A Terceira Classe do Regime Escocês Retificado

Compilação de trechos da obra "A Obra de Jean Baptiste Willermoz" de autoria de Jean-François Var traduzido e publicado pela Sociedade de Ciências Ocultas.

A Terceira Classe, a Classe Secreta do RER

Muito tem sido escrito a respeito desta Classe.

Os “Grandes Professos” era “secreta” por definição. Willermoz, em seu “Preâmbulo” a Wilhelmsbad, dela fala somente sob uma forma obscura (o que não o impediu de receber, nos bastidores, as destacadas adesões de Charles de Hesse e do Duque Ferdinando de Brunswick, Grão-Mestre Geral da Ordem). A instrução aos C.B.C.S., datada de 1874, faz-lhe somente uma rápida alusão (não desespereis meu bem amado irmão, se seguires fielmente o caminho que acabamos de traçar, pois poderás encontrar algum dia aqueles Mestres, aos quais é inútil buscar se for empregada alguma via duvidosa. Eles vão à frente daqueles que os buscam com um desejo puro e verdadeiro”). Em 1872, “a lista geral dos Irmãos Grandes Professos” contava com 59 nomes reagrupados nos colégios de Lyon, Estrasburgo, Turim, Chambery, Grenoble, Montpelier e Nápoles (Steel-Maret, 1893, págs. 16-20). A Revolução causou-lhe muitos transtornos e, ao final de sua longa vida, Willermoz não contava com mais do que dois fiéis: seu sobrinho Jean Baptiste e Joseph-Antoine Pont. Mesmo assim, o Grande Professo ainda sobreviveu durante algum tempo na Alemanha graças ao Príncipe Christian de Hesse, mas sob uma forma extra-maçônica (cf. J.Fabry, 1984).

Com a morte de Willermoz, J. A. Pont tornou-se herdeiro de seus arquivos, tendo renunciado, entretanto, a qualquer função até o ano de 1832, segundo afirma “Le Forestier” (pág. 935). Este autor relata o fato de J. A. Pont não ter aceitado confiar tais arquivos à “L ́Union dês Cohen”, de Genebra, entre os anos de 1829 e 1832.

O Grande Professo estaria extinto durante esta época? Este seria o pensamento geralmente aceito caso não fosse o aparecimento de um artigo que produziu uma grande agitação. Tal artigo, escrito por um autor que assinava Maharba, foi publicado na revista “Le Symbolisme” no ano de 1969, onde afirmava que Joseph-Antoine Pont, no dia 29 de maio de 1830, havia concedido uma carta para a constituição do Colégio e Capítulo provincial dos Grandes Professos em Genebra. Segundo ele, o Grande Arquiteto do Universo jamais havia permitido que sua ação se interrompesse. Existiria, pois, um Colégio Metropolitano em Genebra para amparar o Grande Priorado Independente da Helvetia, mesmo apesar da afirmação do Ritual dos C.B.C.S. corrigido por esta Obediência: “Não há nada mais além na Ordem na qual acabara de ingressar”.

As suposições e conjecturas foram aumentando. Quem era este misterioso Maharba e de onde extraía o poder de suas afirmações? Na atualidade, sabemos que sob este pseudônimo se ocultava Jean Saunier, um destes maçons apaixonados com o dom de guardar a Maçonaria francesa em segredo. Falecido em 1992, deixou um dos livros mais inteligentes já escritos sobre a Ordem (“Les Franc-Masons”, 1972). Assim descreve o Grande Professo: “Caracteriza-se por uma grande renúncia: nenhuma pompa, nenhuma decoração, nada de espetacular, como se fosse destinada àquele que tivesse percorrido toda uma hierarquia de complexos graus, algumas vezes até plenos de “brilhantismo cavalheiresco”, e do despojar-se dos sonhos e ilusões. Não se sabia qual seria a melhor maneira de sugerir o quão vãs eram as formas exteriores para aqueles que se aproximam da iniciação verdadeira ou, em outras palavras, a necessidade de superar as formas” (pág. 239).

Não importa se Saunier fora recebido como Grande Professo em 1968, em Genebra ou em outra parte qualquer; não importa se a filiação tenha sido interrompida ou não depois de J.A. Pont. O essencial repousa em outro ponto: o “Segredo” do Professo e do Grande Professo é, atualmente, um segredo... público! Seus documentos, rituais e, sobretudo, as instruções fazem parte hoje do domínio público. Conservadas em Lyon, Haia e Copenhague, entre outras localidades, estão acessíveis a todos. Mais ainda, foram publicadas! Paul Vuillaud publicou as “Instruções aos Professos” em sua obra “Joseph de Maistre, Franc-Maçon” de 1926, págs. 231-247; Antoine Faivre publicou a dos Grandes Professos como apêndice à monumental obra “Franc-Maçonnerie Templière et Occultiste aux XVIIIe et XIXe Siècles” de René Le Forestier, 1970 (págs. 1023-1049).

Tais instruções, especialmente a segunda, são uma exposição bem completa e, sobretudo compreensível da doutrina de Martinez de Pasqually, arranjadas de modo a poder conciliá-las com as concepções católicas muito ortodoxas de Willermoz. Sua leitura é indispensável para uma melhor compreensão dos graus simbólicos do Rito, mais particularmente do quarto.

E isto não seria suficiente para salientar que, longe de serem secretas, tais “Instruções” não deveriam ser comunicadas a todo Maçom Retificado?

Por que manter, diante deste fato, uma ficção que só serve para atrair a cobiça, exaltar a vaidade dos “Eleitos” e suscitar a amargura dos demais? Ademais, se este grau “despojado”, segundo as palavras de Jean Saunier, tinha algum valor ritualístico, nada era em si mesmo.

O “Cerimonial das assembléias da Ordem dos Grandes Professos”, conservado no fundo Kloss (1) em Haia, confirma plenamente as afirmações de Maharba. Resume-se a preces de abertura e fechamento, muito próximas às preces retificadas do primeiro grau (sem a mesma ênfase cristã que caracteriza a do C.B.C.S., e contendo também as variantes previstas para os dias de recepção), uma fórmula de compromisso, um sinal e algumas palavras distintas para os dois graus (2). Os “Estatutos e Regulamentos da Ordem dos Grandes Professos” (mesma fonte) nos introduzem no círculo íntimo, ensinando-nos que as assembléias estavam consagradas, além das recepções, às “leituras, conferências e instruções” (art. 32). Discutiam-se as matérias das conferências “sem nenhuma cerimônia, sem que se pudesse fazer alguma distinção de nível entre os irmãos” (art. 737).

Tratava-se, em suma, de um círculo de estudos, similar aos que atualmente são organizados nas lojas, sejam elas retificadas ou não. Ninguém pode negar que tal estrutura seja ainda mais necessária na atualidade para que os maçons, iniciados segundo as formas do Rito Retificado, conheçam e compreendam aquilo que constitui o âmago de seu Rito. Tais estruturas são reveladas pelas Instruções aos Professos e Grandes Professos. Não esqueçamos que a estrutura dos graus retificados é dupla: iniciática (o ritual de recepção) e pedagógica (as Instruções). Aplicar na execução dos rituais a precisão e o cuidado que nossos Irmãos Britânicos dedicam aos seus é, de fato, muito correto. Limitar-se a esta exigência com o entusiasmo e a intolerância de numerosos convertidos (temos exemplos cotidianos em algumas de nossas lojas) não seria somente um erro, mas também uma falta. Para que então limpar a fachada do edifício se o tesouro que este guarda está descuidado ou ignorado?

O estudo destas instruções secretas, completado pela leitura dos graus Cohen, de seus catecismos, do “Tratado da Reintegração dos Seres Criados” de Martinez de Pasqually, e das obras de Louis Claude de Saint-Martin é indispensável para o maçom retificado, caso este queira merecer plenamente este título. Resta ainda saber se é necessário reservar este estudo somente aos membros escolhidos da Ordem Interior, como queria Willermoz, ou então, ao contrário, abri-lo a todos, se não desde o momento de sua iniciação, ao menos a partir do grau de Mestre Escocês.

A resposta a esta pergunta não é simples. Os documentos “secretos” do século XVIII são de domínio público na atualidade, e qualquer um pode ter acesso aos mesmos. Como, pois, proibir-lhes seu acesso? Seria preciso consolar-se recordando que os textos se defendem por si mesmos, o que, por outro lado, estaria certo?

O problema não é novo. Cada um sabe que a Ordem Interior Cavalheiresca comparece na pedagogia retificada como um parêntesis. A instrução específica, bem avançada no quarto grau, parece se interromper nos graus quinto e sexto, para então não mais ser retomada até a classe “secreta”. Neste caso, para quê conservar esta Ordem Cavalheiresca com sua pompa e decoração? Não seria supérfluo e destinado somente a exaltar a vaidade dos cavaleiros, revestidos de forma altiva e com um manto branco? A questão já foi exposta por Saltzmann e Bernard de Turckheim, que desejavam a supressão da Ordem Interior, de inspiração demasiadamente católica para o gosto dos luteranos de Estrasburgo.

Willermoz lhes responde sem rodeios em carta endereçada a Turckheim, datada de 3 de Fevereiro de 1783:

“Vós propondes, como fizera em sua época o Irmão ab Hedera, que não haja futuramente mais do que os três graus simbólicos, suprimindo assim o escocismo e os dois graus da Ordem Interior; ademais, que a classe dos Grandes Professos faça o 4º, que estaria aberto e, de algum modo, prometido a todos, posto que receber maçons nos símbolos, sem assegurar-lhes uma possível evolução, seria como estar fazendo uma brincadeira com eles. Porém, não havendo nenhum intermediário entre os graus azuis e o Grande Professo, resultará que todos, exceto aqueles que decididamente mereceriam serem expulsos, teriam direito aos Grandes Professos, e, no sentido de não admitir ninguém que fosse indigno, ter-se-ia de usar maior severidade na escolha do Primeiro Grau (3). Este projeto seria simples e atrativo, mas, meu querido amigo, não conheceis suficientemente bem os homens e o espírito de uma sociedade republicana para ver que é impraticável, independentemente do perigo habitual que representa...? Se do Terceiro grau simbólico se saltasse diretamente à classe de Professo, sem nenhum grau intermediário, isto não se operaria sem preparar o candidato demasiado abertamente neste Terceiro grau, e tal preparação não poderia se efetivar sem mesclá-lo às formas ou instruções religiosas, isso em maior ou menor grau; ademais, no momento em que fosse mesclada a Religião à Maçonaria na Ordem Simbólica veríamos operar sua ruína... para tornar preferível nosso regime desvelaremos seus princípios e objetivo particular, nossos discursos oratórios converter-se-ão em sermões, e nossas Lojas, em igrejas ou em assembléias de piedade religiosa; sobre todo o edifício do Regime não nomearemos a classe secreta, mas praticamente a desvelaremos e, quando for conhecido qual é seu objetivo, nos converteremos em suspeitos e seremos expostos a perseguições... segundo meu conceito, caro amigo, a Maçonaria Simbólica não deve ser mais que uma escola de moral e de beneficência, mas sem nela introduzir nenhuma mescla ou propósito religioso, a não ser os princípios gerais que toda sociedade Cristã deve professar. Parece-me indispensável que haja entre esta classe e a seguinte, ou seja, religioso-científica, uma classe intermediária que apresente alguns desenvolvimentos dos símbolos, velando a última para preparar a seguinte. Nesta segunda classe será exigida a prática exata do que foi ensinado na primeira, e a fidelidade nesta prática abrirá a porta da terceira. Por isto, esta segunda tornar-se-á útil à humanidade e lhe entregará seus melhores membros; este será o objetivo e termo final da Ordem, sem que se faça menção do objetivo secreto que não mais existe após a abolição do antigo sistema. Qual será a alma honesta que não se sentiria satisfeita ao encontrar como objetivo final um sistema moral e benfeitor posto em prática? Convenhamos que aquele que não se contentasse não mereceria ser recebido como aprendiz. Quanto aos que experimentarem esta dupla preparação, teórica e prática, mostrarão maiores aptidões e desejos da 3ª classe velada pela 2ª que será sua justa recompensa; mas a segunda deve ser, de todo modo, suficientemente interessante por si mesma, como que para satisfazer em seu sentido próprio àqueles que se sentiriam enfastiados na primeira e que não teriam a aptidão necessária para a 3ª..”

(em Renaissance Traditionnelle, 1978, 35: 179-181)

O projeto está claro. A primeira classe, teórica, ensina os rudimentos da doutrina por meio dos símbolos, ritos e instruções. Na segunda, a Ordem Interior, põe-se prática as virtudes morais e de beneficência. Esta exigência ética seguramente suplanta o marco das possessões, aplicando-se a todos os instantes da vida do cavaleiro maçom. É somente a aplicação prática desta exigência, juntamente com outras predisposições não definidas, que pode abrir as portas da terceira classe. A Ordem Interior é, antes de tudo, uma prova, destinada a seleção dos indivíduos dignos de ascender à última classe, consagrada ao estudo das matérias de cunho “religioso-científicas”. Destacamos o parágrafo no qual Willermoz condena aqueles que convertem as lojas em sucedâneas da igreja, mesclando indevidamente Religião e Maçonaria.

Pelo que parece, o assunto está claro. Uma classe organizada de Grandes Professos não pode ser concebida se não for escolhida no seio dos C.B.C.S. Porém, uma vez mais, seria somente isso que resta destas “Instruções”, cujo segredo se desvaneceu, tornando-se então algo público? Deixemo-las onde estão, acessíveis a quem as deseje, “abertas” a quem possa compreendê-las. O que poderia impedir que os Homens de Desejo, com ou sem “transmissão” se reúnam, na Paz daquele que está sempre entre eles, para meditar conjuntamente sobre os ensinamentos de nosso Rito? Destarte, não seria também esta a simplicidade tão quista por Willermoz (4)?

O Regime Escocês Retificado na concepção de Willermoz

Tal arquitetura concêntrica do Regime Retificado se apresenta da seguinte maneira em sua forma completa:

1) A classe simbólica ou Ordem Maçônica (em seus escritos posteriores, Willermoz emprega exclusivamente a primeira denominação) com os quatro graus de Aprendiz, Companheiro, Mestre e Mestre Escocês, que se comporá a partir da convenção da Gália.

2) A Ordem Interior com seus dois graus de Noviço e Cavaleiro.

Estas duas primeiras classes compõem as “classes ostensivas” do Regime.

Segue como continuação:

3) A dupla classe secreta que “somente será conhecida pelos que a compõem”, a do Professo e Grande Professo.

Finalmente, deixamos o regime retificado propriamente dito:

4) O nec plus ultra, sepultado sob o véu de um denso mistério, a Ordem dos Cavaleiros Maçons Eleitos Cohen do Universo com seus sete graus. Aqui encontramo-nos, em outras palavras, ante uma seqüência: iniciação de ofício – iniciação cavalheiresca – iniciação sacerdotal. Como tal, não é seguramente nem mais legítima, nem mais incongruente que a seqüência equivalente encontrada no sistema inglês: Lojas simbólicas e Arco Real – Templar Knights – Templar Knights Priests.

Nesta série é necessário fazer uma distinção entre a Ordem dos Eleitos Cohen e as demais. Esta última é a obra de Martinez de Pasqually, e somente dele. Willermoz, que profundamente a reverencia e respeita, de forma alguma tenciona tocá-la, alterá-la. Situando esta Ordem no coração de seu próprio sistema, mantém sua existência em absoluto sigilo e não levanta o véu desta discrição senão em favor de alguns confidentes escolhidos a dedo. Há de se ter em mente o fato de mesmo estando no centro da Ordem Retificada, a Ordem Cohen não é a Ordem Retificada: passando de uma a outra, muda-se literalmente de mundo. Não pertence, pois, a nosso estudo, e nada mais diremos a respeito dela.

Todo o resto, quer dizer, os quatro graus simbólicos, os graus da Ordem interior e os das classes dos Professos, consiste verdadeiramente na obra de Willermoz, sendo seu inspirador e autor principal.

Uma coisa interessante a ser dita de passagem é o fato de que Willermoz gostava deste tipo de arquitetura concêntrica, visto que já havia colocado em prática um anteprojeto que, em sua carta de apresentação a Hund, da qual temos apresentado vários trechos, assim descrevia:

“Pela exposição que realizei podeis ver que existem em Lyon três classes maçônicas de diferentes espécies, independentemente das lojas particulares. A primeira é a Grande Loja dos Mestres, inspetora dos trabalhos das lojas particulares, que abrange até o grau de Cavaleiro do Oriente. É presidida pelo R. H. Gaspard Sellonf, antigo e excelente maçom. A segunda corresponde ao capítulo dos Cavaleiros da Águia Negra, Rosa+Cruz, do Sol, etc, presidida pelo R. H. Jacques Willermoz, médico, o qual não pode estar em nenhuma loja em função de sua excessiva ocupação com os deveres de sua profissão, limitando-se a visitá-las somente quando suas atribuições assim o permitem. A terceira e menos numerosa corresponde ao Templo dos Eleitos Cohen, a qual tenho a satisfação de presidir. Esta última exige uma maior circunspeção devido a sublimidade de seus objetivos, escolhendo entre todas as demais classes que lhe servem de escola os indivíduos que lhe parecem mais apropriados. A segunda escolhe os seus integrantes dentre os membros da primeira e dentro também das lojas particulares cujos Veneráveis fazem parte da Grande Loja dos Mestres. Esta progressão que aqui estabeleço tem como finalidade oferecer-vos suficientes argumentos de modo a poderem indicar-me os caminhos que vos agradem prescrever-me”.

(Carta ao barão de Hund, 14-18 de Dezembro de 1772)

É melhor, porém, deixar que Willermoz apresente seu sistema por ele mesmo. É o que deveria fazer na convenção de Wilhelmsbad em sua sessão de 29 de Julho de 1782. Concedamos-lhe, pois, a palavra:

A província de Auvernia propõe que o futuro Regime esteja dividido em três classes distintas, das quais duas seriam ostensivas do Regime, e a outra somente seria conhecida por aqueles que  compusessem. Por um lado, objetiva-se que assim não seja provocada nenhuma inveja e, por outro lado, não esteja exposta a petições inoportunas. Segundo este plano cada uma das classes teria o número e a espécie de graus relativos a seu objetivo particular. A primeira classe dita simbólica, ficaria composta dos três graus fundamentais de Aprendiz, Companheiro e Mestre, além de um quarto grau, simples ou composto sob a denominação de Escocês. Este grau, ainda que sendo simbólico, começará a desenvolver um pouco o sentido particular para cada um dos três primeiros, conforme o que seja acordado. Esta classe constituirá a Ordem Maçônica e estará regida pela segunda, já que a terceira ou última não deverá ter nenhuma participação ou influência particular na administração do Regime.

A primeira terá como único objetivo o estudo e a prática das virtudes morais, sociais, religiosas e patrióticas em conjunto com uma ativa beneficência que seja útil à Ordem, às diversas sociedades e aos indivíduos que a compõem, e mesmo à humanidade em geral; isto, sem proibir em absoluto aos indivíduos das Lojas ou sociedades que tenham a aptidão e a oportunidade de penetrarem no sentido mais elevado dos símbolos e emblemas maçônicos, a faculdade de alcançar as luzes neste aspecto, sem que estes estejam obrigados a comunicá-las à Loja ou ao Capítulo aquelas que possam ter adquirido.

(O “sentido particular” do qual se faz menção corresponde à doutrina martinezista, progressivamente desvelada de grau em grau até a obtenção da faculdade de “penetrar no sentido mais elevado dos símbolos e emblemas maçônicos”, faculdade esta que não se adquire nas Lojas ou Capítulos, mas mais adiante).

“A segunda classe será o termo final reconhecido da Maçonaria, e constituirá a Ordem Interior à qual será confiada a administração do Regime. Conservará uma Ordem de Cavalaria sob o título de Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa, e terá um cerimonial particular análogo a esta denominação, o que assim estabelecerá ou conservará uma conexão com a antiga Ordem dos Templários. Assim, serão ou sucessores dos templários (não de suas posses, mas sim de seus conhecimentos), ou seus predecessores: isto, pois esta conexão pode ser analisada sob este duplo aspecto, uma vez que os Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa, pobres e existindo por sua própria vontade precederam, na mesma Ordem, os Cavaleiros Templários, convertidos em ricos e poderosos. É esta Ordem rica e poderosa que fora extinta, e não a primitiva Ordem, pobre e sem apoio”. (...). “A Ordem Interior terá dois graus: o de noviciado e o da Cavalaria. Será regida e administrada aproximadamente como se dá hoje em dia em nosso sistema, salvo as modificações que sejam julgadas convenientes pela convenção; e, no caso em que o plano lhe pareça adequado, quando lhe aprouver submeterei a seu exame uma fórmula de noviciado que a Província de Auvernia fez ser redigida para nela ser apresentada. Deve ser observado de passagem que todos nós professamos o Cristianismo, enquanto que a Maçonaria simbólica está totalmente fundamentada sobre o Antigo Testamento, e que esta nova fórmula estabelece uma transição natural da Antiga Lei à Lei de Graça sob a qual trabalhamos”.

A terceira classe é o de Grande Professo, que coroa todo o conjunto e onde se encontra desvelado o objeto real da autêntica iniciação. Sobre ela Willermoz se expressa com reticências devido a razões que analisamos em outra parte. Portanto, eis aqui a pedra angular do conjunto – e também sua pedra de toque – que cada um deve julgar segundo seu próprio critério:

O artigo primeiro do Grande Professo dispõe do seguinte:

“Artigo primeiro: O Grande Professo da Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa é o ato graças ao qual os cavaleiros e irmãos das classes inferiores da mesma Ordem, que após as provas requeridas são considerados dignos dela, são iniciados no conhecimento dos mistérios da antiga e primitiva Maçonaria, estando reconhecidamente preparados para receber a explicação e o desenvolvimento final dos emblemas, símbolos e alegorias maçônicas”.

Por outro lado, em uma carta a Saltzmann trinta anos mais tarde (Maio de 1812), Willermoz declara:

“A iniciação dos Grandes Professos instrui o maçom experimentado, o Homem de Desejo, sobre a origem e a formação do universo físico, seu destino e a causa ocasional de sua criação em um dado momento e não em outro; acerca da emanação e da emancipação do homem em uma forma gloriosa, e de seu sublime destino no centro das coisas criadas; acerca de sua prevaricação, de sua queda, do favor e da necessidade absoluta da Encarnação do próprio Verbo para sua redenção, e assim por diante. Disto tudo resulta um profundo sentimento de amor e confiança, de temor e respeito, de um vívido reconhecimento da criatura por seu Criador, sentimentos estes que foram perfeitamente conhecidos pelos chefes da Igreja durante os quatro primeiros séculos do Cristianismo”.

(Notamos nesta passagem uma surpreendente coincidência entre o pensamento de Willermoz e o de Guénon, separados por um século de distância). O texto prossegue da seguinte forma:

“Porém, tais elementos vêm se perdendo e se desvanecendo sucessivamente desde então, até chegar atualmente a ponto de os ministros da religião considerarem como inovadores todos aqueles que sustém a verdade, tanto em seu país como no nosso. Já que esta iniciação tem como objetivo restabelecer, conservar e propagar uma doutrina tão luminosa e útil, por que a classe que está especialmente consagrada não se ocupe com este quesito?”

A convenção de Wilhelmsbad, como se sabe, ratificou a obra de Willermoz – a “Reforma de Lyon” – com uma única exceção, porém importante: não fora admitida a existência de uma classe secreta de Grandes Professos. Os motivos que levaram a esta recusa não são muito claros, sendo que, paradoxalmente, a convenção contava com pelo menos oito deles dentre os presentes, incluindo o duque Ferdinand de Brunswick e o príncipe Charles de Hesse. Seria interessante elucidar estas questões.

Assim, oficialmente, o Regime Retificado jamais deverá incluir esta classe secreta. Inegavelmente, este fato foi para Willermoz um sério fracasso já que, sem o Grande Professo, o sistema por ele edificado ficaria gravemente mitigado, privado de seu pináculo, de seu coroamento, de sua pedra angular, quase mesmo da sua razão de ser. A contrariedade de Willermoz deve ter sido grande. Ademais, na prática, não levou em consideração esta lacuna nas decisões que ele desejava que a convenção tomasse.

Em primeiro lugar, porque atribuía ao Grande Professo uma importância demasiadamente grande, demasiadamente essencial para deter-se em função da incompreensão e falta de discernimento de um punhado de legisladores, ainda que fossem maçons. Ademais, pela simples e boa razão que o Grande Professo não teria de ser criada, uma vez que já existia. Continuaria operando do mesmo modo como fazia há vários anos, sob o manto da mais obscura discrição, o que deixaria Willermoz de alguma maneira, com certa liberdade para decidir as admissões.

O RER na Atualidade

O que Willermoz descrevia sob a denominação de “primeira” e “segunda classe” existe, porém segundo uma divisão diferente, imposta pelas circunstâncias históricas que acabamos de relatar.

Os quatro graus simbólicos foram dissociados. De acordo com a concepção inglesa, que somente reconhece três (não obstante, a Grande Loja dos Antigos era uma “Loja com quatro graus”, porém esta concepção não sobreviveu à União de 1813), a Grande Loja administra as lojas “azuis”, onde são conferidos os graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre. As lojas “verdes”, onde é conferido o grau de Mestre Escocês de Santo André (a referência a Santo André foi inclusa posteriormente em Wilhelmsbad) dependem do Grande Priorado da Gália, órgão superior do Regime na França, que também administra a Ordem Interior com seus Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa e seus Escudeiros Noviços.

O Grande Professo também desapareceu, aparentemente. Os Grandes Professos se perpetuaram na França e, sobretudo na Alemanha, porém sob formas extra-maçônicas, dissociando completamente sua existência da de seus colegas que mantiveram a sobrevivência de um sistema maçônico fadado a desaparição. Indiferentes à obra de Willermoz, ou quiçá simplesmente pelo fato de a Maçonaria não lhes interessar, continuaram, em contrapartida, dedicando uma admiração e apego apaixonado à obra de Martinez de Pasqually. Logo após o primeiro terço do século XIX o silêncio é total: os documentos já não dão mais nenhuma informação. Uma vez visto todo este contexto, o que há de se pensar?

Obtivemos como herança um edifício truncado em sua cúspide, que não é como Willermoz havia concebido, desenhado e elevado como hábil arquiteto que era. Truncado em sua cúspide: por acaso não é exatamente assim como se apresenta a coluna que figura no quadro da Loja de aprendizes com a inscrição Adhuc stat?

Sobre o Rito Escocês Retificado (R.E.R) e o Grande Professo, por Maharba.

(Reprodução da revista O Simbolismo onde foi publicado este artigo)

O Rito Escocês Retificado (R. E. R.) está na ordem do dia, para o melhor e para o pior.

É a aspiração da sociedade, tanto maçônica quanto profana, que realça o valor iniciático do R.E.R. na atualidade.

Ninguém o discute, ainda que moleste a alguns: este valor é grande e justifica que tenha um papel importante.

Porém, a natureza e a vocação do R.E.R. divide os exegetas no tocante a sua qualificação, e seus adeptos a sentem sob experiências muito diversas.

Eis aqui a necessidade de fixar o sentido atual do R.E.R. tradicional, para dar resposta às expectativas e juramentos.

Deve ser estabelecido o inventário do depósito transmitido aos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa. Com esta finalidade são oferecidos textos, estatutos, regulamentos, rituais, catecismos, instruções, correspondências, os quais são numerosos, seguros e admiráveis.

Porém, um fiel servidor não desperdiça seu talento. O mesmo desejo que levantou os monumentos literários do R.E.R. deve seguir lhe animando. Um fiel servidor exige que o depósito seja explorado sem cessar; precisa seu adequado uso.

Ademais, a Franco-Maçonaria, da qual o R.E.R. se orgulha ser de uma de suas preciosidades, subordina o falar ao fazer; do mesmo modo, o escrito ao oral, e o profano – quer trate-se de leitores ou ouvintes – ao sagrado. Isto não impede que certas exposições públicas favoreçam, às vezes, torpes resultados, e, em outros casos, evitem um sacrilégio, abortando assim o movimento.

Quando sentir-se autorizado a isto ou, então, autorizá-lo? E o que revelar destas verdades que socorrem os Homens de Desejo? Eis aqui as questões que os tempos levantam, cuja precisão se impõe nestes mesmos tempos. Se Deus o quiser, esta não tardará.

Eis aqui demarcada uma questão em particular: o Grande Professo do R.E.R.

Estudos impressos e rumores têm alentado a curiosidade e causado uma grande controvérsia. As lendas encontraram pretexto para nascer ou renascer.

Porém, os fatos são latentes; eles compõem a história e manifestam a doutrina dos Grandes Professos. Recordemo-los.

1) O Grande Professo, ao mesmo tempo em que os Professos dos Colégios metropolitanos, foi instituída no ato da criação da Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa, ocorrido na Convenção nacional da Gália no ano de 1778, em Lyon.

Deixou de existir oficialmente na convenção de Wilhelmsbad. De fato, bastou meio século para ser abolida, salvo algumas exceções individuais.

Assim, no dia 29 de Maio de 1830, Joseph-Antoine Pont, Eques a Ponte Alto, que era, segundo suas próprias palavras, o “Visitador geral depositário de confiança do falecido ab Eremo, o qual, por sua vez, era depositário geral e arquivista da IIa província, convertido após sua morte no único depositário legal do Colégio metropolitano estabelecido em Lyon”, constatando “a inatividade e suspensão indefinida dos trabalhos do mencionado Colégio metropolitano”, e considerando que era “o único grande dignitário da Ordem que subsiste deste mesmo Colégio, e que é tão importante quanto urgente prover a reconstrução deste”, outorga uma carta para a constituição do Colégio e Capítulo provincial dos Grandes Professos em Genebra. Para tanto, fundamentou-se nos artigos 22, 23, 24 e 25 dos Estatutos e regulamentos da Ordem dos Grandes Professos, que preveem casos desta natureza e evitam seu perigo de extinção.

A Suíça, além de continuar sendo o refúgio do R.E.R. e a Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa até nossos dias, converter-se-ia também na conservadora do Grande Professo.

2) O Grande Professo não pode ser confundida nem com um grau maçônico nem com um escalão cavalheiresco (5), e, sobretudo, menos ainda com estes graus e classes que sobrepuja.

Tem a si designado como objetivo: velar pela integridade e favorecer a cultura do depósito inerente à Santa Ordem primitiva, que existe desde sempre e que a Ordem dos C.B.C.S., nascida de uma dupla tradição maçônica e cavalheiresca, encarna no presente. Já os quatro graus simbólicos do R.E.R. (aprendiz, companheiro, mestre, e mestre de Santo André), e as duas classes da Ordem Interior (Escudeiro Noviço e C.B.C.S.), buscam formar e empregar depositários de confiança, cada qual segundo o nível e abertura dos quais goza. O Grande Professo é um depositário geral de toda a confiança.

3) O Grande Professo do R.E.R., classe suprema da Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa, é o ato através da qual os cavaleiros e os irmãos das classes inferiores da mesma Ordem, que tenham sido considerados dignos, são iniciados no conhecimento dos mistérios da antiga e primitiva Maçonaria após passarem pelas provas requeridas. Assim, são reconhecidos como aptos a receber as explicações finais dos emblemas, símbolos e alegorias maçônicas.

Portanto, não adentra nesta classe por nenhum tipo de iniciação cerimonial, nem por nenhum novo ornamento. A simplicidade objetivada pelo sistema inteiro da Ordem dos C.B.C.S. nela culmina na mais pura espiritualidade.

O Grande Professo encaixa-se com o arcano da Franco-Maçonaria e dela participa, ainda que não seja de essência maçônica. Seus segredos são inexprimíveis, e é assim que ela forma, por si mesma, uma classe secreta.

4) Os Grandes Professos, segundo suas leis, não dissimulam, em absoluto, exibindo sua qualidade. Porém, uma classe que é, afora isso, também uma Ordem, cuja espiritualidade – melhor ainda, seu espírito – constitui seu fundamento, poderia ser vulgarizada sem decair e perder sua honra e, com isso, seu mundo e razão de ser?

Estatutariamente, os Grandes Professos rechaçam as candidaturas e se cooptam por uma unanimidade obrigatória. De “Superiores Desconhecidos”, no sentido quase mitológico do título, lhes falta o incógnito, posto que todos são conhecidos C.B.C.S.

5) Apesar do apelativo de “Superiores Desconhecidos” falta-lhes também o tipo de superioridade que este título implica. Seus estatutos e regulamentos excluem sua possível intervenção na maquina administrativa da Ordem piramidal da qual, por outro lado é pedra culminante, imperceptível para muitos.

6) Por direito e dever e, de forma eminente, incumbem aos Grandes Professos as tarefas que o cuidado da Ordem requer com moderação de todos os Maçons Escoceses Retificados e de todos os C.B.C.S., Vigilantes e Guardiões, também especulam e motivam, favorecendo a investigação e as reflexões sobre o todo o legado, alentando assim a seus partidários.

Em seus aspectos contingentes, que grande variedade há nesta ação dos Grandes Professos!

O Grande Arquiteto do Universo nunca permitiu que esta se interrompesse. E não existe nenhum caso no qual esta ação tenha sido exercida (como teria sido possível? Como o poderia sem renegar a si mesma?) de outra maneira senão em espírito e em verdade, para o melhor do R.E.R. e da Ordem dos C.B.C.S., e de toda a Franco-Maçonaria; para ajudar aos homens que rogam, em todas as partes, freqüentemente sem dar-se conta, para que o sol da justiça brilhe, fonte única de luz e de calor, onde o Senhor estabeleceu sua tenda e da qual seu Espírito insufla.

Notas:

(1) O Dr. Georg Bukhart Franz Kloss (1788-1854) foi recebido como Grande Professo em Darmstadt no dia 17 de Novembro de 1827. Fez parte deste Colégio Alemão presidido pelo landgrave Christian de Hesse-Darmstadt, colégio este que somente a duras penas poderia ser considerado como maçônico, conforme a avaliação de Jacques Fabry (1984). Depois de sua morte, o Colégio entrou em plena decadência, sendo que haviam restado somente dois Grandes Professos em Frankfurt e somente um em Darmstadt, isso segundo a declaração de G. Kloss no ano de 1849 (Le Forestier, pág. 925). Sua rica biblioteca está conservada em Haia, no Grande Oriente dos Países Baixos. Contém sete manuscritos, em Francês e em Alemão, dedicados aos Professos e aos “Trabalhos dos Grandes Professos”, em Frankfurt de 1828 a 1835.

(2) Estariam completos estes documentos? Fala-se muito acerca da recepção do Grande Professo, de uma unção tal como é praticada no grau anglo-americano do “Holy Royal Arch Knight Templar Priest”. Nada impede, seguramente, que Kloss tenha consultado, ou simplesmente não tenha conhecido, um rito de inspiração sacerdotal. Pelo contrário, se ainda for praticado, haveria a necessidade de demonstrar que não fora inventado a posteriori. Além disso, ser um Grande Professo não pressupõe estar imune ao erro. Em seu artigo “Simbolismo”, Saunier diz que o Grande Professo “deixou de existir oficialmente na convenção de Wilhelmsbad”; ademais, não se fala a seu respeito publicamente, já que Willermoz decidiu deixá-la em “segredo”. Em Les “Franc-Maçons”, adianta que a liberação dos compromissos praticada no grau de C.B.C.S. corresponde à anunciação da renúncia do Grande Professo. Ademais, a liberação dos compromissos é uma invenção helvética do último século, que Willermoz nunca conheceu e que possivelmente lhe surpreenderia sobremaneira.

(3) É um grau como nível iniciático e não como o de um escalão militar no sentido que esta palavra tem em inglês, a qual se refere Willermoz. Em ocasiões anteriores me fora reprovado empregar a palavra grau, usual em francês, mas de inspiração inglesa, sem esta consideração para designar os graus do Rito Retificado. Acaso estava eu tão distante da tradição?

(4)  Um Grande Professo que elimina toda a aura de mistério; assim, sentir-se-iam atraídos nossos adornados dignitários? A simplicidade e o esforço necessário para chegar-se a elas seria compensador? Podemos certamente duvidar.

(5)  Assim, por exemplo, a linhagem sucessória dos G. P. do R.E.R. não é nem idêntica, e nem está aparentada com a filiação iniciática de nenhum outro grau ou classe da Ordem dos Cavaleiros Maçons Eleitos Cohen do Universo, fundada por Martinez de Pasqually. A história, o direito e o costume protestam contra toda esta confusão entre estas duas descendências, das quais a segunda não parece ter sido perpetuada até nossos dias.

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