GuR+C, a Rosa Cruz de Ouro

RosenkreuzQuando falamos de Ordens Rosacruzes a maioria das pessoas lembra ou conhece apenas das Ordens que começaram a existir do Século XIX em diante, pouco sabendo das Ordens que existiram no Século XVIII. Dentre estas, destaca-se a Gold und Rosenkreutz, a Ordem da Rosacruz de Ouro, uma Ordem de aperfeiçoamento maçônico com ênfase no laboratório alquímico. O objetivo deste post é fazer conhecer esta Ordem e seu trabalho por uma visão geral, o que poderá servir para comparações com as Ordens Rosacruzes mais recentes.

Samuel Richter

A primeira menção da GuR+C (Rosacruz de Ouro) foi no início do século XVIII quando Sincerus Renatus (Samuel Richter) publicou a obra “A Verdadeira e Completa Preparação da Pedra Filosofal da Fraternidade da Ordem do Ouro e da Rosa Cruz”. Nesta obra vemos também que o tom anti-papal cessou e que agora a Rosacruz estava sendo retratada como o Caminho Real, assim acrescentando o Ouro à Rosacruz em alusão ao aumento no enfoque do laboratório alquímico.

A iniciação nesta época era muito simples e era realizada à noite em uma igreja. O candidato era preparado por seu padrinho durante três meses e então conhecia o seu iniciador pela primeira vez no altar da igreja. A iniciação era dividia em três partes, a saber: atividades cerimoniais, o juramento e uma oração. Após isto o novo membro recebia, sob regulamentação estrita, uma parte da Pedra Filosofal. Embora o tom seja diferente da Ordem da Rosacruz de Ouro que se estabelecera cerca de 50 anos depois, os seus estatutos estabeleceram novos padrões para o tempo ainda por vir.

O Ouro, a Rosa e a Cruz

A GuR+C manifestou-se (ou, segundo alguns, reviveu) no sul da Alemanha, provavelmente entre 1756 e 1758, e rapidamente se espalhou por todo o país, chegando eventualmente a outros países como  Polônia, Suécia e Rússia. A princípio não era necessário ser maçom ou cristão e a Ordem enfatizava uma conexão com os Templários. Em 1767 uma reforma geral ocorreu, a Ordem foi amplamente desenvolvida e sua estrutura ampliada, deixando de ter 7 e agora passando a ter 9 graus, com maior ênfase nos ensinamentos bíblicos. Dentro de alguns anos tornou-se um sistema maçônico de aperfeiçoamento, época esta em que era descrita como uma Maçonaria Teosófica. Dez anos mais tarde, em 1777, outra reforma ocorreu e são os materiais provenientes deste período que conseguimos ter acesso.

gold-und-rosenkruezerPara o ingresso nesta Ordem, o candidato precisava ter pelo menos 30 anos de idade, ser um verdadeiro Mestre da Luz e da Palavra Perdida (ou seja, ser Mestre Maçom) e possuir sinais visíveis disto (ter honra, senso comum, tranqüilidade, apreciar o conhecimento e a sabedoria, etc). No ingresso, o nome comum era “cabalizado”. Poderia haver modificações de seu nome mundano ou até mesmo a utilização de um pequeno moto.

O objetivo da Ordem era regenerar o homem à sua dignidade original, com a ajuda de Jesus Cristo lutar contra o diabo e a escuridão enquanto se constrói um Reino de Luz para que tudo possa enfim se reintegrar à condição original. Em suma, magia, alquimia e profecia estarão presentes no seu sistema de graus. É importante entender que há bastante influência da Teosofia, acreditando-se, por exemplo, que as doenças e a morte são resultados naturais do Pecado Original e da subseqüente Queda do Homem. A Alquimia é então um caminho para remover o Pecado pela curada das doenças e o prolongamento da vida, efetuada através do desenvolvimento do corpo, da alma e do espírito. Só então que a verdadeira Magia e Teurgia seriam trabalhadas.

Rituais

Os rituais iniciáticos sofrem influência dos rituais da Maçonaria Azul e muitas vezes e tenta explicar os significados e simbolismos alquímicos ali escondidos. Cada grau tinha um templo particular, ou seja, a Loja tinha vários templos decorados e coloridos de acordo com os estágios alquímicos. Durante uma iniciação um irmão pode visitar vários destes espaços a fim de receber instruções específicas daquele grau necessárias durante a iniciação e só então iria para o templo particular do grau em que seria recebido, tudo isto feito de forma ritualística com perguntas, palavras de passe e sinais.

Além das iniciações, havia cerimônias de instrução, com discursos sobre Maçonaria, Alquimia, Teosofia e Cabala Cristã. Também havia Lojas de Mesa, nas quais o objeto mais importante era um saleiro cercado por três velas. O catecismo dos graus eram sempre recitados em tais encontros.

Alchemistengrad-sm1Graus

Qualquer semelhança da nomenclatura dos graus da GuR+C com o de algumas Ordens Rosacruzes Modernas não é mera coincidência... Vejamos o que era estudado em cada um deles.

  1. Juniors

Grau teórico onde se aprendia a origem da Fraternidade e que via os três graus da Maçonaria Azul como uma escola preliminar para as mais elevadas ciências, dando interpretações alquímicas a eles. Cada grau ganhava a interpretação de um dos estágios alquímicos. Também se deveria aprender várias páginas de símbolos alquímicos e seus significados alquímicos e cabalísticos, bem como a sua cifra obrigatória, os quais seriam colocados em uso a partir do quarto grau.

  1. Theoreciti

Grau teórico que possui o lema “através da observação da natureza podemos conhecer a Deus e a nós mesmos”. O Gênesis era interpretado alquimicamente e era dado uma doutrina geral da criação de todos os seres, bem como suas relações com o macro e o microcosmo. O Aurea Catena Homeri, de Anton Kirchweger, e os trabalhos de Arnaldusdel Villa Nova eram estudados e também apresentados durante a iniciação.

  1. Practici

Deveria aqui se entender corretamente os Três Reinos da Natureza e seus Regentes, a Concordância dos Filosóficos, bem como suas Manipulações, Fornos e Recipientes. Aqui então o verdadeiro laboratório alquímico começava, onde se aprendia o que um laboratório deveria ter e como preparar os Radical e Universal Menstrua de cada um dos Reinos. As receitas alquímicas de “Como fazer, na Via Úmida, as Preparações do Lais Mineral, Vegetal, Animal e Universal” eram utilizadas. Contudo, as 7 operações na Via Úmida também eram dadas e trabalhadas neste grau. A obra prima de Welling intitulada “Opus Mago-Cabbalisticum et Theosophicum” era leitura obrigatória a partir daqui.

  1. Philosophi

Aqui se continua o trabalho no laboratório alquímico, onde se aprende a verdadeira imagem dos Reinos Filosófico, Animal, Vegetal e Mineral. As receitas alquímicas incluíam “Preparação do Radical Menstrua”, “Preparação do Lapis Mineralis de acordo com a Via Úmida”, “Calcinatio e Putrefactio do Ouro”, “Resolutio e Coagulatio do Ouro” e “Como construir uma vela que sempre queima”. Referências bíblicas eram utilizadas para demonstrar a importância dos números 4 e 40, que foram considerados como de grande importância no trabalho alquímico, os quais seriam utilizados nas operações dos graus mais altos.

  1. Minores

Cabala Cristã, a qual era estudada com ênfase nas relações com a alquímica. As operações alquímicas (10 no total) eram centradas nos mistérios do Sol e da Terra filosóficos, como se preparar o VITRIOL para o trabalho mineral e como fazer tinturas de cura. A partir daqui, os membros não trabalham juntos com membros de graus mais baixos nas operações alquímicas, com exceção dos momentos de instrução deles. Um livro importante estudado neste grau é o Kabbala Denudata de Knorr Von Rosenroth.

  1. Majores

O trabalho alquímico focava na preparação do Sal Filosófico e como coagular a Pedra a partir do fleuma. Aprendia-se a como usar o estômago como Athanor. Certas restrições alimentares aqui também seriam vistas. A Via Seca é mais trabalhada aqui, com ênfase na construção da Pedra Mineral. Um importante estudo era “Schlüssel der WahrenWeisheit” e “Der Compass der Weisen”.

  1. Adepti Exempti

O trabalho alquímico focava no orvalho da manhã, a preparação do Leão Vermelho, como produzir as pedras dos quatro reinos e a muito famosa Pedra Filosofal. A operação foi baseada no tratado da Splendor Solis numa resumida versão sueca da Arcana Arcanorum. Assim, o Aureum Vellus se torna um importante estudo. Magia (magia naturalis) é encontrada e trabalhada aqui pela primeira vez.

  1. Magistri

O trabalho mágico é aqui ainda mais elaborado, onde se estuda e trabalha com a Opus Astrale Universalissimum – em resumo, como o Espírito Universal influencia a Terra através do Sol, da Lua e dos planetas visíveis, e como este reflete-se no interior do homem através de fluxos e refluxos. Em suma, o trabalho consiste na Magia denominada Salomônica e o trabalho alquímico é focado no Elixir da Vida.

  1. Magi

O supra-sumo do sistema era o Urim & Turim (que nada tem haver com um bíblico, sendo um preparado alquímico com fins de profecia), o Schemhamphorash e o trabalho teúrgico que era aqui chamado de Magia Divina.

Schemhamphoras

O sistema Schemhamphoras baseava-se no livro “Semiphoras e Schemhamphoras”, publicado em 1686. É um tratado de Magia Salomônica, onde se aprende a contactar e comunicar-se com o Divino e seus agentes da mesma forma que Moisés e Salomão fazia. Aos membros era atribuído um anjo pessoal, com o qual eles estabeleciam contato. Tais operações necessitavam de um círculo mágico específico traçado no chão, de acordo com a natureza do seu anjo pessoal ou do anjo que se queria questionar ou dar instruções para (os 10 círculos diferentes relacionavam-se com as 10 Sephiroth). Uma longa série de purificações e orações logo antes da conjuração real poderia ocorrer. A conjuração poderia ser feito por três diferentes caminhos, a saber, 1° se o ser era para aparecer em sonhos, 2° se o ser era para aparecer quando estiver acordado no meio da noite, e 3° se o ser era para aparecer imediatamente em sua forma física diante do círculo. Em geral, o trabalho é bastante semelhante às operações do sistema francês Elus Cohen de Pasqually, embora um pouco mais fácil de compreender.

Magia Divina

No nono grau, os membros recebiam um manuscrito chamado Magia Divina, que hoje é amplamente conhecido como a operação de Abramelin. Eles descreve seis longos meses de trabalho teúrgico destinados a alcançar um contato e conversação com o seu Sagrado Anjo Guardião. Depois de este contato ser estabelecido, evoca-se uma legião de espíritos demoníacos e todos eles têm que se submeter à vontade do mago, que atua no mais elevado serviço de Deus. Tendo sido originalmente composto por um judeu chamado Abraham Von Worms, o primeiro capítulo descreve como o sistema foi ensinado a ele por seu mestre Abramelin, daí o nome. Na Rosacruz de Ouro, no entanto, sendo uma Ordem cristã, este capítulo foi removido, e o documento, portanto, continha apenas dois capítulos com instruções e quadrados mágicos. Além disso, várias das implicações morais que se encontram nas versões publicadas estão completamente ausentes nas instruções, especialmente as que tratam da moral e costumes judaicos, que, em alguns casos, são reconfigurados num tom mais cristão. E, seja surpresa ou não, todos os quadrados mágicos são diferentes; eles normalmente têm os mesmos títulos e descrições, mas além de algumas ocasiões, não têm qualquer semelhança com os que estão publicados. Foram adicionados também alguns desenhos muito bonitos e detalhados do santuário, do altar e da vestimenta ritualística usada.

Urim e Thumin

O maior dos segredos foi o lendário Urim& Thumi, que foi descrito como “o conhecimento da Luz trina sobrenatural, através do qual se pode investigar a origem, o passado, o presente e o futuro de tudo o que existe”. Na verdade este trabalho era uma combinação de alquimia e magia, que produzia uma pedra de scrying consagrada aos sete Grandes Vigias. Para construir o Urim & Thumin, era preciso purificar cada um dos sete metais em seus específicos dia e hora e misturá-los com certos ingredientes. Na lua nova seguinte, os sete metais eram fundidos e lançados num formulário específico, sobre o qual estavam inscritos certos caracteres mágicos, novamente de acordo com as horas planetárias. Em seguida, na sexta-feira seguinte, dois cristais pequenos e cinco grandes eram triturados e fechados com ouro. Na próxima vez que o Sol entrar em Leo, coloca-se as quatro Pedras no Fogo e se faz uma Pedra do Sábio que nunca brilha. Esta era colocada no cristal maior; Para usá-lo, era preciso uma câmara limpa e isolada (onde ninguém havia comido ou bebido), no qual eram colocadas sete cadeiras em torno de uma mesa central. Cada uma das cadeiras era marcada com os caracteres de seu respectivo planeta. O Urim era então levado para fora de seu recipiente e posto sobre a mesa, ao lado de duas velas acesas. Seguem-se então meditações, incensos, orações e salmos, até que os sete membros mais antigos sentavam-se nas cadeiras. Se mais de sete membros estavam presentes, os restantes tinham que ficar por trás das cadeiras e apenas observar a cerimônia. Os sete anciãos meditavam em silencio e então olhavam para o Thumin. Em seguida eles viam, em grande humildade, o que eles desejavam ver, saber ou entender – se envolvia o macrocosmo ou o microcosmo, anjos, vivos ou mortos, situações no passado, presente ou futuro – o que resultava em uma luz incandescente entre os seus rostos e o Thumin. Durante e após a cerimônia, eles eram apenas autorizados a discutir as experiências que eram relacionadas à Ordem e seus membros. A cerimônia termina com orações, reposição do Urim & Thumin, extinção das chamas das velas e então todos saíam da câmara.

Igreja Rosacruz

Na Suécia existia uma igreja Rosacruz secreta chamada Theosophia Apostolica Rosae Crucae. Este sistema teosófico Rosacruz era aberto a alguns membros eleitos de alto grau da Rosacruz de Ouro, e consistia em três ordenações – sacerdote, bispo e patriarca – que também eram chamados de “verdadeira iniciação”. Parece que apenas existiu na Suécia e foi criado por pessoas aderentes às ideias do místico sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772). A finalidade das três ordenações era trazer o candidato a um mais consciente e regular contato com seu Sagrado Anjo Guardião e alinhar-se com o anjo específico da tradição e, assim, tornar-se um verdadeiro profeta, vendo e conhecendo os caminhos do Senhor, utilizando-se para isto de selos mágicos. A litania utilizada nas ordenações vem de um manual sueco de igreja (protestante) de 1693, mas a sua profissão de fé é única e é provavelmente inspirada no L’Église Constitutionelle francês. Um dialeto do aramaico ocidental é utilizado nas ordenações, o mesmo dialeto utilizado nas Igrejas Patriarcas Siríacas de Antioquia.

Concluindo...

Esta é uma Ordem Rosacruz Tradicional que promovia o trabalho alquímico para a realização de uma verdadeira magia divina. No entanto, nada que é bom dura para sempre. A cada 10 anos deveria ocorrer uma reforma obrigatória e, através destas reformas, a Ordem foi desaparecendo devido a conflitos internos, experiências alquímicas com resultados fatais, Superiores Incógnitos (aqui não se referindo aos SI martinistas) que deixaram de passar os ensinamentos mais secretos aos membros desta Fraternidade e conflitos externos com os Irmãos Asiáticos, os Illuminati e outras Ordens da época. Infelizmente, embora no século XVIII o trabalho tivesse um teor mais tradicional, no final deste mesmo século o termo Rosacruz pareceu se tornar sinônimo de charlatanismo ou ignorância. Porém, os ensinamentos Rosacruzes continuam até hoje a influenciar diversos grupos.

2 comentários sobre “GuR+C, a Rosa Cruz de Ouro

  1. caesaraugusttus

    Interessante. Eu havia lido sobre a "Rosacruz de Ouro", ou "Ramo d´Oro", no texto: "O Mundo Seceto" (Rèmi Boyer).

    Abraços e Grato!!!

    Responder

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