não há contestação.
Como lhes digo, Música é a quarta.
Astronomia é a quinta, por minhas barbas.
Aritmética é a sexta, não há nenhuma dúvida.
Geometria, a sétima, encerra essa lista.
Feita de doçura e cortesia,
Gramática é uma raiz,
Todos a encontram nos livros.
Mas o ofício ultrapassa esse nível
Como o fruto vai além da raiz da árvore.
A retórica orna a palavra
E a música é um canto melodioso.
A astronomia faz a soma dos planetas.
A aritmética permite mostrar que uma coisa
É igual a outra.
Geometria, sétima ciência,
Permite distinguir o que é falso do que é verdadeiro,
Estou convicto.
Eis as sete ciências.
Quem bem as usa pode atingir o céu.
Filho, tenha bom senso
Para deixar para trás o orgulho e a inveja.
Oriente seu espírito para uma sadia sobriedade,
Para que caminhe na boa direção.
Agora eu lhes digo, prestem atenção
Ao que vem a seguir, que será muito útil.
O que está escrito aqui
Não é suficiente.
Se a inteligência lhe faltar,
Reze a seu Deus para que ele o ajude.
O Cristo nos disse,
Que a Santa Igreja é a casa de Deus.
O Livro da Lei diz em verdade
Que ela é feita para a prece.
É lá que o povo deve ir
Rezar e reconhecer seus pecados.
Nunca chegue atrasado na igreja,
Depois de se divertir diante da porta.
Quando você for para a igreja,
Tenha no espírito
Que você deve honrar seu Senhor,
Tanto de dia quanto à noite,
Com seu espírito e sua energia.
Na porta da igreja
Apanhe a água benta.
Cada gota sobre sua fronte
Perdoará um pecado venial.
Não esqueça de baixar seu capuz
Pelo amor por Aquele que morreu na cruz.
Na igreja
Você elevará seu coração em fraternidade para o Cristo.
Levante o olhar para a cruz
E fique de joelhos.
Que Ele o apoie em seu trabalho
Como deseja a Santa Igreja
E que Ele guarde os dez mandamentos
Que Deus ditou aos homens.
Suplique a Ele com humildade
Para o proteger dos sete grandes pecados
Para que em sua vida
Não haja nem preocupações nem guerras.
Peça a Ele
Um lugar no Céu.
Na Santa Igreja, abandone a subtileza,
A luxúria e a obscenidade,
Assim como sua vaidade.
E reze seu Pater noster e sua Ave.
Não reze ostensivamente
Mas esteja em suas súplicas.
Se um dia você não puder mais rezar
Não perturbe os outros em suas devoções.
Sobretudo não fique nem sentado nem em pé,
Mas sim de joelhos no chão.
Quando eu ler o Evangelho
Você se levantará sem se apoiar sobre a parede
E você fará o sinal da cruz, se lhe tiverem ensinado.
Quando ecoar a Glória,
Quando o Evangelho for dito,
Você se ajoelhará.
Com os dois joelhos no chão,
Você adorará Aquele que nos remiu.
Quando soar o sino
Antes da Elevação
Jovens e velhos, vocês se ajoelharão
E elevando suas duas mãos
Vocês dirão:
Senhor Jesus, por seu nome que é santo,
Livre-me do pecado e da vergonha.
Absolve meus pecados e dê-me a comunhão.
E poderei seguir purificado
Para que eu não morra em estado de impureza.
Você, nascido de uma virgem,
Faça com que eu nunca esteja perdido.
Quando eu deixar este mundo,
Dê-me a felicidade eterna.
Amém, amém, assim seja.
Agora, graciosa dama, reze por mim.
Quando vier a Elevação, ajoelhe-se
E agradeça com fervor Àquele que tudo moldou.
Feliz é aquele que pôde ver um único dia
O Senhor.
É um bem precioso
Ao qual ninguém pode atribuir um preço.
Esta visão faz um bem tão grande,
Como disse Santo Agostinho no passado.
No dia em que você vir Deus,
Bebida e comida lhe serão concedidos.
Nada o poderá prejudicar,
Nem os insultos nem as zombarias,
Deus o acolherá no instante da morte.
Não tema a morte.
Quando o momento chegar, eu lhe juro,
Você terá os olhos abertos
E seus passos o guiarão
Para uma santa visão.
O Anjo Gabriel estará a seu lado
E manterá seus olhos abertos.
Dito tudo isso, é hora de terminar
Com relação à missa.
Assista ao ofício a cada dia.
Mas, se seu trabalho o impede,
Quando soarem os sinos,
Reze a seu Deus de todo o coração
E esteja com Ele em pensamento
Na cerimônia.
Eu lhe recomendo,
A você e seus Companheiros, escutar o que eu digo.
Diante de um senhor, em sua casa, na sala ou à mesa,
Tire o chapéu ou o capuz antes de falar.
Fica bem se inclinar duas ou três vezes
Diante desse senhor
Colocando o joelho direito no chão.
Você manterá sua honra.
Não cubra a cabeça
Enquanto não lhe disserem para fazê-lo.
Quando falar com ele,
Seja amável e franco.
Faça como diz o Livro da Lei
Fite-lhe os olhos amavelmente
E examine seus pés e mãos.
Evite se coçar ou tropeçar.
Não cuspa jamais, nem assoe o nariz.
Espere estar sozinho para fazê-lo.
Você tem grandes qualidades em você,
Mas aja humildemente.
Quando estiver na casa de um senhor
Seja simples.
Não faça alarde de seu nascimento
Ou de seus conhecimentos.
Não assoe o nariz e não se apoie na parede.
Uma educação honesta
Não pode permitir tais comportamentos.
A perfeição de seus gestos abrirá portas.
Pouco importa quem eram seu pai e sua mãe,
Digno é o filho que se comporta bem.
Onde quer que você vá, são as boas maneiras
Que fazem o homem.
Conheça seu próximo
A fim de lhe render a homenagem que lhe é devida.
Nunca cumprimente todas as pessoas ao mesmo tempo,
A menos que você as conheça.
À mesa, Coma sem gula.
Suas mãos estão limpas,
Sua faca afiada?
Não desperdice o pão pela carne
Que você não comerá.
Se o homem próximo a você for de condição superior,
Ele se servirá
Antes de você.
Não pegue o melhor pedaço,
Aquele que você prefere.
Suas mãos devem estar limpas.
Não suje o guardanapo,
Ele não serve para você assoar o nariz.
Não limpe seus dentes à mesa.
Não esvazie sua taça,
Mesmo que tenha muita sede.
Não fique com a boca cheia
Quando falar ou quando beber.
E se um homem próximo a você
Se puser a beber mais que o razoável,
Interrompa seu discurso,
Esteja ele bebendo vinho ou cerveja.

Tome cuidado para não magoar ninguém
Mesmo que ele pareça disposto a magoar você.
Não maltrate ninguém
Se você quiser manter sua honra.
Palavras podem ser ditas
Que seriam lamentadas.
Guarde seu sangue frio,
Você não terá arrependimentos.
Na sala, em companhia de graciosas damas,
Fique calado e observe.
Evite rir ruidosamente
E gritar como um libertino.
Fale somente com seus pares
E não conte tudo que você ouviu.
Não é necessário dizer o que você faz
Por ostentação ou por interesse.
Maravilhosos discursos podem auxiliá-lo,
Mas também levá-lo à sua perdição.
Se você encontrar um homem de valor,
Mantenha a cabeça nua.

Na igreja, no mercado ou nos bairros,
Cumprimente-o de acordo com sua linhagem.
Quando caminhar com um homem
De linhagem mais alta,
Caminhe ligeiramente atrás dele.
É sinal de bom gosto.
Deixe-o falar, mantendo sua calma.
Quando ele tiver terminado, diga o que tem a dizer,
Com prudência e moderação.
Nunca o interrompa,
Mesmo que ele esteja bebendo vinho ou cerveja.

Que Cristo, em sua grande graça,
Dê-lhes o tempo e o espírito
Para ler e compreender este livro,
Para que o Céu lhes seja a recompensa.
Amen, amen, assim seja.
Digamos isso em uníssono, por caridade

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