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Texto publicado originalmente na página do facebook intitulada "Tradição Rosacruz".

Na Fama Fraternitatis, quando o primeiro grupo de Rosacruzes, composto pelos Irmãos GV, IA, IO, RC, B, GG, PD e CRC, chegou inteiramente a possuir uma visão geral da filosofia secreta e revelada, decidiram não mais continuar juntos e espalharam-se pela Europa pra propagar as suas respectivas visões dos Axiomas universais. Foi então desenvolvido um contrato sêxtuplo entre eles.

O segundo artigo deste "contrato" diz: "Ninguém deve ser obrigado, por causa da Fraternidade, a usar uma roupa especial, mas cada um deve seguir o costume do seu país".

Entenda-se como roupa uma roupagem especial e como país um local de ação. Cada propagador da Tradição Rosacruz dispõe de completa liberdade de ação, propagando as suas perspectivas dos Axiomas universais, os seus Axiomata. Cada grupo age conforme as circunstâncias e a Tradição não é e nem nunca foi engessada. Os Axiomata Rosacrucianos são os mesmos, mas cada perpetuador da Tradição irá passá-los conforme a sua perspectiva, o local de ação, a circunstância, a época e o seu objetivo. A Tradição é única, mas os métodos de ensiná-la e propagá-la diferem. Se a Tradição fosse cristalizada ela morreria. E é isto que observarmos quando estudamos não só a história do Rosacrucianismo como também a da Tradição de Mistérios Ocidental.

Por isto tantos grupos, ordens e escolas de caráter rosacruciano. A luz se manifesta sob vários aspectos para penetrar os recônditos mais sombrios. As técnicas iniciáticas podem ser diferentes e, mesmo abordando uma perspectiva diferente da Luz, ela continua sendo propagadora da Luz. Logo, cabe ao estudante buscar dentre tantos sistemas aquele que mais o apraz. Não é que existam Ordens e grupos melhores e piores que outros e sim que existem diferentes técnicas iniciáticas, cada uma refletindo uma perspectiva diferente da mesma Tradição.

O Rosacrucianismo é um só e certamente é uma postura anti-iniciática enxergar sempre a divisão e a contenda e agir sempre com parcialidade e indiscrição. Que possamos sair da postura do "ou isso ou aquilo" e adentrar naquela que diz "é isto e também aquilo". Que possamos sempre enxergar a Unidade na Pluralidade.

Trecho da obra "Novela Rosa-Cruz" (1927) [i] de Mestre Huiracocha. Este trecho específico foi enviado por nosso leitor, Acauã Silva, que o traduziu e adaptou. Os leitores do blog podem solicitar que seus textos sejam publicados no Alvorecer. Para isto, basta enviar email para contato@oalvorecer.com.br com seu artigo e iremos analisá-lo para, se aprovado, posterior publicação. 

O Rosa-cruz deve ser sonhador, idealista, refinadamente um artista. O verdadeiro Rosa-cruz será pintor, músico, poeta ainda que não saiba manejar pincéis, piano ou não saiba rimar. O Rosa-Cruz deve refinar seus sentidos e sentimentos e só o consegue cultivando com afinco os estudos herméticos. Enquanto as condições fisiológicas ou psicológicas forem diferentes o nosso poder de percepção será diferente. Por isso, do ponto de vista psicológico, o músico e o pintor são especialistas.

Mas nem por isso será um mago e nem chegará ao Plus Ultra, se não domina a paixão material, enquanto não matar seu ego animal (que se opõem ao Ego Íntimo). Temos, portanto, três categorias de seres: os insensíveis, os hipersensíveis e o meio-termo. Existem ainda os impressionáveis que surgem em certas ocasiões, mas não há nenhum que não tenha sentido a excitação sexual, o desejo de possuir uma mulher. Até os eunucos, os hermafroditas têm momentos, ainda que passageiros, em que desejam uma mulher.

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Texto publicado originalmente no blog Rosacruzes no dia 07 de agosto de 2007.

Aquele que misturou a corrente científica com a corrente literária do ocultismo foi Stanislau Guaita, descendente dos marqueses de Guaita, entre os quais se contava um monarca chamado Frederico Barbarruiva; partilhou a sua vicia entre o castelo de Alteville, perto de Deixe (Lorraine), onde nasceu, em 1861, e a sua residência em Paris. No liceu de Nancy, foi condiscípulo de Maurice Barrés, que fez dele o Saint-Phlin dos Desenraizados, e diz: «Amámo-nos e influenciámo-nos um ao outro, numa idade em que se fazem as primeiras escolhas livres» (63).

Os dois amigos, quando eram estudantes de filosofia na aula de Burdeau, liam juntos, todas as noites, Baudelaire. Entregaram-se à química e à medicina, cuidando de camponeses da região. Estanislau de Guaita foi, inicialmente, um poeta simbolista e publicou três colectâneas de poemas: Os Pássaros de Passagem (1881), A Musa Negra (1883) e Rosa Mística (1883). Mas, a 10 de Outubro de 1884, escrevia a Barrés que tinha começado durante o Verão a estudar a Cabala: «Lê os livros de Eliphas Lévi, (o abade Constant) e verás que nada há mais belo do que a Cabala. E eu, que sou bastante forte em química, espanto-me de ver até que ponto os alquimistas era verdadeiros sábios». Aprendeu o hebreu para aprofundar o Zohar, referindo-se à importante glosa de Knorr von Rosenroth, Kabala Denudata, publicada em dois volumes, em Francoforte, no fim do século XVII.

...continuar lendo "Stanislas de Guaita e a OKRC"

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Trecho do Perguntas e Respostas do sítio eletrônico da Confraternidade Rosacruz (CR+C) disponibilizado no grupo Tradição Rosacruz no Facebook pelo membro Felipe Sardella.

Porque existem muitas Ordens Rosacruzes, e como posso saber qual dela é verdadeira?

Para responder esta questão, gostaria de parafrasear a resposta de Gary L. Stewart (Imperator místico rosacruciano da Linhagem de HSL, atividade essencialmente diferente de Imperator da AMORC atual - grifo meu) a uma pergunta similar:

A “Ordem” Rosa-Cruz verdadeira é a que está no coração da pessoa, significando que um Rosa-Cruz verdadeiro pode existir em qualquer Ordem. A organização é meramente um veículo no qual a essência da R+C se manifesta. Em outras palavras, uma organização, em virtude do propósito e dos motivos de seus membros pode penetrar na essência R+C e ser verdadeira. Justamente por isso, uma organização pode se perder se seus membros esquecerem o que é importante. Com isto em mente, vamos examinar como uma organização Rosa-Cruz vem a existir.

O Rosacrucianismo é um movimento tradicional e iniciático que às vezes se solidifica em uma ordem ou organização por um periodo de tempo. Isto significa que um indivíduo ou um pequeno grupo de indivíduos que tenha sido adequadamente treinado e iniciado no sistema Rosa-Cruz trabalharão juntos para um propósito e objetivo comuns. Eis como efetivamente algumas das Ordens Rosa-Cruzes começaram no início do século XX — como a AMORC, a Fraternidade Rosa-Cruz, a Ordem Cabalística da Rosa-Cruz original, etc.

O que verdadeiramente é indicativo da autencicidade de uma organização Rosa-Cruz (além de sua linhagem), é a atitude expressada por aquela organização e seus feitos. A tradição R+C é muito específica a respeito desses aspectos. Portanto, podemos dizer que o que torna uma Ordem Rosa-Cruz verdadeira são os membros, o que eles têm em seus coracões, e não a administração. As organizações, que podem ser comparadas ao corpo fisico, tendem a envelhecer, corromper-se e por fim morrer. Contudo, devemos lembrar que a tradição e a iniciação que levam ao autodesenvolvimento interior do indivíduo sincero são a Alma e o Espírito do caminho R+C. Isto é o que perpetua o Movimento Rosa-Cruz a despeito do que uma organização faz ou não faz.

Com isto em mente, não deveria ser realmente de todo surpreendente que existam muitos grupos Rosa-Cruzes por toda parte. Alguns são legítimos em virtude da atitude expressada, e isto significa que eles são abertos e tolerantes, encorajam seus membros a buscarem a verdade e a aplicarem de acordo com a interpretação individual, não são opressivos, supressivos, arrogantes, etc. Alguns são falsos porque esses ideais não estão adequadamente representados. Para descobrir qual é qual você precisa ser cauteloso com eles. Um bom conselho seria avaliar o mérito de uma Ordem através de como você a intui e por como seus membros respondem às suas indagações. Uma Ordem genuína tentará responder suas perguntas tão aberta e honestamente quanto possível; eles não tentarão lhe influenciar de uma forma ou de outra, e não se dirigirão a você com condescendência desdenhosa (por exemplo: “não podemos discutir tal e tal assunto com você porque você não estudou nossos Graus superiores, porque você não é um membro, etc.”).

Também, mantenha em mente que há diferentes tipos e linhagens de Rosacrucianismo e, na maioria, a dissensão vem das diferenças na interpretação da ontologia R+C. Mas aquilo que é realmente o sinal de identificação do verdadeiro Rosacrucianismo é a enfase na liberdade e na responsabilidade pessoal. Se você constatar qualquer tipo de supressão desses princípios em qualquer grupo R+C, então saberá que aquele grupo não representa o ideal Rosa-Cruz nem qualquer de suas linhagens tradicionais.

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CAPÍTULO 1

1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

2 Ele estava no princípio com Deus.

3 Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

4 Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens;

5 a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.

6 Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João.

7 Este veio como testemunha, a fim de dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele.

8 Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.

9 Pois a verdadeira há consentido no conselho e nos atos dos chegando ao mundo.

10 Estava ele no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, e o mundo não o conheceu.

Comentário: a Palavra (Logos) é a espada de Cristo, por onde as coisas surgiram em emanação primeira. Assim todo o átomo e mesmo desde a mônada, houve a penetração dessa vitalidade. Esse Logos é um Espírito, que é o Cristo Cósmico e Místico, e encarna através da Virgem (a matéria), assim que vem como Espírito Santo. Ademais, o Logos-Solar ou Cristo-Solar se encarna na constelação de Virgem, e por isso a criança é para ser degolada por Herodes (o Logos ser degolado pela matéria). O Logos é assim crucificado na cruz da matéria, ou seja, nos quatro elementos. Também é ao mesmo tempo o homem celeste, o Novo Adão, que está crucificado no Universo. Já tratamos dele como as esferas da Árvore da Vida, e assim guarda as emanações de Deus, do Altíssimo, Grande Rosto. Essa encarnação não pode ser conhecida sem a iluminação, segundo Jacob Böehme, não bastando mero estudo das Escrituras. É o Homem-Deus, como se referem os Martinistas. A árvore é Cristo e o ramo é Jesus. Volta à lição de Angelus Silésius. Essa palavra também nos leva ao mundo da Imagem Verdadeira, ao paraíso, segundo Taniguchi. Pelo Logos solar que as coisas foram feitas e existem, e do Sol (Universal) que veem e para onde retornam. Aqui se incluem a Criação dos anjos e hierarquias celestes, pois o Adão antes da queda possuía a “vestidura de luz”, era um com Cristo, e assim ordenava e dominava os animais (seres viventes, aves do céu, anjos, hayot etc). O Novo Adão ou Cristo é o Salvador, que livra da escravidão do materialismo e ego (Diabo). Deus tornou-se homem para restaurá-lo, segundo Böehme. E os anjos caídos e Lúcifer teriam um papel de fogo, sendo tal fogo uma relação com a serpente astral, luz astral inferior. A falta de castidade levando a se perder na nona esfera da árvore da vida, encontrando assim a árvore da morte, demoníaca. A queda é uma queda dimensional, e o Verbo lembra que as coisas foram feitas perfeitas. O testemunho da luz é de Cristo, de sua vestidura de luz, aquele “corpo glorioso” a que ainda teremos. Como já falei em livro “Bíblia e Misticismo”, o Verbo é muito um som, um mantra primordial. E cada Era ou Aeon tem sua “Palavra”.

11 Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.

12 Mas, a todos quantos o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus;

13 os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus.

14 E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai.

15 João deu testemunho dele, e clamou, dizendo: Este é aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim, passou adiante de mim; porque antes de mim ele já existia.

16 Pois todos nós recebemos da sua plenitude, e graça sobre graça.

Comentário: o nome é Yeheshua, que é uma referência ao nome divino de Jesus. É o nome de Deus, o tetragrama, adicionado da letra Shim, que significa a descida do Espírito Santo. João é a porta estreita, é um dos messias, dos dois a que a tradição dos essênios e as messiânicas já esperavam. Uma porta triangular para a iniciação. João é ao mesmo tempo o passado e o futuro, e assim também um João escreveu o livro do Apocalipse ou Revelação. Um dos dois messias teve sua vida mais exposta, e entre eles trocavam ensinamentos e acabou o Verbo se fazendo carne, na forma de Cristo Interno, naquele batismo de fogo. A pessoa de João fez o batismo de água, que era a iniciação. João é também o João interno, segundo Pistis Sophia, e assim é a reencarnação do Elias. João sendo o precursor, aquele que prepara o caminho do Cristo Íntimo, segundo Samael Aun Weor. O iniciado desce assim ao inferno, semelhante a o que fez o Cristo, antes de encontrar o Reino. Sobre o Verbo se fazer carne, disse Böehme: “Quando o Verbo se colocou em movimento para a revelação da vida, ele se revelou na essencialidade divina, na água da vida eterna; ele a penetrou e se tornou súlfur, ou seja, carne e sangue; produziu a tintura celestial, que envolve e preenche a Divindade, onde a sabedoria de Deus permanece eternamente com a magia divina. Compreenda corretamente: A Divindade desejou tornar-se carne e sangue; embora o puro e imaculado Deus permanece espírito, tornou-se o espírito e a vida da carne, operando na carne; assim, quando penetramos, através de nosso desejo, em Deus, nos doando totalmente a ele, podemos dizer que penetramos a carne e sangue de Deus, vivemos em Deus, pois o Verbo se fez homem e Deus é o Verbo” (A Encarnação de Jesus Cristo). Portanto, necessária se faça a “reintegração” a Cristo, que esteve também no ramo do adepto Jesus, para nos mostrar o caminho e revelar a verdade. Carne não significa apenas o corpo, mas a dimensão da matéria como um todo.

17 Porque a lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.

18 Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer.

19 E este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para que lhe perguntassem: Quem és tu?

20 Ele, pois, confessou e não negou; sim, confessou: Eu não sou o Cristo.

21 Ao que lhe perguntaram: Pois que? És tu Elias? Respondeu ele: Não sou. És tu o profeta? E respondeu: Não.

22 Disseram-lhe, pois: Quem és? para podermos dar resposta aos que nos enviaram; que dizes de ti mesmo?

23 Respondeu ele: Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías.

Comentário: Não se pode ver a Face senão através de seu anjo, Metraton, que em muito se identifica com o Cristo. Esse é o Grande Rosto, onde está o Pai, o Ancião dos Dias, e que está acessível através da esfera da árvore da vida de tipharet, ou Cristo. O Cristo que existe em cada um de nós pode por fim revelar o Pai, e esse encarna, ressuscita e sobe ao céu. Perguntar pelo seu paradeiro é uma forma profana de reagir, uma vez que renascemos em Cristo. Não se trata apenas de um homem como insistimos em refletir nessa obra. Cristo é Heli, o homem primordial, segundo Pasqually. Entende Vicente Velado: “Não se pode confundir o veículo físico chamado Jesus com o Cristo Cósmico nele manifestado”.

24 E os que tinham sido enviados eram dos fariseus.

25 Então lhe perguntaram: Por que batizas, pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?

26 Respondeu-lhes João: Eu batizo em água; no meio de vós está um a quem vós não conheceis.

27 aquele que vem depois de mim, de quem eu não sou digno de desatar a correia da alparca.

28 Estas coisas aconteceram em Betânia, além do Jordão, onde João estava batizando.

Comentário: O João era o próprio messias, um dos dois, e assim oculto, uma porta ou portal. O batismo é uma purificação, exigência de iniciação.

29 No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

30 este é aquele de quem eu disse: Depois de mim vem um varão que passou adiante de mim, porque antes de mim ele já existia.

Comentário: Uma simbologia messiânica. O Cristo é sacrificado na semelhança do cordeiro, pois em toda a páscoa o Logos-Solar se sacrifica pela natureza, que depois se renova nos 4 elementos. A palavra INRI se refere à renovação pelo fogo e aos 4 elementos. A Era ou Aeon de Áries, o “cordeiro”. Também vemos noutros evangelhos o relato da pescaria, de peixes, que se refere à Era de Peixes. O Cristo-Solar passando pelas constelações e tendo a experiência do Cósmico, bem como em todos nós. Tira o pecado porque o mundo evolui através Dele. O sacrifício de Deus é limitar os Seus poderes no plano material, encarnar. É a Lei do Sacrifício. O mineral se sacrifica pelo vegetal, o vegetal pelo animal, e ambos pelo homem. O homem sacrifica seus animais internos, impulsos, por Deus. E Maimônides fala de cordeiros como vestimentas, que ocultam a sabedoria.

31 Eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, é que vim batizando em água.

32 E João deu testemunho, dizendo: Vi o Espírito descer do céu como pomba, e repousar sobre ele.

33 Eu não o conhecia; mas o que me enviou a batizar em água, esse me disse: Aquele sobre quem vires descer o Espírito, e sobre ele permanecer, esse é o que batiza no Espírito Santo.

34 Eu mesmo vi e já vos dei testemunho de que este é o Filho de Deus.

Comentário: O batismo é a iniciação nos mistérios de Cristo. Não se refere a uma religião, mas a uma vivência interna e cósmica, pessoal (pegar a cruz e segui-lo...). O batismo da água é um grau inicial, já o batismo de fogo é grau avançado. O batismo de fogo é o do Espírito Santo, que dá as 12 faculdades e que possibilita vestir a vestimenta, para assim adentrar nos aeones. A pomba é um animal de Vênus, logo nos leva a pensar na doutrina do amor. Também reflete a paz. Outro símbolo parecido é a fênix, que assim ressuscita de si mesma pelo fogo. O pio pelicano que sustenta seus filhotes com o sangue do peito. O caminho do coração. Bricaud ainda fala no batismo de ar, que estaria junto ao de fogo, chamado consamentum, e pelo qual se torna o homem “filho de Deus”. Sem esse batismo de fogo e ar não se pode entrar no Pleroma. O batismo de fogo e ar se dava na idade mínima de 20 anos.

35 No dia seguinte João estava outra vez ali, com dois dos seus discípulos

36 e, olhando para Jesus, que passava, disse: Eis o Cordeiro de Deus!

37 Aqueles dois discípulos ouviram-no dizer isto, e seguiram a Jesus.

38 Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que buscais? Disseram-lhe eles: rabi (que, traduzido, quer dizer Mestre), onde pousas?

39 Respondeu-lhes: Vinde, e vereis. Foram, pois, e viram onde pousava; e passaram o dia com ele; era cerca da hora décima.

40 André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João falar, e que seguiram a Jesus.

41 Ele achou primeiro a seu irmão Simão, e disse-lhe: Havemos achado o Messias (que, traduzido, quer dizer Cristo).

42 E o levou a Jesus. Jesus, fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho de João, tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro).

Comentário: Hora décima devia ser umas 4 da tarde. Messias é aquele que é ungido. A unção se dava com óleo santo. Pedro é a pedra fundamental do “templo”, e a pedra de tropeço. Refere-se muito a castidade, quando vemos a trajetória dele. O Cordeiro de Deus está sacrificado desde a fundação do mundo.

43 No dia seguinte Jesus resolveu partir para a Galiléia, e achando a Felipe disse-lhe: Segue-me.

44 Ora, Felipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro.

45 Felipe achou a Natanael, e disse-lhe: Acabamos de achar aquele de quem escreveram Moisés na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José.

46 Perguntou-lhe Natanael: Pode haver coisa bem vinda de Nazaré? Disse-lhe Felipe: Vem e vê.

47 Jesus, vendo Natanael aproximar-se dele, disse a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!

48 Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus: Antes que Felipe te chamasse, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira.

49 Respondeu-lhe Natanael: Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és rei de Israel.

50 Ao que lhe disse Jesus: Porque te disse: Vi-te debaixo da figueira, crês? coisas maiores do que estas verás.

51 E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem.

Comentário: Os 12 Apóstolos são as 12 potestades, que também são interiores ao homem. Eles levam aos 12 aeones e podemos pensar nos mesmos como representantes das 12 tribos de Israel. Outrossim, vemos aqui mais uma vez as 12 constelações do céu, uma referência aos animais sagrados (seres viventes ou hayot), que são descritos em Gênese, Ezequiel e Apocalipse. A relação com os anjos se vê estreita e os poderes celestes e divinos aparecem no Cristo Místico e Mítico. A visão do filho do homem é usar de todas as vestimentas e trafegar pelas dimensões, a “Escada de Jacó”, onde anjos sobem e descem. O Filho do Homem é o homem celeste, Adão Kadmon, que partilha do mesmo símbolo das esferas ou sephirot da árvore da vida. Refere-se ao Cristo Cósmico e Interno, e por isso do céu se abrir, esse que vem na experiência mística da teofania.

(Parte de livro Bíblia e Mistérios)

Texto do Irmão +Tácitus compartilhado originalmente no blog Rosacruzes em 24 de março de 2015.

Todo e qualquer estudante curioso de alguma das ditas ciências ocultas, em determinado momento, se já não se deparou, irá se deparar com o estranho nome PAPUS. Aquele que hoje pertence a qualquer organização de caráter esotérico, ouvirá muito seu nome em diversos temas e, o profundo investigador nesse tema constatará que no misticismo ocidental, talvez seja o nome visto com maior frequência.

O motivo disso? Simples, ao olhar sua vasta bibliografia, a profundidade com que diversos temas foram abordados mas também, pela reputação adquirida por seu conhecimento com sua mente “enciclopédica” perspicaz e sua peculiar capacidade de síntese, fez com que seu nome se espalhasse por toda a Europa e além dela. Somamos a isso seu carisma e magnetismo pessoal como testemunharam seus amigos e irmãos mais próximos por diversas vezes, tornou-se então a referencia mais procurada dentro do meio ocultista e das ordens esotéricas do final do século XIX e início do XX.

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Texto de Acauã Alves Galvão. Os leitores de nosso blog podem enviar seus textos para que possamos publicá-los por aqui. Enviem o texto para o e-mail contato@oalvorecer.com.br.

THELEMA E O ROSACRUCIANISMO

No início do século XX, a Lei da Thelema, sistema de filosofia e magia desenvolvido por Aleister Crowley (1875-1947) – To Mega Therion – teve grande influência filosófica na cultura esotérica, na cultura pop e também foi precursora do pensamento pós-moderno. No meio esotérico, a Lei da Thelema também influenciou outras ordens que não estavam ligadas diretamente a Crowley, ordens ligadas pelo fenômeno da O.T.O. (Ordo Templi Orientis), como a  FRA (Fraternitas Rosicruciana Antiqua) do Dr. Krumm-Heller (1876-1949) – Mestre Huiracocha – foco do nosso estudo.

Muitos argumentam que os ensinamentos do Dr. Krumm-Heller eram antagônicos com do Aleister Crowley, e que não possuíam nenhuma ligação esotérica, principalmente na questão da magia sexual. Mestre Huiracocha revela que uma das chaves da Magia Sexual é a não ejaculação durante o ato mágico. Em seu livro, Logos Mantram Magia, ele afirma: “declaro que, para mim, a vocalização, o uso dos mantras e a oração, mediante o despertar das secreções sexuais, é o único caminho de chegar a meta, e o resto é, infelizmente, uma perda de tempo”. Diante disso, Peter Koenig, classifica o ensinamento do Dr. Krumm-Heller como Gnosticismo Homeopático; e Gnosticismo Ascético do Samael Aun Weor – aonde evita-se ejaculações, mesmo com a sua esposa – e classifica de Gnosticismo Libertino do Crowley, na qual não há qualquer tipo de proibição quanto ao sexo.

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Aspectos místicos do Natal

“Ora, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. E, entrando o anjo onde ela estava disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo. Ela, porém, ao ouvir estas palavras, turbou-se muito e pôs-se a pensar que saudação seria essa. Disse-lhe então o anjo: Não temas, Maria; pois achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Este será grande e será chamado filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi seu pai; e reinará eternamente sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim” (Lucas 1: 26-33).

No dia 25 de Dezembro vemos o tempo da luz, da vida e do amor. Do ponto de vista cósmico o Cristo-Solar nasce no signo de virgo (de uma Virgem) e caminha na noite mais escura do ano no hemisfério norte, a que antigos chamavam de solstício de inverno, sendo Ele a luz do mundo, que supera as dificuldades do inverno e sempre retorna com a fertilidade e boa colheita a cada ano. Nasce assim de forma imaculada, sem nenhum pecado. Comparando a isso, existia uma série de cultos e que tiveram a data de 25 de Dezembro como o nascimento de seus mestres (deuses como Krishna na Índia, Hórus no Egito, Buda, Zoroastro no Irã, Mitra e tantos outros), anunciando assim a salvação de cada Era, presentemente com o maior que conhecemos, Jesus, o Cristo, ou Yeschouá.

Sobre Jesus histórico, não sabemos da data de seu nascimento. Mas muitos dizem que a Igreja usou a data com base na comemoração do Deus romano “Invicto”, o que é apenas suposição, tendo em vista o que vemos sobre a antiguidade da data e aspecto comum em várias nações e crenças. Mas Cristo é crucificado no Equador, e assim o aspecto cósmico ganha ainda mais símbolos. Nasceu assim Jesus quando havia uma treva espiritual, em meio a descrenças e poderes cada vez mais desumanizadores e para revelar o Novo Adão, o Novo Homem que estava por surgir, o qual se pautaria nos seus elevados preceitos morais, antes apenas compreendidos por raros filósofos e iniciados, agora disponíveis a todos os que “buscam” a reintegração com Deus, e a encontram pelo batismo (nas águas que purificam e transformam, na mãe celeste, Virgem Maria, Biná da cabala). Também em Cristo Cósmico vemos o signo estelar de Áries, o cordeiro de Deus, mais uma vez sacrificado no mundo, para a remissão dos pecados e da queda (da esfera cabalística do Reino, que antes estava próxima ao Grande Rosto, a presença do Senhor Pai, Hockmah/Sabedoria da cabala, que caiu de uma esfera espiritual para uma esfera material, Assiah).

O Novo Homem assim renasce e comemora o Natal no seu Cristo Interno, pois é um Cristo em formação. Desta forma, está escrito: “Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos contidos em ordenanças, para criar, em si mesmo, dos dois um Novo Homem, assim fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um só corpo, tendo por ela matado a inimizade; e, vindo, ele evangelizou paz a vós que estáveis longe, e paz aos que estavam perto; porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito” (Efésios 2: 13-18). E esse é o caminho do místico martinista, pela oração, caridade e compreensão mística desse mistério.

Voltando aos símbolos do Natal, temos a árvore, hoje tão adornada com enfeites, bolas e luzes. Essa árvore pode ser entendida como a árvore da vida, descrita no livro do Gênesis bíblico, e seus enfeites deveriam ser em verdade, frutos. Existia no princípio, antes do mercantilismo, as árvores naturais e onde eram colocadas ou maçãs, ou velas, isso muito antigamente. Isso se deu por herança de tradições alemãs, polonesas e inglesas, e com imigrantes que continuavam a sua tradição de cortar alguma árvore para comemorar o Natal, já no Novo Mundo, na América. Da tradição teutônica ou germânica, sabemos que a comemoração da árvore é anterior, e que leva a árvore sagrada do Deus Odin, o maior do panteão nórdico, o Pai, de sabedoria e outras qualidades extraordinárias, e sua árvore Yggdrasil, que faz sombra ao Universo, sendo a “árvore do conhecimento”, uma árvore assim gigante e dos tempos dos gigantes (nos lembra os personagens do tempo de Noé...). Assim sobre as datas comemorativas, lembra um texto martinista do grupo Hermanubis, disponível na Internet: “Se as pessoas fossem um pouco mais curiosas, observariam que absolutamente nenhuma das festas até hoje comemoradas encontram-se nas escrituras sagradas, e quando existe uma festa com o mesmo nome bíblico, não obedece a prescrição de ser comemorada na data determinada. Por mais que o leitor procure, não encontrará em nenhuma bíblia oficial o dia 25 de Dezembro como data natalícia de Yeschouá o Grande Arquiteto do Universo, ou o dia 31 de Dezembro como um dia que marca para a mudança do ano”. E na Europa anterior ao cristianismo se comemorava a época com fogueiras nas árvores (comemoração do fogo), e com relação às colheitas futuras.

A estrela que guiou os magos até o mestre era uma marca dos magos, ou mesmo simbolizada por um pentagrama, estrela de 5 pontas ou mesmo um hexagrama, de 6 pontas. Seus presentes também tinham simbologia espiritual. Sobre a data, a igreja oriental celebra em 6 de janeiro. E Lucas que citei no início, foi referido em um censo de Quirino, falado em papiros egípcios. Ainda por correção de calendário, seria o nascimento em data de 5 ou 4 a.C. Belém é ponto comum entre Davi e Jesus, e o nascimento assim de um messias teria de ocorrer nessa localidade, já por profecias. A estrela de Belém é assim o Místico Sol da Meia-Noite, a que certos místicos se referiam, que nos traz ao mundo os raios de luz, vida e amor. Assim Cristo é Thifaret da cabala, a beleza divina que une todos os outros atributos da Luz Maior do Pai, sendo representante do adepto, centro da árvore da vida. Disse o Rosacruz Max Heindel: “Ao mesmo tempo devemos exaltar Deus em nossas próprias consciências, aceitando a afirmação bíblica de que Ele é espírito e que não podemos tentar representar a Sua imagem, nem retratá-Lo, pois Ele a nada se assemelha, quer nos céus quer na Terra. Podemos ver os veículos de Jeová circulando como satélites em volta de diversos planetas. Também podemos ver o Sol, que é o veículo visível de Cristo. Mas o Sol Invisível, que é o veículo do Pai e fonte de tudo, este só pode ser visto pelos maiores clarividentes e apenas como a oitava superior da fotosfera do Sol, revelando-se como um anel de luminosidade azul-violeta por trás do Sol. Mas nós não precisamos vê-Lo. Podemos sentir Seu amor e essa sensação nunca é tão grande como na época do Natal, quando Ele nos está dando o maior de todos os presentes: o Cristo do novo ano”.

 

O Natal envolve esse segredo solar, e vemos o nascimento de Cristo como proveniente desse significado cósmico, naquele Sol que em certo momento está em ângulo com constelação de Virgem, passa pela constelação de Peixes, cujo símbolo vemos em adesivos colados em carros, passa pela constelação de Cordeiro (Áries) e vence o sinistro inimigo, o bode (constelação de Capricórnio). Assim vemos todos esses símbolos refletidos no sacrifício anual, em que essa maravilha da Criação, o Sol, nos doa a vida. Recentemente presenciamos um filme sobre Noé, onde percebemos esse Cristo, nos salvando do mundo perdido, através do dilúvio do batismo. Nesse filme mostram Adão e Eva com suas vestes de luz, que teremos um dia de recuperar, sobrevivendo a morte e descobrindo o Reino de sabedoria e a ressurreição da vida eterna. Tudo isso nos foi herdado pela sabedoria gnóstica, de um pequeno grupo cristão excluído de estratégias políticas.

Vemos que mesmo com o Natal de São Nicolau, e de nosso Papai Noel, há ainda um sentimento de alegria, de solidariedade, e de uma luz maior que o comum. Essa iluminação purifica corações, e faz do nascimento do Cristo Interno a igreja verdadeira, aquela que nunca será destruída ou que se corromperá com idolatria. Ao mesmo tempo o Cristo Cósmico que vemos na eternidade, e que morre apenas simbolicamente, para nos deixar a vida eterna e a salvação. Esse Natal pode ser para sempre comemorado, sem medo de estar contrariando o Pai do Céu.

(Retirado de livro Bíblia e Misticismo)

 

 

hipocrisia_

Texto de René Guénon, retirado de uma publicação no blog Rosacruzes.

Já dissemos alhures, que existe um fenômeno que poderíamos chamar de "contra-iniciação", ou seja, uma coisa que se apresentaria como uma iniciação e que até mesmo pode dar a ilusão de ser verdadeiramente uma iniciação, mas que segue o caminho inverso da verdadeira iniciação.

Não obstante, comentamos, que esta designação exige algumas reservas; o fato é, que se tomássemos no sentido estrito, poderíamos criar a crença de uma espécie de simetria, ou por assim dizer de uma equivalência (ainda que no sentido inverso), que, sem duvida, forma parte das pretensões dos que se ligam a aquilo que tratamos aqui, e que não existe e não pode existir na realidade.

Sobre este ponto convém insistirmos especialmente, já que muitos, deixam-se enganar pelas aparências, imaginam que há no mundo duas organizações opostas que disputam a supremacia, concepção errônea que corresponde a aquela, que na linguagem teológica, põe Satã no mesmo nível de Deus, e que, com ou sem razão, se atribui comumente aos Maniqueus.

Esta concepção, conforme assinalaremos em seguida, vem a ser, o mesmo que afirmar uma dualidade radicalmente irredutível, ou em outros termos, negar a Unidade suprema que está além de todas as oposições e antagonismos; uma negação assim, é tema dos mesmos aderentes a "contra-iniciação", e algo que não nos deve surpreender; mas isso mostra ao mesmo tempo que a verdade metafísica, até nos seus princípios mais elementares, é para eles totalmente estranha, e por isso sua pretensão se aniquila sozinho.

Importa-nos assinalar, antes de mais nada, que, em suas próprias origens, a "contra-iniciação" não pode apresentar-se como algo que surgiu de forma independente e autônoma: se houvesse constituído-se espontaneamente, não seria nada mais que uma invenção humana, e não se distinguiria assim da pura e simples "pseudo-iniciação".

Para que seja mais que isso, e de fato ela é, é necessário que, de certo modo, proceda da fonte única que se liga toda a iniciação, e, mais genericamente, a tudo que manifesta em nosso mundo num elemento "não-humano" procedente dela, se manifestando por uma degeneração que chega até a uma "inversão" que constitui aquilo que podemos chamar propriamente de "satanismo". Se vê pois que, de fato, se trata de uma iniciação desviada e desnaturada, e que, por isso mesmo, não tem direito de ser qualificada verdadeiramente de iniciação, posto que não conduz ao fim essencial desta, e inclusive faz distanciar o ser dela em vês de aproxima-lo.

Não basta pois, falarmos aqui de uma iniciação truncada e reduzida a sua parte inferior, como pode ocorrer também em certos casos; a alteração é muito mais profunda; mas há nela, entretanto, como dois estados diferentes num mesmo processo de degeneração. O ponto de partida é sempre uma rebelião contra uma autoridade legítima, e uma pretensão de uma independência que não poderia existir, como tivemos a oportunidade de explicar num outro momento(1); disso resulta imediatamente a perda do contato efetivo com um centro espiritual verdadeiro e, portanto, a impossibilidade de alcançar os estados supra-individuais; e, naquilo que todavia ainda subsiste, o desvio não poderia ir mais que agravando-se seguidamente, passando por graus diversos, para chegar, nos casos extremos, até esta "inversão" da qual acabamos de falar.

Uma primeira conseqüência disto, é que a "contra-iniciação", quaisquer que possam ser as suas pretensões, não é na verdade mais que um beco sem saída, já que é incapaz de conduzir o ser, a mais adiante da condição humana; e é neste estado mesmo, pelo fato de sua "inversão" que a caracteriza, desenvolve modalidades que são as de ordem mais inferiores. No esoterismo islâmico, se diz que quem se apresenta diante de certa "porta", sem ter chegado a ela por uma via normal e legítima, vê esta porta se fechando diante dele, e é obrigado a voltar atrás, porém, não como um simples profano, o que agora adiante é impossível, mas sim como sâher (bruxo ou feiticeiro). Não poderiam ter expressado com maior nitidez sobre aquilo que tratamos.

Outra conseqüência, em conexão com a anterior, é que, ao fazer-se quebrada a conexão com o centro, a "influencia espiritual" se perde; e isto já basta para que mostre, que aqui não trata-se realmente de iniciação, posto que esta, como explicamos anteriormente, está essencialmente constituída pela transmissão desta influência. Não obstante há todavia, algo que se transmite, sem o qual, falaríamos de novo da "pseudo-iniciação" desprovida de toda a eficácia; mas não se trata mais de que uma influência de ordem inferior, "psíquica" e não "espiritual", e que abandonada dessa maneira, sem o controle de um elemento transcendente, toma de certo modo inevitavelmente um caráter "diabólico" (2).

É fácil compreender, entretanto, que esta influencia psíquica pode imitar a influência espiritual em suas manifestações exteriores, ao ponto de aqueles que se detém nas aparências, chegam a equivocar-se à respeito, pois a primeira origina-se na mesma ordem de realidade, na qual se produzem estas manifestações (não se diz proverbialmente, e num sentido comparável a este, que "Satã é o imitador de Deus"?); e que a imitam, poderíamos dizer ainda que da mesma forma, os elementos evocados pelo necromante imitam um ser consciente evocado no outro caminho(3).

Este fato, diga-se de passagem, demonstra que alguns fenômenos idênticos entre si, podem diferir completamente em suas causas profundas; e aqui se acha uma das razões pelas quais convém do ponto de vista iniciático, não conceder nenhum valor a tais fenômenos, porque, quaisquer que fossem, nada podem provar à respeito da questão da pura espiritualidade.

Dito isto, podemos precisar os limites dentro os quais a "contra-iniciação" é suscetível de opor-se a verdadeira iniciação: é evidente que estes limites são os do ser humano com suas múltiplas modalidades; dito de outra maneira, a oposição não pode existir senão no domínio dos "pequenos mistérios", enquanto que o dos "grandes mistérios", que se refere aos estados supra-humanos, está por sua mesma natureza, além de tal oposição, pois este está inteiramente fechado a tudo o que não é conhecido como verdadeiro na iniciação, segundo a ortodoxia tradicional (4).

Ao que se refere aos "pequenos mistérios", haverá, entre a iniciação e a "contra-iniciação", esta diferença fundamental: numa, não será mais que uma preparação para os "grandes mistérios"; na outra, se tornarão forçosamente como um fim em si mesmos, ao estar proibido o acesso aos "grandes mistérios". Entretanto podem ter muitas outras diferencias com um caráter mais específico; mas não entraremos aqui nestas considerações de importância muito secundária, do ponto de vista no qual nos situamos, e que exigiriam um exame detalhado de toda a variedade de formas que pode revestir a "contra-iniciação".

Naturalmente, pode ser que possam constituir-se centros nos quais estarão conectadas as organizações que dependem da "contra-iniciação"; mas se tratará de centros unicamente "psíquicos", e não de centros espirituais, ainda que aqueles possam, em razão do que indicávamos mas acima como ação das influencias correspondentes, tomar mais ou menos, completamente suas aparências exteriores.

Por outra parte, não haveria que surpreender-se de que esses próprios centros, e não somente algumas das organizações que lhes estão subordinadas, possam encontrar-se, em muitos casos, em luta uns com os outros, porque o domínio no qual se situam é aquele no qual todas as oposições se dão em livre curso, quando não são harmonizadas e reconduzidas a unidade pela ação direta de um principio de ordem superior.

Disto resulta que, pelo que concerne as manifestações desses centros ou dos que deles emanam, uma impressão de confusão e de incoerência que não é ilusória; eles não se põem de acordo mais que negativamente, e assim se pode dizer, para uma luta contra os verdadeiros centros espirituais, na medida em que estes se mantenham em um nível que permita que uma luta assim ocorra, ou seja, segundo o que acabamos de explicar, no que se refere ao domínio dos "pequenos mistérios" exclusivamente.

Tudo o que se refere aos "grandes mistérios" está isento de tal oposição; e, com maior razão, o centro espiritual supremo, fonte e principio de toda iniciação, não poderia ser alcançado ou afetado em algum grau por nenhuma luta que fosse (e por isso se lhe chama "inacessível a violência"); isto nos leva a precisar todavia outro ponto que é de uma importância muito particular.

Os representantes da "contra-iniciação" tem a ilusão de opor-se a autoridade espiritual suprema, na qual nada pode opor-se em realidade, pois é bem evidente que então não seria suprema: a supremacia não admite nenhuma dualidade, e uma suposição assim é contraditória em si mesma; mas a ilusão deles vem de que não podem conhecer sua verdadeira natureza.

Podemos ir mais longe: apesar de tudo, sem saber eles estão na realidade subordinados a essa autoridade, do mesmo modo que, como dizíamos precedentemente, tudo está, mesmo que inconsciente e involuntariamente, submetido a Vontade divina, e nada pode subtrair-se disso.

São pois utilizados, por mais que não queiram, na realização do plano divino no mundo humano; jogam nele, como todos os demais seres, o papel que convém a sua própria natureza, mas no lugar de serem conscientes deste papel como o são os verdadeiros iniciados, se enganam a si próprios, e de uma forma que é a pior que a simples ignorância dos profanos, posto que, no lugar de deixar-los de certo modo no mesmo ponto, esta tem por resultado deixa-lo mais longe do centro principal.

Mas, considerando-se as coisas, não com respeito a estes próprios seres, mas sim em relação ao conjunto do mundo, deve dizer que, de igual a todos os demais, eles são necessários no lugar que ocupam, no entanto os elementos desse conjunto, e como instrumentos "providenciais", se diria em linguagem teológica, da marcha do mundo em seu ciclo de manifestação; estão pois, numa última instancia, dominados pela autoridade que manifesta a Vontade divina ao dar a este mundo sua Lei, e que o faz servir apesar disto para seus fins, devendo concorrer necessariamente em todas as desordens parciais da ordem total.

Mesr, 11 Ramadâ 1351 H. [1933].

NOTAS:
(1). Ver a Autorité spirituelle et pouvoir temporel.
(2). Segundo a doutrina islâmica, é pela nefs (a alma) que Shaitan pode prender o homem, enquanto que pela rûh (o espírito), cuja essência é pura luz, está além de seus ataques; é entretanto por isso porque a "contra-iniciação" em nenhum caso poderia tocar o domínio metafísico, que lhe está proibido pelo seu caráter puramente espiritual.
(3). A este respeito a nossa obra sobre L'Erreur spirite. (4). Se nos tem reprovado não haver tido em conta a distinção entre os "pequenos mistérios" e os "grandes mistérios" quando falamos das condições da iniciação; sucede que esta distinção não tem que intervir então, já que considerávamos a iniciação em geral, e que de outra parte não há nela mas que diferentes estados ou graus de uma só e mesma iniciação.
Artigo publicado em "Le Voile d'Isis" e não recopilado posteriormente. Parte do conteúdo foi retomado no Reino da quantidade e os signos dos tempos, cap. XXXVIII.

Se uma Ordem contra-iniciática se aproximasse de você e lhe propusesse filiação, você saberia, à luz desta lição, distingui-la de uma organização séria e identificar os riscos à sua vida?

Imagem publicada originalmente no blog Martinismos no dia 03 de janeiro de 2016.