O Adeus ao Calvário – Diálogo entre Jesus, Maria e Satã

300px-Ary_Scheffer_-_The_Temptation_of_Christ_(1854)Um conto de Eliphas Levi, em seu livro "A Ciência dos Espíritos".

Jesus atravessou os campos desolados da Judéia e parou no cimo árido do antigo Calvário.

Lá um anjo com sobrancelhas negras e olho sombrio estava sentado, envolvido em suas duas vastas asas. Era Satã, o rei do velho mundo.

O anjo rebelde estava triste e cansado, e desviava o olhar com desgosto de uma terra onde o mal estava sem talentos e onde o aborrecimento de uma corrupção tímida sucedera aos combates titânicos das grandes paixões antigas. Ele sentia que experimentando os homens instruíra os fortes e enganara apenas os fracos; também já não se dignava a tentar ninguém, e sombrio, sob seu diadema de ouro, escutava vagamente caírem as almas na eternidade, como as gotas monótonas de uma chuva eterna.

Possuído por uma força que lhe era desconhecida, viera sentar-se no Calvário e, lembrando a morte do Homem-Deus, estava com inveja.

Era um anjo poderoso e belo; mas estava com inveja do Cristo, e essa inveja era figurada por uma serpente que mergulhava a cabeça em seu peito e carcomia seu coração.

Jesus e Maria estavam em pé perto dele e olhavam-no em silêncio, com grande piedade. Satã olhou por sua vez o Redentor e sorriu com amargura.

- Vens, perguntou-lhe Satã, experimentar morrer uma segunda vez por um mundo que não pôde salvar teu primeiro suplício? Experimentaste inutilmente transformar as pedras em pão para alimentar teu povo, e vens confessar-me tua derrota? Caíste do alto do Templo, e tua divindade quebrou-se na queda? Vens para me adorar, a fim de possuíres o mundo? Vai, agora é muito tarde, e não te saberia enganar. O império do mundo escapou àqueles que me adoravam em teu nome; e eu mesmo estou inerte num reino sem glória. Se estás desalentado como eu, senta perto de mim, e não pensemos nem em Deus nem nos homens.

- Não venho sentar-me junto de ti, disse-lhe o Cristo, venho levantar-te, perdoar-te e consolar-te, para que deixes de ser mau.

- Não quero teu perdão, responde o anjo mau, e não sou eu que sou mau. O mau é aquele que dá aos espíritos a sede de inteligência, e que envolve a verdade em um mistério impenetrável. É aquele que deixa entrever a seu amor uma virgem ideal, uma beleza embriagadora que os lança no delírio, e que a dá a eles para arrancá-la logo nos seus primeiros abraços e carregá-la com cadeias eternas, É aquele, finalmente, que deu a liberdade aos anjos, e que preparou suplícios infinitos para aqueles que não queriam ser seus escravos! O mau é aquele que matou seu filho inocente sob pretexto de vingar nele o crime dos culpados, e que não perdoou os culpados, mas lhes fez um crime a mais com a morte de seu filho!

- Por que me lembrar tão amargamente da ignorância e dos erros dos homens? retoma Jesus: sei melhor que tu o quanto desfiguraram a imagem de Deus, e tu mesmo bem sabes que Deus não se parece com a imagem que fizeram dele. Deus só te deu sede de inteligência para te embeber para sempre da verdade eterna. Mas por que fechar os olhos e procurar o dia em ti mesmo ao invés de olhar o sol? Se procurasses a luz onde ela está, tu a verias; porque não existem em Deus nem sombras e nem mistérios, as sombras estão em ti e os mistérios são as fraquezas de teu espírito. Deus não deu liberdade a suas criaturas para tomá-la depois, ele a deu a suas criaturas como esposa e não como amante ilegítima; ele quer que a possuam e não que a violentem, porque essa casta filha do céu não sobreviveria a um ultraje, e quando sua dignidade virginal é ofendida, a liberdade está morta para aquele que a desconheceu. Deus não quer escravos: é o orgulho revoltado que criou a servidão. A lei de Deus é o direito real de suas criaturas, são os títulos de sua liberdade eterna. Deus não matou seu filho, mas o filho de Deus deu voluntariamente sua vida para matar a morte: e é por isso que ele vive agora na humanidade inteira e que salvará todas as gerações, porque de provação em provação ele conduz a família humana à terra prometida, e ela já saboreou os primeiros frutos. Venho pois anunciar-te, ó Satã, que chegou tua última hora, a menos que queiras ser livre e reinar comigo sobre o mundo, pela inteligência e pelo amor. Mas não mais te chamarás Satã, retomarás o nome glorioso de Lúcifer, e colocarei uma estrela em tua fronte e uma tocha em tua mão. Serás o gênio do trabalho e da indústria, porque lutaste muito, sofreste muito e pensaste dolorosamente! Estenderás tuas asas de um pólo ao outro e pairarás sobre o mundo; a glória despertará com tua voz. Ao invés de ser o orgulho do isolamento, serás o orgulho sublime do devotamento, e dar-te-ei o cetro da terra e a chave do céu.

- Não compreendo, disse o demônio sacudindo tristemente a cabeça, e não te poderia compreender: sabes bem que não posso mais amar!

E com um gesto doloroso o anjo decaído mostrava ao Cristo a chaga que lhe rasgava o peito e a serpente que lhe corroia o coração.

Jesus voltou-se para sua mãe e a olhou: Maria compreendeu o olhar de seu filho, aproximou-se do anjo infeliz e não rejeitou estender a mão em sua direção e tocar seu peito ferido.

Então a serpente caiu por si mesma e expirou aos pés de Maria, que lhe esmagou a cabeça; a chaga do coração do anjo ficou cicatrizada, e uma lágrima, a primeira que verteu, desceu lentamente pelo rosto arrependido de Lúcifer.

Essa lágrima era preciosa como o sangue de um deus; e por ela foram resgatadas todas as blasfêmias do inferno.

O anjo regenerado prosternou-se no Calvário e beijou chorando o lugar onde outrora estivera pregada a cruz.

Depois levantou-se triunfante de esperança e resplandecente de amor, e atirou-se nos braços do Cristo. Então o Calvário tremeu; seu cume árido revestiu-se rapidamente de um verdor fresco e brilhante e coroou-se de flores.

E no lugar onde estivera a cruz uma nova videira ergueu-se e se carregou de frutos maduros e perfumados.

O Salvador disse então: - Eis a videira que dará o vinho da comunhão universal, e ela crescerá até que todos os seus ramos envolvam toda a terra.

Depois, tomando sua mãe pela mão, estendeu a outra mão ao anjo da liberdade e lhe disse: - Que nossas formas simbólicas retornem agora ao céu, não mais voltarei a sofrer a morte nessa montanha; Maria aqui não mais chorará seu filho e Lúcifer não mais trará aqui os remorsos de seu crime agora extinto. Somos apenas um mesmo espírito: o espírito da inteligência e do amor, o espírito de liberdade e de coragem, o espírito de vida que triunfou sobre a morte.

Todos os três então elevaram-se no espaço; e se elevaram a uma altura prodigiosa; viram a terra e todos os seus reinos que estendiam seus caminhos uns juntos dos outros como braços entrelaçados, viram os campos verdes já das primeiras colheitas fraternais, e do Oriente ao Ocidente ouviram o prelúdio misterioso do cântico da união. E ao norte, sobre a crista de uma montanha azulada, viram desenhar-se a forma gigantesca de um homem que elevava seus braços em direção ao céu.

Sobre seus braços via-se ainda o traço recente das chagas que acabavam de se romper, e seu peito estava cicatrizado como o de Lúcifer.

Sob seu pé direito, na ponta mais aguda da montanha, palpitava ainda o cadáver de um abutre cuja cabeça e asas estavam pendentes.

Essa montanha era o Cáucaso; o gigante liberto que estendia suas mãos era o antigo Prometeu.

Assim os grandes símbolos divinos e humanos reencontravam-se e se saudavam sob um mesmo céu; depois desapareceram para dar lugar ao próprio Deus que vinha morar para sempre com os homens.

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