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Convergência do materialismo de Engels e o misticismo de Crowley na formação da mentalidade humana através do tempo

CONVERGÊNCIA DO MATERIALISMO DE ENGELS E O MISTICISMO DE CROWLEY NA FORMAÇÃO DA MENTALIDADE HUMANA ATRAVÉS DO TEMPO

CONVERGENCE OF MATERIALISM OF ENGELS AND MYSTICISM OF CROWLEY IN HUMAN MENTALITY FORMATION THROUGH TIME

Acauã Alves Galvão da Silva*

RESUMO: Este artigo busca apresentar a discutir a convergência histórica e epistemológica entre a obra materialismo histórica “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” de Friedrich Engels e o pensamento místico elaborado por Aleister Crowley sobre a formação da mentalidade humana através do tempo.

Palavras-Chave: Materialismo, Misticismo, História, Friedrich Engels, Aleister Crowley.

ABSTRACT: This article seeks to present to discuss the historical and epistemological convergence between historical materialism work “The Origin of the Family” of Friedrich Engels and the mystical thought written by Aleister Crowley on the formation of the human mind over time.

Keywords: Materialism, Mysticism, History, Friedrich Engels, Aleister Crowley.

engles-crowley

Introdução

A conhecida obra de Friedrich Engels (1820-1895),  “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, publicada em 1884, segundo o próprio Engels seria uma “investigação materialista da história” sobre a instituição familiar e seu evolucionismo cultural, desde a pré-história até as grandes civilizações da Antiguidade.

É apresentado no livro a divisão da história da humanidade em distintas fases, na qual é baseado no trabalho do antropólogo Lewis Henry Morgan (1818-1881). Ele classifica em estado selvagem, barbárie e civilização, na qual, “só se ocupa, naturalmente, das duas primeiras e da transição para terceira” (ENGELS, 2005: 29); já que o campo da antropologia abrange somente essas duas. A terceira fase seria objeto de estudo da Ciência da História.

Apesar dos pequenos erros, por exemplo, “a fundição de ferro não é um marco entre as fases média e superior da barbárie” (CARNEIRO, 2015) e a terminologia das três fases marcadas pelo espírito vitoriano da época em que foi escrito, “em geral, corresponde aos estudos posteriores, à luz da ciência contemporânea” (CARNEIRO, 2015).

Carneiro explica que a tese central de Engels é:

“[…] na passagem da selvageria para a barbárie, ao final do ‘comunismo primitivo’, nascem conjuntamente a opressão de classe, com o surgimento da propriedade privada, inclusive de outros homens na forma de escravos, e a opressão feminina com a subordinação da mulher ao direito paterno para garantir a transmissão de sua linhagem e propriedade.” (CARNEIRO, 2015).

Na obra de Engels encontramos as raízes históricas na qual demostram que “a origem da opressão é cultural e pode vir a desaparecer no futuro” (CARNEIRO, 2015). E por isso o trabalho de Engels continua atual e relevante para diversos movimentos políticos e sociais da contemporaneidade.

Diante disso, apresentamos o inglês Aleister Crowley (1875-1946), que em seu pensamento místico faz convergência com o trabalho de Engels, apesar das diferenças epistemológicas do materialismo histórico de Engels e a epistemologia mística religiosa de Crowley.

Aleister Crowley é considerado o mais proeminente mago do século XX e também um ícone da cultura pop, sendo uma das celebridades da capa “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles. Vemos que suas ideias chegam ao Brasil, tanto que: “junto ao parceiro Paulo Coelho, Raul Seixas fundou a sua famosa Sociedade Alternativa baseado nas ideias de Crowley” (ESSINGER, 2012).

No início do século XX, Crowley elabora uma doutrina mística filosófica chamada de Thelema. Essa palavra grega, que significa “Vontade”, resume o objetivo do seguidor da Thelema, na qual seria:

“[…] descobrir sua Verdadeira Vontade e, após isso, dedicar sua vida inteira ao seu cumprimento.

A necessidade do cumprimento da Vontade se demonstra através daquele que é considerado o único mandamento em Thelema: ‘Faça a tua Vontade, há de ser o todo da Lei’.” (MIZANZUK, 2010: 40).

Mandamento que se encontra no Livro da Lei ou “Liber AL vel Legis”. Segundo DuQuette (2007), e o próprio Crowley em seu livro “Equinócio dos Deuses”, dizem que no ano de 1904 foi realizado um ritual de invocação de uma inteligência praeter humana, chamada de Aiwass, mensageiro de Hórus, na qual anunciava uma nova era, sendo Crowley o profeta dessa nova era. Então, no papel de profeta, Crowley recebe o Livro da Lei por meio dessa entidade.

Na filosofia Thelemita, a história da humanidade pode ser dividida por períodos distintos ou aeon. O primeiro seria o Aeon de Ísis, caracterizado pelo matriarcado, seguido pelo Aeon de Osíris, que tem seu ápice os valores patriarcais. Em seguida, o Aeon de Osíris é sucedido pelo Aeon de Hórus, o que seria o presente momento em que vivemos. O Aeon de Hórus teve início em 1904, com o recebimento da mensagem do Livro da Lei e a proclamação da Lei da Thelema. A “Thelema impllica não meramente numa nova religião, mas numa nova cosmologia, uma nova filosofia, uma nova ética” (CROWLEY, 2011a).

Assim, a proposta deste trabalho é fazer um paralelo entre esses pensadores e  demonstrar seus pontos de semelhança e suas peculiaridades na evolução da humanidade, seja pelo viés materialista ou místico. E entender que a humanidade, na visão desses autores, parece se encaminhar para uma visão ideal própria.

Características dos aeons através do tempo

A historiografia fala que para refletir sobre a experiência humana através do tempo é necessário categorizar e delimitar o objeto de estudo em um período de tempo. A divisão cronológica facilita o estudo da história e é denominada de periodização. A periodização da Pré-História é dividido pelas “idades” da Pedra Lascada ou Paleolítico, caracterizado pelo domínio do fogo; da Pedra Polida ou Neolítico, inicia-se com agricultura rudimentar; e a Idade dos Metais, inicia-se com a fundição do bronze. Segundo Vere Gordon Childe (apud, CARNEIRO, 2015), podemos transpor as fases culturais da humanidade de Morgan da seguinte forma:

“[…] a revolução neolítica’ refere-se à passagem da selvageria à barbárie com o advento da agricultura, há cerca de dez mil anos, e ‘revolução urbana’ para situar o surgimento da civilização (palavra que se origina do termo latino civitas que significa justamente cidade), em torno de 3 mil anos antes de Cristo […]”

Na fase da Civilização, de acordo com a historiografia, inicia-se a periodização clássica da História, com o advento da escrita, por convenção é dividido em Idade Antiga, Idade Média, a Idade Moderna e a Idade Contemporânea. Sendo esta última a que vivemos.

Crowley edificou uma periodização diversa da historiografia oficial. Ele chamou cada período de aeon ou éon. Essa palavra deriva do grego significa um longo período de tempo ou era. Segundo a visão thelemita, cada aeon são reconhecidos três deuses egípcios: Ísis, Osíris e Hórus, cada um correspondendo a um capítulo do Livro da Lei. O aeon é caracterizado por fórmulas mágicas, na qual “se desenvolve a partir de outra mais antiga, do mesmo modo como aumentar a habilidade humana de perceber a si mesmo e o Universo” (DUQUETTE, 2007: 32).

“Para recapitular a base histórica d'O Livro da Lei, deixe-me dizer que a evolução (dentro da memória humana) apresentada três grandes passos: 1. a adoração da Mãe, quando o universo era concebido como simples alimento extraído diretamente dela; 2. a adoração do Pai, quando o universo era imaginado como catastrófico; 3. a adoração da Criança, na qual viemos a perceber os eventos como um crescimento contínuo compartilhado em seus elementos estes métodos.” (CROWLEY, 2011a, grifo do autor).

DuQuette aprofunda o pensamento de Crowley e diz que:

“O éon atual é o de Hórus, que sucedeu ao éon de Osíris, que sucedeu ao éon de Ísis. Cada éon caracterizado pelo nível de entendimento acerca da natureza e do eu que prevalece contemporaneamente e que dita a variedade da expressão mágica e religiosa que domina esses períodos.” (DUQUETTE, 2007: 33, grifo do autor).

Engels descreve os pensadores de sua época que se encontravam ligados ao pensamento bíblico, “de modo que parecia a todos que a família não havia experimentado nenhuma evolução através da história” (ENGELS, 2005:16). Mas Crowley, ao trazer a Lei da Thelema, trouxe uma “Fórmula Mágica (ou sistema de princípios) para uma nova mentalidade que surgia na época.

Aeon de Ísis

Segundo a visão Thelêmica, o Aeon de Ísis seria o primeiro estágio da evolução do homem, que ocorreu antes do Aeon de Osíris. O entendimento no Aeon de Ísis tem como símbolo a Grande Mãe. DuQuette escreve:

“Nos obscuros princípios do aeon, os humanos eram ignorantes sobre os mistérios do sexo e do nascimento, da sua causa e efeito. A vida parecia vir apenas a partir da mulher. O sangue escorria de seu corpo inexplicavelmente com o mesmo ciclo que a lua tinha. Quando o ciclo de sangramento era interrompido, a barriga dela inchava durante nove luas até que uma nova vida brotasse. Então, ela continuava nutrindo essa vida com seu leite, o sangue branco dos seios dela, e sem esse alimento, tirado diretamente de seu corpo, a nova vida morreria.” (DUQUETTE, 2007: 35).

DuQuette (2007) escreve que nada se comparava ao poder da mulher, a vida provinha dela. Eliade (2010) fala em um simbolismo complexo, na qual associa a mulher e a sexualidade aos ritos lunares, à Terra e os mistérios da natureza. A figura feminina era muito venerada, conforme é demonstrado pela forte presença feminina em diversas estatuetas encontradas, datadas do paleolítico, sendo as mais célebres as “Vênus” de Lespuges e de Willendorf.

No neolítico, “a mulher e a sacralidade feminina são promovidas ao primeiro plano” (ELIADE, 2010: 50), pois seu papel na domesticação das plantas e na agricultura são decisivos. Mas o sagrado feminino não é um “fenômeno empírico da agricultura, mas pelo mistério do nascimento, da morte e do renascimento identificado no ritmo da vegetação” (ELIADE, 2010: 51, grifo do autor). Esse mistério envolve o conceito que “a terra-mãe dava à luz sozinha, por partenogêneses. A lembrança desse “mistério” sobrevive ainda na mitologia olímpica (Hera concebe sozinha e dá à luz Hefesto e Ares)” (ELIADE, 2010: 51). No entanto:

“Poderia também ser um equívoco nosso concluir que a fórmula mágica desse período se manifestava exclusivamente pela adoração de qualquer divindade feminina antropomórfica em particular. Isso porque, assim como em todo éon, a fórmula mágica do éon de Ísis era fundamentada pela interpretação dada pela humanidade dos “fatos percebidos” da Natureza […]” (DUQUETTE, 2007: 35).

No início da fase da Civilização ou Aeon de Osíris, a Grande Deusa ainda era venerada, como descreve DuQuette (2007) ao relembrar que na cidade de Uruk, na Suméria, se encontrava o templo de Innana (Ishtar).

O estudo da formação da família, e suas alterações, deixa mais evidente a relação entre o pensamento de Engels e Crowley. O estudo de Engels (2007) revela que a forma familiar era coletiva, os homens praticam a poligamia e as mulheres a poliandria, por consequência, os filhos de uns e de outros tinham que ser considerados comuns, o que é denominado de matrimônio por grupos, característica do estado Selvagem. A ausência de ciúmes e a tolerância recíproca entre os machos adultos eram condições para essa forma mais antiga e primitiva da família. O matrimônio por grupos são marcados pela forte presença biológica do período do cio, que os homens primitivos tiveram em comum com os animais. Interessante que essa forma de família traduz o que caracteriza o início do matriarcado na humanidade; sobre isso Engels escreve, que:

“Em todas as formas de família por grupos, não se pode saber, com certeza, quem é o pai de uma criança, mas sabe-se quem é a mãe. (…) É claro, portanto, que em toda parte onde existe o matrimônio por grupos a descendência só pode ser estabelecida do lado materno, e, por conseguinte, apenas se reconhece a linhagem feminina. De fato, é isso que ocorre com todos os povos que se encontram no estado selvagem e na fase inferior da barbárie; (…) Ele(1) designa direito materno esse reconhecimento exclusivo da filiação materna e as relações de herança dela resultantes.” (ENGELS, 2005: 49).

A evolução no sistema familiar passa por algumas proibições entre os parentes consanguíneos, como o incesto. Isso leva a novas configurações familiares e nas palavras de Morgan, “esse progresso constituiu uma ótima ilustração de como atua o princípio da seleção natural” (apud, ENGELS, 2005: 46). A Família Consanguínea passa a ser denominada Família Punaluana e “uma vez proibidas as relações sexuais entre todos os irmãos e irmãs inclusive os colaterais mais distantes por linha materna, o grupo de que falamos se transforma numa gens” (ENGELS, 2005: 50, grifo do autor). Posteriormente, novas proibições de relações, primeiro dos parentes próximos, depois dos parentes distantes e, por fim até das pessoas vinculadas apenas por aliança, torna impossível na prática qualquer matrimônio por grupos, o que faz surgir a denominada Família Sindiásmica ou Pré-Monogâmica.

O matriarcado na Família Pré-Monogâmica, “em todas as tribos que se encontravam nas fases inferior, média e até em parte na superior da barbárie, a mulher não só é livre, mas também muito considerada” (ENGELS, 2005: 56). As mulheres, ou melhor, as mães constituíam a grande força dentro dos clãs, tanto que “elas não hesitavam, quando a ocasião o exigia, em destituir um chefe e rebaixá-lo à condição de simples guerreiro” (MORGAN, apud, ENGELS, 2005: 56). Engels (2005) atribui a economia doméstica comunista(2) o predomínio da mulher dentro da casa e também a impossibilidade de conhecer o pai de seus filhos.

Com o desenvolvimento das condições econômicas, a “domesticação de animais e a criação de gado haviam desenvolvido uma fonte de riqueza até então desconhecidas, criando relações sociais totalmente nova” (ENGELS, 2005, 60), estabelece-se cada vez mais a Família Pré-Monogâmica, na qual “havia introduzido um elemento novo na família, colocando junto da mãe autêntica o autêntico pai” (ENGELS, 2005: 62). As riquezas dessa matriz econômica são compartilhadas com todo o clã.

Aeon de Osíris

Entramos no domínio da história escrita, com o surgimento das cidades ao redor das fazendas. A passagem do poder matriarcal ao poder patriarcal é o marco para o início do Aeon de Osíris, essa transição inicia-se com a domesticação de animais, que coube ao gênero masculino:

“Dessa forma, à medida que as riquezas iam aumentando, por um lado conferiam ao homem uma posição mais importante que aquela da mulher na família e, por outro lado, faziam com que nele surgisse a ideia de valer-se dessa vantagem para modificar, em favor dos filhos, a ordem tradicional da herança”. (ENGELS, 2005: 63).

Decorrente disso, foram abolidos a filiação feminina e o direito hereditário materno, substituídos pela filiação masculina e o direito hereditário paterno. Com efeito, surge a família patriarcal, na qual a propriedade não pertence mais ao clã, mas sendo uma propriedade privada exclusiva do poder paterno. Da Família Pré-Monogâmica passa-se para o casamento monogâmico, que segundo Engels (2005), é a forma característica de família no estado de Civilização e sua finalidade é a de procriar filhos cuja paternidade seja indiscutível, com maior dificuldade de rompimento dos laços matrimoniais(3). Conclui Karl Marx, então, que a “primeira divisão de trabalho é a que se fez entre o homem e a mulher para a procriação de filhos” (apud, ENGELS, 2005: 72).

Para Crowley, o Aeon de Osíris seria responsável pelas formas de poder patriarcal, baseado na forma e domínio masculino, conforme atestado por Engels. Entretanto, sua concepção, diferente daquele, “começou quando homens e mulheres se tornaram cientes do Sol, reconhecendo que a fertilidade da Terra (e, consequentemente, de suas próprias vidas) dependia diretamente do poder vitalizado da luz do astro” (DUQUETTE, 2007: 36).

“Quando se tornou universalmente conhecido que sem o Sol a Terra pereceria, e que sem o sêmen do homem a mulher permaneceria estéril, um grande pêndulo de consciência racial e atitude deu uma guinada radical. A fórmula de Ísis foi alterada: a mulher traz a vida, mas a vida vem do Sol. Deus agora era Pai”. (DUQUETTE, 2007: 36, grifos do autor).

A astronomia religiosa mudaria simbolicamente da Lua ou da Terra para o culto do Sol. Vemos no Egito esse processo mais facilmente, Eliade (2010) mostra que a solarização de Amon facilitara a instauração do deus solar, pois o Sol era o único deus universalmente acessivo.

Seguindo o curso diário do Sol, na qual, “‘nasce’ e ‘morre’ todos os dias, a ‘morte’, especialmente o ‘sacrifício’, teria se tornado a principal preocupação deste Aeon” (MIZANZUK, 2010: 39). Vemos que “o curso do sol representa o modelo exemplar do destino do homem: passagem de um modo de ser a outro, da vida à morte e, depois, a um novo nascimento” (ELIADE, 2010: 113). Essa percepção da diminuição da luz do Sol a cada inverno, que resultavam na diminuição da fecundidade da Terra, e assim, “formou a fundação da fórmula mágica do éon de Osíris, a fórmula do Deus Moribundo” (DUQUETTE, 2007: 37).

“[…] a fórmula do Deus Moribundo havia se cristalizado como o mito central de incontáveis culturas e civilizações. Os deuses dos grandes cultos de mistério – Orfeu, Hércules, Dioniso, Átis, Adônis e, posteriormente, Cristo – foram assassinados e ressuscitaram.

[…]

Esses cultos eram bastantes populares. Para assegurar a ressurreição de alguém, era necessário ser iniciado e seguir a fórmula da catástrofe, amor e morte do deus. Após essas escolas de mistério, com uma forma parcialmente padronizada, o Cristianismo ortodoxo cresceu para se tornar a influência espiritual e política dominante no mundo pelos últimos 2 mil anos”. (DUQUETTE, 2007: 38).

Para DuQuette (2007), essa nova maneira de ver a natureza concedeu ao homem o conhecimento solar, o patriarcado suplantou o matriarcado e as deusas tornam-se esposas de novas divindades masculinas.

Após a Idade Média, o Renascimento trouxe velhos saberes da Antiguidade para o homem europeu. O heliocentrismo, teoria que coloca o Sol como centro do Sistema Solar, em oposição ao geocentrismo, que coloca a Terra como o centro, já era discutido desde a Antiguidade, da Índia Antiga até na Grécia Clássica. Mas somente com a comprovação matemática da astronomia que o heliocentrismo teve força para se opor ao pensamento Osiriano. Esse conhecimento transforma a cosmovisão do homem com o universo. Sobre essa transição a filosofia da thelema diz:

“Você sabe o quão profundamente nós sempre ficamos impressionados com as ideias de Sol nascente e Sol poente, e como os nossos antigos irmãos, vendo o Sol desaparecer à noite e nascendo novamente na manhã seguinte, basearam as suas ideias religiosas neste conceito de um Deus Moribundo e Ressuscitado. Essa a ideia central da religião do Velho Æon, porém nós a deixamos para trás porque embora ela parecesse estar baseada na Natureza (e os símbolos da Natureza são sempre verdadeiros), nós ainda assim superamos esta ideia que é apenas aparentemente verdadeira na Natureza. Uma vez que este grande Ritual de Sacrifício e Morte foi concebido e perpetuado, nós, através da observação dos nossos homens de ciência, soubemos que não é o Sol que nasce e se põe, mas é a terra sobre a qual nós vivemos que gira de forma que a sua sombra nos isola da luz solar durante aquilo que chamamos de noite. O Sol não morre, como acreditavam os antigos; ele está sempre brilhando, sempre irradiando Luz e Vida”.  (JONES, 2011).

Os mitos da era Osiriana começam a perder força e “as grandes instituições formadas de acordo com a mentalidade do velho Aeon de Osíris (tais como Estado, instituições religiosas ou ideias mais tradicionais de família) estariam ‘fora de sintonia’ com a Era atual” (MIZANZUK, 2010: 33). Engels também relata o afrouxamento das forças do Aeon de Osíris. Após a Revolução Industrial, as mulheres são tiradas de dentro casa para serem introduzidas no mercado de trabalho, ficando “desprovidos de qualquer base os últimos restos da supremacia do homem no lar proletário” (ENGELS, 2005: 78).

Aeon de Hórus

O terceiro capítulo do Livro da Lei fala de um novo período que se incia, o Aeon de Hórus, que na mitologia egípcia, é filho de Ísis e Osíris, e sua principal característica “seria o início da Era em que o homem deixaria de lado as obrigações impostas a si por outros e passaria a se preocupar com o cumprimento da sua própria vontade” (MIZANZUK, 2010: 33).

“A Fórmula da Criança Coroada e Conquistadora: assim como a criança é o produto físico genético de seus dois pais, e o éon de Hórus reconcilia e transcende a fórmula das duas eras que o antecederam. Desde a virada do século vemos a queda do colonialismo e a destruição dos últimos vestígios do evidente domínio patriarcal dos reis europeus. O poder temporal do Papa se foi, e as ilusões do poder espiritual onipotente da Igreja se diluíram para além da esperança do renascimento”. (DUQUETTE, 2007: 39).

Na era de Hórus, ou a era thelêmica, “todo homem e toda mulher passam a ser deuses, co-criadores do Universo” (MIZANZUK, 2010: 68). Essa criação seria a realização da Verdadeira Vontade, a participação ativa do homem na sua existência, tornando-se um Deus: “não existe deus senão o homem” (CROWLEY, 2013). Segundo Mizanzuk (2010), para Crowley só há um propósito na existência, que é a satisfação da Vontade, não estando ligada a princípios culturais, nem mesmo a direitos iguais, como a democracia.

Em comparação, para Engels a idealização do futuro não é muito fértil, sobre a mulher ele “não vislumbra nada além de uma ‘realização plena da monogamia’, pois considera que ‘o amor sexual é, por sua própria natureza, exclusivista’” (CARNEIRO, 2015). Ele diz que:

“[…] o caráter particular do domínio do homem sobre a mulher na família moderna assim como a necessidade e o modo de se estabelecer uma igualidade social efetiva entre ambos, não se manifestarão como toda nitidez senão quando homem e mulher tiverem, por lei, direitos absolutamente iguais. Então é que se há de ver que a libertação da mulher exige, como primeira condição, a reintegração de todo sexo feminino na indústria pública, o que, por sua vez, exige a supressão da família individual enquanto unidade econômica da sociedade”. (ENGELS, 2005: 80).

Carneiro (2015) fala que o tema do amor livre não se encontra em Engels, já Crowley escreve: “observem por si mesmos a queda do sentido de pecado, o crescimento da inocência e irresponsabilidade, as estranhas modificações do instinto reprodutivo com uma tendência a se tornar bissexual ou hermafrodita […]” (CROWLEY, 2011b). Segundo Mizanzuk (2010), Crowley diz que a mulher moderna não será mais escrava, sendo recompensada por se entregar livremente para seu próprio prazer.

Vemos que essa nova mentalidade, após as grandes guerras, se manifesta cada vez mais. Dessa época “vem acontecendo um combate entre as forças dos Aeons de Osíris e de Hórus, o pai autoritário contra o filho rebelde. Tal embate tem como marco os movimentos contraculturais das décadas de 1960 […]” (SANTOS, 2009: 3). O acirramento dos ânimos e a belicosidade, como expresso no Livro da Lei: “Lutai como irmãos” (AL III:59), são também características desse aeon.

Concluímos que a investigação materialista da história, Engels corrobora com a epistemologia mística de Crowley nos períodos anteriores, no entanto, no Aeon de Hórus as similaridades entre os pensadores acabam. Engels busca resgatar o antigo estado comunista igualitarista, na qual “o comunismo seria uma recriação, em mais alto nível das virtudes sociais do comunalismo primitivo” (HOBSBAWM, apud, CARNEIRO, 2015). Já Crowley, em vez de buscar um passado idílico, utiliza a dialética Hegeliana, o Aeon de Hórus seria a síntese dos períodos passados. O Aeon de Hórus é retratado como um momento de autorrealização, bem como um interesse crescente em todas as coisas espirituais.

O próprio Crowley descreve algumas das características dessa era:

“Considere o florescimento das ditaduras, somente possíveis o desenvolvimento moral está nos seus estágios iniciais, e a predominância de cultos infantis como o Comunismo, o Fascismo, o Pacifismo, as Insanidades, o Ocultismo sob quase todas as suas formas, religiões sentimentalizadas até o ponto da prática extinção.

Considere a popularidade do cinema, a tecnologia sem fios, as loterias de futebol e os campeonatos de adivinhação, todos são artifícios para for acalmar crianças rebeldes, não havendo semente de propósito nestes.

Considere o esporte, o entusiasmo pueril que ele desperta, nações inteiras perturbadas pelas disputas entre garotos.

Considere a guerra as atrocidades que ocorrem diariamente e nos tornam impassíveis e raramente preocupados.

Nós somos crianças”. (CROWLEY, 2011b).

Referências Biblográficas

Monografias:

MIZANZUK, Ivan Alexander. Faze o que tu queres: as noções de ética e moral nos escritos de Aleister Crowley em sua Thelema sob a luz da sociologia sensível de Michel Maffesoli. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010.

Livros:

CROWLEY, Aleister. O Equinócio dos Deuses. Tradução: Marcelo Motta. Rio de Janeiro: edição independente, 1976.

DUQUETTE, Lon Milo. A Magia de Aleister Crowley: Um Manual dos Rituais de Thelema. São Paulo: Madras, 2007.

ELIADE, Mircea. História das crenças e das ideias religiosas, v. 1: da Idade da Pedra aos mistérios de Elêusis. Tradução: Roberto Cortes de Lacerda. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

ENGELS, Friedrich. A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Tradução: Ciro Mioranza. São Paulo: Editora Escala, [2005?], (Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal, v.2).

Artigos Pesquisado na Internet:

CARNEIRO, Henrique. A origem da família, da propriedade privada e do Estado: Um texto atual. 29 maio 2015. Disponível em: http://blogconvergencia.org/?p=4521. Acesso em: 11 ago. 2016.

CROWLEY, Aleister. O Advento do Aeon de Hórus. Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso. 21 ago. 2011a. Disponível em: http://www.thelema.com.br/espaco-novo-aeon/ensaios/o-advento-do-aeon-de-horus/. Acesso em: 22 ago. 2016.

______. Introdução ao Livro da Lei. Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso. 18 jul. 2011b. Disponível em: http://www.thelema.com.br/espaco-novo-aeon/ensaios/introducao-ao-livro-da-lei/. Acesso em: 22 ago. 2016.

______. Liber LXXVII vel OZ. Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso. 14 jul. 2013. Disponível em: http://www.thelema.com.br/espaco-novo-aeon/livros/liber-lxxvii-vel-oz/. Acesso em: 22 ago. 2016.

ESSINGER, Silvio. A redenção do mago e ocultista Aleister Crowley: Maldito em vida, filósofo tem seu legado discutido em filme sobre Raul Seixas. 04 jan. 2012. Disponível em: http://oglobo.globo.com/cultura/a-redencao-do-mago-ocultista-aleister-crowley-3559361. Acesso em: 16 ago. 2016.

JONES, Charles Stansfeld. Saindo do Velho Aeon e entrando no Novo. Tradução: Arnaldo Lucchesi Cardoso. 10 abril 2011. Disponível em: http://www.thelema.com.br/espaco-novo-aeon/ensaios/saindo-do-velho-aeon-e-entrando-no-novo/. Acesso em: 22 ago. 2016.

SANTOS, Vitor Cei. Aleister Crowley e a contracultura. Revista do Núcleo de Estudos de Religião e Sociedade (NURES). ISSN 1981-156X 12. mai. 2009. Disponível em: http://www.pucsp.br/revistanures/Revista12/nures12_Vitor.pdf. Acesso: 22 ago. 2016

Notas

* Autor, Graduado em História pela Faculdade Estácio de Sá de Goiás, FESGO. Serventuário da Justiça do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. E-mail: acauacabsb@gmail.com.

(1) Johan J. Bachofen (1815-1887), segundo Engels, demonstra no estudo da literatura clássica grega a introdução de novas divindades que representavam ideias novas, na qual determinou as transformações sociais do homem e da mulher.

(2) Conceitua Engels que “aquilo que é feito e utilizado em comum é de propriedade comum: a casa, a horta, a canoa” (2005: 170).

(3) Engels diz “se a Igreja Católica aboliu o divórcio, é provável que seja porque terá reconhecido que, como o adultério como contra a morte, não há remédio que valhar” (2005: 76), para manter a moral no casamento monogâmico.

2 comentários sobre “Convergência do materialismo de Engels e o misticismo de Crowley na formação da mentalidade humana através do tempo

  1. Frater Soltys

    Um bom texto. Li essa obra de Engels quando estava no curso de Direito, e naquele tempo já estudava ocultismo. Igualmente, fiz minha monografia sobre a propriedade privada (publicada pelo Clube de Autores) e citei a obra. Outras obras foram importantes, como de iluministas. Hoje sou estudante de filosofia e renovei alguns conceitos, mas mantive a admiração por esses autores. Crowley via na Thelema uma forma de grande transformação social, com o Novo Aeon. Um texto que poderia ser citado, é o de Marcelo Ramos Motta, sobre a propriedade. Outro comparativo que se poderia fazer de Crowley é com Freud, haja vista a importância da sexualidade em seu sistema. No mais a obra de Engels observava a sociedade burguesa e sua confusão, em relação aos aspectos da obra, como a família e a propriedade. Um texto para refletir e observar o aspecto filosófico de Crowley, que está ainda bem claro em Liber Aleph, onde cita autores e pensamentos.

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  2. Frater Soltys

    Lembrando que sobre marxismo, escrevi obra "A Ideologia Brasileira", onde com colega demonstramos algumas falhas no pensamento marxista e a necessidade de uma nova fase socialista, para ter doutrina compatível com nosso tempo.

    Responder

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