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Gnosticismo Otimista

gnosticTexto de Acauã Silva. Os leitores do blog podem solicitar que seus textos sejam publicados no Alvorecer. Para isto, basta enviar email para contato@oalvorecer.com.br com seu artigo e iremos analisá-lo para posterior publicação, se aprovado. 

Hermetismo e Neoplatonismo há uma gradação na escala do ser e não uma separação total, uma monista (gnose) e outra dualista (maniqueista). Essas visões, apesar de dispares, se ajustaram e passaram a fazer parte de um conjunto de saberes, assim “com ou sem demiurgo a interpor-se entre e eles e o Pleroma, qualquer que fosse a natureza dos males e sofrimento dos quais queriam livrar-se – mundanos ou cósmicos, ilusórios ou materiais -, interessava-lhes ascender e reencontrar a Unidade”, na qual Claudio Willer chama de Neoplatonismo Renascentista (WILLER, 2007 apud: FERNANDES, 2010, p. 25). Esse sincretismo é ampliado na visão de Christian Hermann Weisse (1837), na qual diz que o gnosticismo representou uma tentativa de uma filosofia do cristianismo e que em virtude da enorme amplitude, se aproxima do misticismo, magia e teosofia. Essa união se deu com a mediação da tradição pitagórica-platônica, a cabala, a teosofia de Jacob Bohme, o rosacrucianismo e o martinismo. O Rosacrucianismo moderno advém dos plafetos de Johann Valenin Andreae (1586-1654). O primeiro manifesto, Fama Fraternitatis Rosae Crucis, aparecem alternadas confissões de fé monista (hermética) e dualista (gnóstico), “sem dar atenção à contradição” (WILLER, 2007 apud: FERNANDES, 2010, p. 47). Cornelius Agrippa von Nettsheim (1486-1535), em Da Incertitude e Vaidade das Ciências e das Artes” foi o primeiro autor a falar das conexões entre a cabala e o gnosticismo, “propondo uma influência da primeira sobre “ofitas, gnósticos e heréticos valentinianos”” (FERNANDES, 2010, p. 48). Aproxima-se, então, a várias escolas filosófico-religiosas antigas, que a micro-existência é sempre feliz, na medida em que se harmoniza, pelo conhecimento, com a realidade macrocósmica do Universo (REALE, 2003 apud DOS SANTOS). O próprio gnosticismo cristão é a união de várias facetas de sistemas esotéricos, religiões orientais, judaísmo e cristianismo. “Por Gnose aqui se deve entender o Conhecimento tradicional que constitui o fundo comum de todas as iniciações, cujas doutrinas e símbolos foram transmitidos, desde a mais remota antiguidade até nossos dias, através de todas as Confraternidades secretas, cuja longa corrente jamais foi interrompida” (GUÉNON, in Études sur la Franc Maçonnerie et le Compagnonage, 1993 apud: FEDELI, 2014).

O Hermetismo “strito sensu”, no dizer de Doresse, é um gnosticismo otimista (2002, apud: FERNANDES, 2010, p. 104). Entre semelhanças e diferenças, como conclusões otimistas e negativa total em considerar como mau ao Demiurgo e o mundo terreno. O autor recorre a Frances Yates em Giordano Bruno e a Tradição Hermética, na qual classificou o Corpus Hermeticum como pertencentes a dois tipos de gnose, uma pessimista (Hermetismo gnosticizado) e outra otimista (Hermetismo strictu sensu). A gnose pessimista ou dualista, o mundo material é mau por si mesmo, e é preciso escapar dele. A gnose otimista, a matéria é impregnada daquilo que é divino, o sol brilha com poder divino e não há parte da natureza que não seja boa. Willer diz que as duas, embora apartadas, se confundem ou interpenetram. Nisso a biblioteca de Nag Hammadi dispõe de escritos que se aproximam da gnose otimista, pois não são dualistas e não se fala de demiurgo ou arcontes.

A dualidade é uma separação de forças na unidade, embora a posição de Valentino representa uma posição relativamente não-dualista. “Para ele, a criação do mundo resulta não do eterno confronto entre duas potências arquetípicas, como se dá para um pensador maniqueista, mas de uma queda que ocorre dentro da moldura de um sistema previamente perfeito. A natureza dessa queda é um mistério que todo sistema monista tem de encarar” (DILLON, 1996 apud FERNANDES, 2010, p. 207).

GUÉNON, Réne. O Demiurgo, 1909. Disponível em: . Acesso em: 14/01/2014.

FERNANDES, Edrisi de Araújo. Antecedentes históricos-filosóficos da problemática do tempo e do mal no Freiheitsschrift de Schelling, Natal, RN, 2010.

NEVES, Joaquim Carreira das. Gnosis – Gnosticismo. Uma Introdução, Portugal, 2011.

SANTOS, David G. Plotino e Irineu de Lyon contra os gnósticos: uma proposta paralela? Diferenças e paralelismos do contra-gnosticismo de Ireneu e de Plontino, Portugal, 2010.

DOS SANTOS, Pedro Paulo. Cristianismo e Gnosticismo: A Recepção de Elementos do Helenismo Religioso, UNESA.

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