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Falar Maat, Fazer Maat

2000px-maat-svgNa antiga religião egípcia, Maat é uma deusa, filha de Rá e consorte de Toth, que, resumidamente, representa princípios de equilíbrio, justiça, verdade e moralidade. Seu símbolo é a pena de avestruz, mostrada acima de sua cabeça ou portando-a, que, devido à igualdade longitudinal neste animal, também representa princípios de justiça, equidade e verdade. “Ela é a luz que traz Rá ao mundo”, diz o Livro Egípcio dos Mortos, e seu marido chega a ser descrito como “aquele que revela Maat e reconhece Maat, que ama e dá Maat para o criador de Maat”. É a essência da cultura egípcia, influenciando a cultura, a religião e a sociedade no geral, fazendo tornar-se inconcebível entender a cultura egípcia antiga, ou até mesmo a Tradição Primordial, sem a compreensão do conceito que carrega.

É a harmonização celestial no reino da geração e aquela que orienta a alma (ou a psique) para tal equilíbrio. Descreve pensamentos, palavras e ações que vão em favor desta harmonização, que deve ocorrer tanto no mundo espiritual quanto no mundo material. É a reciprocidade entre os deuses e a humanidade, pois os deuses servem à humanidade do mesmo que a humanidade os servem. Deste modo, é o reconhecimento e a compreensão dos múltiplos estados do ser em todas as suas manifestações e uma espécie de reciprocidade entre eles.

Os primeiros faraós para os antigos egípcios eram deuses, simbolizando deste modo um tempo onde Céu e Terra estavam unidos, translúcidos, e as pessoas eram deuses. Através do que podemos retratar com o mito da Queda do Homem, ou como a tendência do universo ao caos, houve a separação entre os dois, onde os faraós deixaram de ser deuses e passaram a ser os homens, seus filhos. A ordem primal do universo existia na criação, mas lentamente, à medida que o tempo passa, o Céu e a Terra vão se separando.

Ora, o Todo é gerado a partir do Um, mas, embora seja o Todo, continua sendo o Um. A Queda, ou a separação entre o mundo espiritual e o mundo material, é consciencial e, a partir do momento em que o homem visualiza a dualidade como duas coisas distintas, e não como nuances diferentes de uma única coisa, há um enfoque ou a priorização entre um e outro. Com isto, Céu e Terra se separam em nossa consciência e surge a necessidade da religião (religare, entendida aqui como meio de religação entre eles), não para aplacar um poder externo, mas para harmonizar os múltiplos estados de ser com os reinos espiritual e temporal, manifestando, através da realização de ritos, Céu na Terra e unindo, da mesma forma, Terra e Céu. Deste modo, o ideal de equilíbrio surge do distanciamento supracitado, pois, como diz o Tao Te Ching: “quando se esquece o grande Tao, surgem a gentileza e a moralidade. Quando não há paz no seio da família, surgem o dever e a devoção filiais”. Em suma, à medida que o tempo passa, Maat existe de maneira mais explícita, como o Céu ligando-se e irradiando-se na Terra. Quem garante o retorno do homem a seu simbólico estado primordial, ou a menos inicia o processo, é ela e a sua principal forma de manifestação é a correta realização dos ritos sagrados.

Realizar um ritual de maneira mecânica, sem conhecimento (afinal, por meio de Toth que revelamos e reconhecemos Maat), é um ato infrutífero, como reitera os Sutras budistas e os upanishads. O ato ritualístico deve ser realizado de acordo com o princípio da Tábua da Esmeralda: “verdadeiro, sem mentira, certo e veríssimo”. Valentim Tomberg, ao debruçar-se sobre este princípio, diz: “o que é absolutamente subjetivo (a experiência mística pura) deve objetivar-se na consciência e nela deve ser aceito como verdadeiro (revelação gnóstica), em seguida, deve demonstrar-se certo através de seus frutos objetivos (a magia sagrada) e, por fim, deve verificar-se absolutamente verdadeiro na luz do pensamento puro baseado na experiência subjetiva e objetiva pura (filosofia hermética)”. Diz ainda Arthur Versluis que o propósito de um ritual: “é manter a conexão com os reinos celestiais, evitar que as pessoas caiam nos caminhos das trevas cegantes, do brutal materialismo secular e da ignorância, para lembra-las de sua origem e responsabilidade”. Em resumo, o ritual não é para ser feito, é para ser vivenciado; não é algo mecânico e simplório, mas algo vivo e importante.

maat_justiceEm um plano mais individual, fazer boas obras e cumprir as suas responsabilidades para consigo mesmo e para os outros não garante a iluminação. É pitr-yana, caminho intermediário, “o caminho dos pais”, o qual proporciona um nascimento melhor, não a libertação. Porém, quem vai além disto, objetivando o autoconhecimento, visualizando e vivenciando a sua verdadeira natureza, desabrochando o ponto de rosa do coração, segue o deva-yana, “o caminho dos deuses”, e trilha rumo à iluminação. Maat é o princípio e meio de todos os reinos, mas não é o fim. Seguir Maat é ir pelo caminho dos pais, pois é conformar-se com a ordem e o equilíbrio. Como sua emanação é no sentido descendente, quanto mais “subimos” ao Céu mais próximo dela chegamos, até que ela passa a ser reconhecida como irradiação do centro do ser do indivíduo. Deste modo, indo além do equilíbrio e buscando o religare, seguimos o caminho dos deuses e, ao invés de seguir Maat, irradiamo-la através do nosso coração. A propósito, quem não cumpre suas responsabilidades e ignora o ritual, não pratica o bem e nem busca a iluminação, cai no simbólico Inferno, perdendo-se, fragmentando-se e desordenando-se.

Como Maat manifesta-se também em nível individual e coletivo, é o meio essencial para a preservação do estado da humanidade e da natureza, pois a responsabilidade humana dos que a seguem volta-se para a conservação e preservação das tradições, dos vínculos sociais, da natureza e da relação de tudo isto com o sagrado. Sendo assim, “fala maat, faze maat” é uma máxima implícita em quase todos os antigos escritos egípcios. Ptahhotep diz que “quem reverencia Maat tem vida longa; quem deseja conhecimento não tem sepultura”, mostrando uma relação direta entre a longevidade e a prática de Maat. Como a história nos mostra, o indivíduo ou a sociedade que deixa de seguir seus preceitos fragmenta-se, dissolve-se e perece.

Ainda parafraseando Ptahhotep: “Maat é grande, e sua eficácia, duradoura; não foi perturbada desde a época de Osíris. Há punição para quem viola suas leis, mas esta é desconhecida daquele que deseja obter conhecimento […]; Quando o fim está próximo, Maat permanece”. A violação das leis pode ser interpretada como a realização do mal e a essência do mal é a ignorância. Irradiar Maat é manifestar o conhecimento e esta irradiação surge primariamente através da gnosis (do interior) ou secundariamente através da transmissão do conhecimento (exterior, por alguém que o detém), transmutando assim as trevas da ignorância em luz da sabedoria. De fato, a prática e a consciência de Maat tanto para o indivíduo quanto para o reino é indispensável, pois sem isto tudo decai e se destrói, mas leva apenas ao reino dos pais e não dos deuses. Deve-se ter Harmonia Divina – “falar Maat, fazer Maat” – e ir além, alcançando a gnosis, a percepção da qual Maat deriva, fazendo com que a irradiemos de uma forma espontânea.

Quando as pessoas se entregam às volúpias, aos prazeres carnais, ignorando as cerimônias religiosas, e a sociedade leva os templos à decadência, o mundo cai no tumulto, na fragmentação e no extermínio. Por isto, a cultura egípcia impôs a adesão a Maat e a sua observância, buscando preservar a santidade de suas tradições e o caminho da libertação de seu povo, esforçando-se para dar continuidade à sabedoria do passado por intermédio da estrita observância de seus rituais e de suas formalidades.

Hsun-Tsé diz que “por meio dos ritos, o Céu e a Terra se unem em harmonia, o Sol e a Lua brilham, as quatro estações se sucedem em ordem, as estrelas e as constelações seguem seu curso, os rios correm e todas as coisas florescem; os gostos e aversões dos homens são regulados, e suas alegrias e ódios, controlados. Os que estão em posição inferior são obedientes; os que se acham em posição superior são esclarecidos; todas as coisas mudam, mas não ficam desordenadas; somente quem dá as costas aos ritos será destruído”. Hoje não há mais nenhum respeito pelo princípio de Maat e, por isto, trilhamos cada vez mais para a desordem e a dissolução e distanciamo-nos cada vez mais do estado que Hsun-Tsé dispôs.

“Falar Maat, fazer Maat” torna-se um conselho essencial para a melhora do estado atual de nossa sociedade. Não é simplesmente fazer boas obras, pois sempre há quem as faça. Mais importante do que a ação realizada é a intenção por trás dela. Maat é o equilíbrio e a harmonia entre todos os estados de manifestação do ser em todos os planos de existência que provém dos planos mais sutis. Quanto mais nos pautarmos na Harmonia Divina mais próximo de Maat ficaremos. A busca pelo espiritual também é parte do processo e os rituais devem ser executados de uma forma vivencial e não mecânica, respeitando as tradições antigas e não se distanciando delas. Também busquemos ir além, alcançar a Gnosis, para que possamos não apenas seguir os ideais de Maat, mas irradiá-los através de nós, principalmente para aqueles que mais necessitam. Quem sabe assim, no tribunal de Osíris, com a leveza de consciência gerada por Maat, alcancemos a transcendência. Cro-Maat.

Referências Bibliográficas

  • Corpus Hermeticum
  • Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarot (autor desconhecido)
  • O Caibalion
  • Os Mistérios Egípcios (Arthur Versluis)
  • Tao Te Ching
  • Upanishads

2 comentários sobre “Falar Maat, Fazer Maat

  1. Frater Soltys

    Muito bom o texto amigo. Apenas queria fazer a ressalva para que leitores desse artigo buscasse ainda ler "As 42 Leis de Ma'at", que darão luz a um padrão ético ocultista e também de se comparar as mesmas com os 10 mandamentos, leis de Manu, 12 Tábuas etc. Assim como o Senhor do Umbral é o desafio do iniciado, já Ma'at é a sua recompensa.

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