Carta de Demissão de Jean Chaboseau como Grão Mestre da Ordem Martinista Tradicional

Image18 (2)Texto publicado originalmente no Boletim das Ciências Antigas, publicação da Sociedade das Ciências Antigas, em seu volume II, edição XIV, de junho de 2011. Você pode conferir o Boletim completo clicando aqui.

Setembro de 1947

Querida Irmã, Querido Irmão,

Quando, em janeiro de 1946, o Irmão Augustín Chaboseau me designou para sucedê-lo na Presidência da Ordem Martinista Tradicional, nomeação referendada pelos membros do Supremo Conselho, e fui chamado a ocupar este cargo, me vieram à mente algumas perguntas.

Naquela época, as afastei temporariamente para tentar por em marcha esta Ordem que, há que dizê-lo, começava de novo. Os ataques de que fui objeto, assim como o apoio moral com os quais me deparei, me levaram a perseverar naquilo que alguns quiseram chamar “uma missão”.

Desde essa data, a própria vida da O.M.T. com suas dificuldades, tanto materiais como morais, me obrigaram a reconsiderar a questão fundamental que tinha afastado, que não só é a da existência de uma Obediência, de uma Ordem Martinista, mas também da pró- pria função de Grão Mestre da Ordem.

O resultado destas reflexões é o que submeto a vossas meditações.

Quem é legítimo, quem é Tradicional do ponto de vista Martinista?

Louis Claude de Saint-Martin, nunca criou uma Ordem, nem uma organização.

Na Ordem dos Elus Cohen contribuiu, como os demais Réaux-Croix, com a transmissão e propagação de uma Ordem Maçônica. Mas, depois de retirar-se de qualquer sociedade ou organização, deixou de transmitir qualquer coisa desse tipo. Não propagou, nem organizou, nem criou uma Ordem, uma Obediência, uma Sociedade, já que não se poderia qualificar dessa forma, com tudo o que essa noção abrange a Sociedade dos Amigos ou dos Íntimos, à qual às vezes se faz referência.

Ele próprio escreveu a Liebisdorf (carta CX):

“A única iniciação que predico e que busco, com todo o ardor de minha alma, é aquela em que podemos entrar no coração de Deus e fazer entrar o coração de Deus em nós …Não há outro mistério para chegar a esta santa Iniciação que submergirmos cada vez mais até o mais profundo de nosso ser, etc.…”

E na mesma carta, faz uma comparação entre essa Iniciação e:

“… essas iniciações pelas quais passei em minha primeira escola, e que deixei desde há muito, para dedicar-me à única que seja verdadeiramente segundo meu coração… Posso assegurar-lhes que recebi pela via interior, verdades e alegrias mil vezes acima do que recebi do exterior. Não há mais Iniciação que a de Deus, e de seu Verbo Eterno que está em nós, etc.…”.

Saint-Martin, a partir de certo momento, deixou de atuar como iniciador com formalismos, Rituais e etc.

Nosso saudoso Irmão Augustín Chaboseau tinha redigido uma nota sobre o que foi chamada sua “iniciação”, por sua tia Amélie Boisse -Mortemart, nota que não deixa lugar a nenhuma dúvida a este respeito. Tratava-se somente da transmissão oral de um ensinamento particular e de certa compreensão das leis do Universo e da vida espiritual o que, em nenhum caso, poderia ser considerado como uma iniciação de forma ritualística.

As “linhagens” que chegaram a Augustín Chaboseau, a Papus, e a outros e que provém de Saint-Martin são, com efeito, linhagens de afinidades espirituais e de nenhum modo são constituídas por uma sucessão ininterrupta de cerimônias intangíveis, no seio de uma sociedade e em nome da mesma. Porque, para que se possa falar de una iniciação tradicional, é necessário que exista a transmissão do “sopro”, de “uma influência espiritual”, como o fazia Réné Guénon, em nome de uma organização, por fórmulas idênticas e transmitidas sem que se mude sequer uma vírgula.

É precisamente aqui que aparece a profunda contradição que existe, de um lado entre este desejo de libertação interior que deve ser liberado de todo formalismo para permitir que a personalidade espiritual se forme fora das coletividades e, por outro lado, esta tendência de alguns ocultistas de fins do século XIX, criando suas associações, ordens e sociedades.

Há uma qualidade da alma que constitui essencialmente o verdadeiro Martinista, é a afinidade entre as mentes unidas pelo mesmo grau em suas possibilidades de compreensão e de adaptação, pelo mesmo comportamento intelectual, pelas mesmas tendências e isto implica em esta obrigatória constatação de que o Martinismo é composto exclusivamente de seres isolados, solitários, meditando no silêncio do oratório, em busca de sua própria iluminação.

O dever de cada um destes seres, quando alcançam o conhecimento das leis do equilíbrio, é expandir sua compreensão, para que aqueles que devem ouvir participem no que eles creem e seja a verdade de sua vida espiritual. É ali onde pode intervir a “Missão de Serviço” do Martinista. Só neste sentido é que esta corrente espiritual particular encontra seu lugar na Tradição Ocidental.

No entanto, um Martinista verdadeiramente “tradicional” não poderia agir legitimamente em nome de uma Ordem com esse nome, porque então, deixaria de agir segundo as sugestões espirituais do Filósofo Desconhecido para submeter-se a uma formação recente procedente inteiramente do movimento intelectual que tinha por tarefa propagar as doutrinas “ocultistas” dos fins do século passado.

Porque não há uma regularidade da Ordem Martinista, senão numa relação sentimental para com Papus, já que não existe nenhuma outra tradição para nenhuma Ordem Martinista, a não ser a criação do Supremo Conselho em 1891, por Papus.

Com alguns amigos dos quais se tinha cercado (Papus), criou e organizou tudo. Os Rituais, inclusive, não existiam, em que pese às lendas. Só se “iniciava” com os “Cadernos da Ordem”, cuja redação data dessa mesma época. A princípio, entre 1891 e 1900, não houve nenhuma reunião fechada análoga às das Lojas. Foi só depois, sob a influência de um elemento que se fez preponderante, que a Ordem Martinista se converteu numa verdadeira Obediência.

Mas, era uma organização calcada sobre as ordens maçônicas, o que se chama paramaçonaria. Isto é tão verídico que sempre se manteve a “Iniciação livre” paralelamente à “Iniciação” em Loja, lembrança dessa liberdade individual da que goza todo verdadeiro Martinista, independentemente e pelo mesmo princípio de toda Obediência.

A ausência total de Rituais antigos, incluídos os qualificados como do “século XVIII”, permitiu a cada membro que assim desejava compor um. É por isso que o de Teder pode ser considerado por alguns como o da Ordem Martinista quando sabemos que não é assim. Neste sentido, qualquer Ritual é válido já que é composto por um Martinista, mas é inaceitável em si já que não corresponde a seu objetivo: servir de marco antigo e rígido a uma transmissão espiritual depositada em seu seio. Ora, este marco está vazio, seja qual seja a formação Martinista que pretenda aparecer no interior, já que não existe nenhuma transmissão ritualística deste tipo, e este marco mesmo não tem nenhum alcance mágico, porque não se apoia em nenhuma tradição real.

Os dois triângulos e os seis pontos nos quais consistiria a essência da Tradição Martinista, são uma adoção de Papus, assim como a divisão em três graus de uma iniciação que, pelo contrário, alguns consideraram como um único grau. O que não significa, em absoluto, que estes símbolos não puderam ter uma profunda significação e um valor real.

Todo o precedente não aponta ainda senão para uma das perguntas consideradas: a que se relaciona com a legitimidade de uma “Ordem Martinista”.

É evidente que nada impede as mentes formadas nesta compreensão particular da vida espiritual que, por costume chamamos “Martinismo”, reagrupar-se para estudar alguns textos, expor o fruto de suas próprias reflexões e que essas reuniões sejam legítimas se são livres e se não pretendem, de nenhum modo, constituir ou chegar a ser uma Obediência, qualquer que esta seja.

A pergunta fundamental, em minha opinião, é a que traz a mais grave contradição ao espírito livre e liberado de Saint-Martin, que é uma contradição flagrante e perpétua, a existência de um Grão Mestre do Martinismo, de uma personalidade que se pretenderia depositária da Tradição do Filósofo Desconhecido e que seria investida pelo direito de sucessão do cargo, de regulador supremo desta tradição, desta “Iniciação”.

Depois da morte de Papus, não existiu uma continuidade para a presidência da Ordem Martinista. Papus não tinha designado seu sucessor e se alguns membros elegeram Teder, uma grande parte não o aceitou em absoluto.

Victor Blanchard, então Secretário Geral da Ordem que, não obstante, tinha assinado a proclamação da “Ata de Teder” como Deputado Grão Mestre, rejeitou, logo a seguir, esta organização verdadeiramente nova, tanto por seus ritos como por sua composição e as novas obrigações que impunha a seus membros.

Blanchard constituiu então, por sua vez, uma Ordem Martinista, da qual foi reconhecido Grão Mestre. Teder teria designado Bricaud – más línguas pretendem que ele se teria autoproclamado - e Bricaud teve como sucessor Chevillon. Quando este foi assassinado, a Ordem Martinista, em sua nova apresentação (posto que as tendências maçônicas se tivessem acusado e lograram uma fusão híbrida com diversas organizações), teve por continuadores os Irmãos Dupont e Debeauvais. Hoje, não se sabe exatamente de quem são sucessores, apesar de afirmarem ter uma única regularidade Martinista.

Em 1931, alguns antigos membros do Conselho de Papus se reuniram, e rejeitando as novas diretrizes de Bricaud, quiseram reconstituir a Ordem Martinista de Papus e só ela, já que se sabia que era impossível ultrapassá-la (mais além de Papus). Foi quando o Irmão Augustín Chaboseau foi eleito Grão Mestre. Designou em seu lugar o Irmão Victor-Emile Michelet, porque este era mais velho que ele, e quando Michelet faleceu, como não tinha designado seu sucessor, voltaram à escolha anterior de Augustín Chaboseau.

Uma organização internacional que se pretende superior a todas as demais e que se apresenta como habilitada (por quem? quiçá nunca saibamos…) para regularizar as Sociedades ditas Iniciáticas, quis, em 1934, em Bruxelas, incorporar-se ao Martinismo: reconheceu como única “regular” a “Ordem Martinista & Sinárquica” de Blanchard e, em 1939, a Ordem Martinista foi presidida por Augustín Chaboseau que foi, por sua vez, reconhecida.

Os laços dessa organização, a F.U.D.O.S.I. (Federação Universal das Ordens e Sociedades Iniciáticas) com a A.M.O.R.C. (Estados Unidos) e outras diversas sociedades análogas, proíbem a qualquer pessoa de boa fé, levá-las muito a sério. Observemos, de passagem, que a Ordem Martinista de Victor Blanchard não levou o nome de “Sinárquica” senão mais tarde, e isto com o único objetivo de render homenagem à alta personalidade espiritual de Saint-Yves d’Alveydre.

Ordens Martinistas existem, desta forma, um pouco por todas as partes, cada uma com seu Grão Mestre, pretendendo-se sempre a única legítima e regular. Existe inclusive uma “Regência do Martinismo Tradicional”, que se apresenta como única na matéria.

Não existe, pois, nenhuma possibilidade válida para afirmar a “regularidade” de um Grão Mestre Martinista e Papus mesmo nunca quis que se referissem a ele para legitimar sua Ordem.

Quando chegou a certo grau de iluminação espiritual e de compreensão mística, pensou no futuro da Ordem Martinista e não sentiu, em absoluto, a obrigação de designar um sucessor, nem tinha previsto nenhum modo de eleição para a sucessão.

O Martinismo, enquanto Ordem, tendo terminado sua missão deveria, no espírito de Papus, somente orientado para a mística, voltar ao verdadeiro espírito Martinista individual, cessando toda existência.

Qualquer continuação do cargo do qual Papus se tinha revestido, e seja qual for o título é, pois, não só ilegítimo, mas também uma contradição com sua vontade final.

Quando em junho de 1945, uma reunião organizada por Augustín Chaboseau para constituir uma Sociedade dos Amigos de Saint-Martin e estudar o despertar da Ordem, a maioria dos presentes decidiu renunciar à via da obediência. Ignorando esse desejo, o Irmão Lagrèze conseguiu do Irmão Augustín Chaboseau que pusesse em vigor a Ordem da qual tinha sido o Grão Mestre em 1939.

Aqueles que conheceram bem o Irmão Chaboseau recordarão suas dúvidas, suas reticências durante esse o período, Setembro de 1945, e os últimos dias de sua vida. Mais que ninguém, quiçá, parecia-lhe uma contradição manifesta não só a existência de uma Ordem Martinista e o pensamento do próprio SaintMartin, mas também entre a liberdade individual e individualista do Filósofo Desconhecido e o cargo falaz de Grão Mestre. Para o Irmão Augustín Chaboseau, a existência de uma Ordem e de um Grão Mestre não lhe parecia mais que uma necessidade, assim como nos tempos de sua juventude com Papus, Michelet e Chamuel.

E há uma razão mais profunda, mais essencial, que governa todo o comportamento espiritual de um fiel ao espírito do Filósofo Desconhecido.

O Martinismo é cristão, essencial e integralmente cristão e não se poderia conceber um Martinista que não seja fiel a Cristo - ao Cristo Jesus, único Salvador e Reconciliador, Encarnação do Verbo.

Fica claro que grande número de Martinistas não é e continua a não ser penetrado por este espírito, perfeitamente universal no sentido cabal do termo. Desejando singularizarse, particularizar-se, cobiçando presidências, grandes maestrias, títulos e honras, em nome de um filósofo cuja modéstia e simplicidade são proverbiais, parecem desconhecer um dos primeiros preceitos cristãos, posto que a função, o título e as honras inerentes ao cargo de um Grão Mestre são absolutamente incompatíveis com a própria noção do espírito Martinista.

Há que recordar a rejeição que demonstravam Augustín Chaboseau e Octave Béliard para esse apelo: Augustín Chaboseau só aceitava o título de Presidente, para evitar os desvios para os quais se arriscavam a ir todos aqueles que queriam prevalecer-se desses títulos “Soberanos” pelos quais Papus se entusiasmava em sua juventude.

Perfeitamente convencido de que todas as deformações, todas as disputas de legitimidade e de regularidade, não tem razão de ser senão em função da existência desta Ordem Martinista e de todas as Ordens rivais que a sucederam, creio que cheguei a esta compreensão profunda de que, as dissensões, sejam quais forem suas aparências, não darão nada mais que provas da ilegitimidade congê- nita de toda Ordem Martinista oficializada. Concluí que era honesto dar-lhes a conhecer o resultado de minhas reflexões.

Levaram-me a esta convicção de que, se desejasse permanecer na linha e na tradição dos Filósofos Desconhecidos, especialmente do último, Louis Claude de Saint-Martin, não seria possível pertencer a nenhuma Ordem Martinista, seja qual for o qualificativo que se queira acrescentar, para diferenciá-la das demais e parecer superior a elas.

Por isso acreditei que era meu dever expor-lhes as razões que me levam a renunciar ao cargo e à dignidade de Grão Mestre da Ordem Martinista Tradicional. Rogo-lhe me considerem como demitido da Ordem.

Ao não ter que designar um sucessor, posto que, por um lado os Regulamentos Gerais e Particulares da O.M.T nunca foram determinados e, por outro lado por não reconhecer nenhum outro valor que a presidência administrativa ao pretendido cargo, me parece difícil que um novo Grão Mestre possa fazer-se reconhecer urbi et orbi, salvo por aqueles que, por sua própria vontade, desejarem que isso seja assim.

Desejo, sinceramente, que em razão deste fato, o Martinismo volte a ser o que deveria ter sido sempre: uma simples agrupação de mentes, unidas somente pelas mesmas aspirações espirituais e guiadas para a mesma busca pela única Luz do Cristo, fora de qualquer preocupação de Ordem ou de Obediência.

Pelo mero fato da minha demissão, declaro naturalmente isentos dos juramentos de fidelidade que me prestaram durante as recepções a todos aqueles que foram membros da Ordem Martinista Tradicional. Rogo-lhes que acreditem, querida Irmã e querido Irmão, que esta demissão não afeta em nada os sentimentos afetuosos e fraternais que nos unem e que conservaremos com toda liberdade, como verdadeiros fiéis espirituais do Filósofo Desconhecido. Jean Chaboseau

NOTA: Convém, com toda imparcialidade, elogiar o autor por sua sinceridade, sua modéstia e seu espírito de equidade.

Este documento foi publicado em sua integridade por Philippe Encausse em sua obra: “Sciences Ocultes” ou “25 annees d’occultisme occidental. PAPUS, sa vie, son ouvre”. Editions Ocia. 1.949

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